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Romance de estreia de Fernanda Magalhães tem pulgas, 8 de janeiro e invenções formais

"Quarta-Feira de Cinzas de Loja de Fantasias", lançado pela Arte e Letra, é belo exercício de como entreter o leitor com inteligência

Romance de estreia de Fernanda Magalhães tem pulgas, 8 de janeiro e invenções formais
Fernanda Magalhães: da psicologia para a literatura. Foto: Arquivo pessoal

Se você gosta de quebra-cabeças, o livro de Fernanda Magalhães é para você. Lá pelo meio do romance, que tem perto de 100 páginas, você vai ter juntado pecinhas suficientes para estabelecer com algum grau de certeza coisas como: quem são os personagens principais e o que está acontecendo com eles. E se você acha que isso parece aflitivo, não se preocupe. A autora cuidou de fazer tudo de um jeito bem divertido.

Tem de tudo no livro, que é a estreia de Fernanda (curitibana, psicóloga) na literatura de ficção. Tem pulga que fala com cachorro, tem cachorro que narra capítulo; tem gente em protesto bolsonarista, tem golpe na firma; tem história de casal lésbico, tem homem sacana; mas, principalmente, tem bastante invenção formal.

Talvez o trecho mais bem sacado do livro, que aliás chama "Quarta-Feira de Cinzas na Loja de Fantasias", seja um capítulo formado só por e-mails. É como se você tivesse acesso à caixa de entrada de uma das personagens, e ali vê de tudo. Tem desde spam até algumas mensagens que realmente te fazem entender as motivações das personagens (por que, por exemplo, a filha não quer mais saber do pai).

E tudo isso você vai somando, vai juntando em pedacinhos. Percebe que o sujeito no meio do Oito de Janeiro (sim, aquele Oito de Janeiro) é o mesmo que apareceu na outra cena e - epa! - será então que foi ele que tinha casado com aquela outra personagem? As coisas passam a fazer sentido e você percebe que está no meio de uma trama, ainda que no começo tudo tenha parecido meio doido e quase fortuito.

Veja abaixo uma conversa com a autora:

Você diz que começou essa história com um conto. O conto ainda está inteiro ali dentro, ou se dissolveu? Como virou uma coisa virou a outra e qual o papel da (professora de escrita criativa) Julie Fank nisso?

Quando procurei a Julie, eu já tinha escrito um conjunto razoável de crônicas e queria alguém que lesse meus textos e me desenvolvesse na escrita de contos. Ela me disse que como cronista eu já estava pronta, mas se eu quisesse migrar para a ficção, meus personagens precisariam ter mais plasticidade, porque dos contos que eu já tinha escrito, as personagens eram muito “eu”. Eu queria escrever ficção, porque queria poder sair do meu ponto de vista e dos fatos, queria a liberdade da fabulação e mais que tudo queria dar um destino para a quantidade absurda de pensamentos intrusivos, histórias hipotéticas, conspirações e inspirações que bombardeiam a minha mente todos os dias. 

A Julie também me perguntou por que contos e não romances? E eu disse que achava que não tinha fôlego para tanto. Começamos alguns exercícios e daí que surgiu o conto que deu origem ao romance. Ela pediu que eu escrevesse uma história em um gênero que não fosse literário, por exemplo, uma bula de remédio. Eu desengavetei uma ideia sobre um ex-publicitário que perdeu tudo e teve que virar Papai Noel de shopping e a escrevi em forma de caixa de entrada de e-mail. O capítulo está no livro com poucas modificações com o título de Todas as demais.

As mensagens trocadas com familiares, amigos e agências de emprego estavam abertas, para dar ao leitor a sensação de estar bisbilhotando. Ao lê-las, era possível construir a história da ruína financeira e familiar de Nuno Piva e das buscas por um emprego de Papai Noel. Pelo spam era possível deduzir suas preferências estