É caso de falar de Morte em pleno verão, na novíssima tradução – e desta vez completa e direta do japonês, de Andrei Cunha. E considero muito relevante tratar desta coletânea de contos e não das obras maiores de Mishima, provavelmente O templo do pavilhão dourado (nome mais comum dado a Kinkakuji) e a tetralogia Mar da Fertilidade. Explico a razão. Neste livro você encontra todas as obsessões de Mishima.
Muito se fala do homem Mishima, suas contradições e sua morte, são feitas comparações entre ele, Kawabata e Tanizaki, etc., usa-se o lugar comum mais comum sobre o Japão (“país entre a modernidade e a tradição”), pois Mishima se transformou ele mesmo num personagem para lá de curioso, “exótico” (no sentido mais comezinho dessa palavra) e de interesse midiático, mas há obras dele que mereciam uma visão mais aprofundada, como é o caso da assombrosa pesquisa feita por Darci Kusano em Mishima, homem de teatro e de cinema. Para quem estuda ou tem interesse na obra de Mishima, a leitura de Kusano é incontornável.
Há quase duas décadas escrevi um artigo de fim de curso em que eu analisei um livro “secundário” de Mishima, Mar Inquieto, comparando o modo como ele lidava com a situação amorosa com o modo como Haruki Murakami o faz. Muitas décadas separavam um autor do outro e queria mostrar, colocando-os lado a lado, como o discurso sobre “modernidade versus tradição” se mostrava verdadeiro ou falso. Há uma riqueza imensa nessa comparação e naquele momento me interessa começar uma discussão.
Mishima viveu e sentiu a segunda grande guerra e viveu e sentiu o que foi a presença americana no Japão. Murakami nasceu em 1949, já com a presença americana, a humilhação do pós-guerra e vê um Japão crescer tanto e de forma tão capitalista, que autores europeus dirão claramente que o Japão é um país ocidental, ressignificando qualquer sentido geográfico que pudesse haver quando se dizia que o Japão era um país do Oriente.
Os critérios, lógico, haviam mudado. Tantos discursos surgiram, afinal, tanta tinta foi derramada. Ambos foram fascinados pelas coisas ocidentais, em particular as americanas: Mishima, por exemplo, amou o teatro da Broadway e Murakami traduziu para o japonês autores como Raymond Carver. Mas o Japão de um não era certamente o Japão do outro. Mas nem tudo são flores. Se é muito pueril lidar com o discurso dicotômico ocidente versus oriente, imaginar que essa paixão de ambos seja algo acrítico ou apenas uma paixão pelas “coisas ocidentais” seria um desafio árduo. Comecei o texto comparando a moderna literatura japonesa (que não havia começado com Mishima, obviamente) com certa pintura que foi feita no Japão a partir de estudos feitos por pintores da elite japonesa que tiveram dinheiro suficiente para estudar na França. Gente do mundo inteiro estudara pintura na França – incluindo brasileiros – , mas isso não quer dizer, e nunca quis dizer, que os brasileiros e os japoneses passaram a fazer uma pintura francesa no Japão ou no Brasil. Algo similar ocorreu com a literatura, e a literatura japonesa passou a ser um misto, um misto complexo, aparentemente ocidentalizado, com certo perfil da escrita ocidental (americana, francesa, inglesa, alemã), passou a lidar com questões discursivas “ocidentais” (Freud figura aí como um elemento chave), mas... japonesa. As grandes questões são japonesas. Ler um texto japonês de Soseki sem pensar no sentido de “katachi”, por exemplo, que permeia os objetos à volta das personagens, seria apenas ler um texto de Soseki. Eu dizia que Mar Inquieto era um exemplo interessante dessa complexidade, aparentemente ocidentalizada, mas que precisava ser vista com um olhar mais atento, talvez mais erudito. A mestra da disciplina odiou e me deu a nota mais baixa que tirei na vida. Depois o texto foi publicado por uma revista de literatura, mas eu continuei na dúvida. Estaria eu tão equivocado?
Tantos anos depois, volto a olhar Mishima e sei que eu tinha razão. E essas obras “menores” de Mishima mostram exatamente o que eu dizia: olhar uma pintura feita por um artista japonês da passagem do século XX para o XXI não é, por óbvio, olhar uma pintura francesa do mesmo período. Ver o moderno design japonês ou a moderna e cultuada arquitetura japonesa, apreciar a tecnóloga japonesa ou mergulhar no cinema japonês é ter contato com algo diferente, um amálgama complexo, tão complexo que parece ali haver metais não conhecidos nas tabelas de química.
Algo similar ocorre com a escrita de Mishima. Sei que parece banal dizer isso, dessa forma, mas a escrita de Mishima nada tem de banal. Vez por outra, ela parece simples, pois sua escrita é simples, direta, sem grandes volteios, embora ele admirasse autores como Proust... mas digamos que ele está mais interessado na profundidade por vezes obscura das relações humanas – em particular a amorosa – que ele encontrou em leituras como as de Bataille. E ele cavoca detalhes, objetos, olhares, palavras, silêncios, para descobrir ali o que há de oculto, secreto, não aparente numa primeira olhada.
Morte em pleno verão tem dez contos, sendo o primeiro o que dá nome ao livro. A técnica de Mishima vai ficando clara ao longo da leitura: no geral, ele monta um cenário, com riqueza de detalhes descritivos. Depois, vai para o ápice (como passasse do objeto para uma inspeção corporal, mental) e dali para finais quase misteriosos de tão ambíguos. No primeiro conto, há um casal que perde dois filhos afogados numa praia. Na mesma situação, a irmã do marido, que cuidada das crianças, tem um mal súbito e também morre. São três mortes em apenas um dia, na mesma família, e toda essa situação traz questionamentos, como, por exemplo, as sensações contraditórias que temos ao vivenciar o luto. Em certo momento, a personagem da esposa se pergunta se deve sofrer ou se punir, se deve odiar a cunhada ou ter pena dela, se deve seguir a vida ou viver em sofrimento. Diante de tanta dor, há a percepção de que o mundo continua como é. Tomoko, a esposa, passa a viver um vazio existencial tão intenso que alguns críticos comparam essa personagem ao próprio Mishima. Sobre esse vazio, aconselho a leitura do ensaio Mishima ou a visão do vazio, de Marguerite Yourcenar.
O segundo conto chama-se O biscoito de um milhão de ienes. É um conto aparentemente banal, afinal contos sobre casais existem aos milhares, mas alguns se manifestam como alta literatura (pensei agora em na Jhumpa Lahiri no conto Uma situação temporária, em que uma situação aparentemente banal descortina um universo de dores, sendo o casal também de pessoas deslocadas de sua cultura). Aqui temos um fragmento da vida de um casal japonês americanizado (essa abordagem, a da americanização, surge em vários trechos do livro): o sonho de consumo, numa sociedade cada vez mais capitalista, a utilização de um parque como metáfora para esse sonho, o parque como um sonho mesmo, em que a realidade por vezes se mistura com o conteúdo do sono/sonho, etc. Mas é o desfecho do conto que é brilhante: sem revelar exatamente o que o casal faz para poder juntar mais dinheiro do que o trabalho de cada um permite lhes dar, o narrador insinua que eles fazem um tipo de trabalho estranho. Após o término do trabalho haverá um “horror à luz do sol”, ou seja, onde e quando tudo poderia ser revelado, incluindo aí o tipo de relação desse casal com pessoas poderosas e obscuras. Em cada linha, o olhar perscrutador de Mishima. É uma narrativa genial, dessas que dariam uma aula incrível sobre escrita num curso de Literatura. Mishima é um autor de detalhes, audaciosos e perspicazes.
O terceiro conto chama-se A garrafa mágica e nenhum dos demais mostra tanto a preocupação do autor com os costumes ocidentais. Asaka, a mulher que encontra um antigo amigo/cliente em São Francisco, é mostrada quase como uma boneca, que seu benfeitor atual pode dominar e configurar como quiser. Seu benfeitor precisa ensinar a ela os detalhes da vida de uma mulher ocidental: como se maquiar e comer, como agir numa situação pública e o que colocar nos pés, e por aí vai. A pergunta que Mishima se faz aqui, muito espetacularmente, é: o que sobra do Oriente em alguém que se ocidentaliza? Nesse conto, também, se percebe uma situação muito comum nas obras de Mishima, que é a tensão sexual (e, claro, sempre a busca pelo belo, bela beleza, por aquilo que é considerado bonito e a razão que leva a essa identificação das coisas). Eu diria, igualmente, que há a dúvida (a menina seria filha de Kawase, o homem?). Mas o conto precisava de um mistério, ou de um elemento que o amarrasse: então, Mishima lança mão de uma garrafa mágica, elemento que poderia muito bem ser encontrado em um conto da tradição budista ou xintoísta (algo que dá ambiguidade nas narrativas pedagógicas budistas). Há muitos elementos da tradição na escrita de Mishima – e nem todos ficam claros para os leitores ocidentais, infelizmente.
O conto seguinte, O amor do homem santo de Shiga, é um exemplo inquietante do como Mishima lidava com textos da tradição. Trata-se de um trecho do Taiheiki, imensa coletânea de textos do século XIV, os quais narram eventos da guerra entre duas cortes, a do Norte e a do Sul. Talvez nenhuma outra obra de Mishima seja tão tributária da tradição que Kinkakuji, mas há muitos textos dele em que ele volta ao Japão medieval em particular ou a textos da longuíssima tradição japonesa, literária, histórica, religiosa. Chamo a atenção para a tensão entre o mundano e o sagrado, a beleza e a fealdade, a pureza e o mundo corrompido. Não pensaremos que o universo de Mishima é tão dicotômico desenhado assim, como pela mão de uma criança. Em verdade, ele mergulha profundamente nessa temática – e isso será visível nas chamadas obras maiores.
O quinto conto, Até a última ponte, é um conto humorístico, mas sempre com o olhar filosófico de Mishima. Há ali um certo tipo de humor que não é incomum na tradição budista: olhar o mundo com um sorriso (que nada tem de inocente) é tarefa, talvez, do monge que se prepara para grandes questões. O riso é sutil, o que não quer dizer que não seja profundo. O ponto para o qual eu chamaria a atenção é o destino inescrutável e que não podemos dominar. Para chegar até ali, abordagens sobre a inocência, a crença, a fé cega, e ainda a irrelevância possível da beleza frente ao mistério do que nos domina, pois, afinal, tudo acaba – e esse sentido de “fim” atravessa a obra de Mishima quase como uma linha mística ao redor da qual as personagens gravitam.
O conto seguinte, Patriotismo, é a narrativa que Mishima levou para as telas, quase palavra por palavra. É o conto mais impressionante de Mishima, sem sombra de dúvida. Por vários motivos. Não apenas a tensão Eros/Tanatos se coloca como central, como a descrição é ao mesmo tempo pura e radical. Mishima descreve uma linda cena erótica para logo em seguida descrever o suicídio ritual de um casal “patriótico”. Mishima não apenas deixou imensos e pesados textos sobre essa cena – e o trabalho do ator no teatro e no cinema – como escreveu em particular sobre as entranhas, que simbolizariam a “sinceridade humana” na cultura japonesa. Ele, então, diz claramente que expôs “sua sinceridade” (empresto aqui o raciocínio de Darci Kusano). Em paralelo, o conto – e também o filme – impressiona porque anos depois ele mesmo cometeria o suicídio ritual (o que tragicamente não deu muito certo porque a vida acaba não imitando a arte nos seus detalhes cinematográficos, mas isso é outra história), com detalhes antecipados nesse conto.
O sétimo conto, Dojoji, é um conto surreal, feito como fosse a encenação do que ele chama de “moderno teatro nô”. Trata-se de uma narrativa sobre humor e morte. O curioso é ele mesclar elementos do teatro moderno europeu com elementos do nô. É um texto breve.
O oitavo conto, Onnagata, traz algumas obsessões do autor: amor e ciúme, a transexualidade (ou a sexualidade e seus limites, e para quem tem interesse, sugiro a leitura de Confissões de uma máscara e Cores proibidas). Temos aí também uma investigação muito interessante sobre o teatro tradicional e o antigo, mas fundamentalmente algumas questões sobre o agir, algo que explode em Kinkakuji como nunca.
Os dois últimos contos, As pérolas, e Papel-jornal, trazem questionamentos sobre ética pessoal, riqueza e culpa, outras dicotomias. O primeiro, com uma dose curiosa de humor, leve.
Mishima morreu relativamente jovem, com 45 anos. Deixou uma obra intensa, pesada, inquietante. Foi um homem de uma paixão avassaladora. Dúbio? Incoerente? Contraditório? Talvez todos sejamos. Escreveu freneticamente. Sua obra não se reduz a contos e romances. Ele lidou com teatro, cinema, escritas para jornais e um tipo de crítica/diário das coisas que via e fazia, como poucos escritores modernos fizeram. Manteve correspondências longas com gente da importância de Yasunari Kawabata e tantos outros. Viajou muito. Esteve no Brasil e deixou comentários incríveis sobre o Rio de Janeiro. Haveria muita coisa para contar sobre ele. Não é de se estranhar que Yourcenar tenha começado a estudar japonês aos 60 anos exclusivamente para tentar um contato mais direto com a obra de Mishima. Por onde começar? Morte em pleno verão é um bom começo. Vida à venda também seria um começo bastante interessante. Só não deixe de ler Mishima. A tetralogia Mar da Fertilidade volta e meia ganha novas edições no Brasil. É pesado. Comece com algo mais “leve”, embora leveza seja uma questão filosófica em Mishima...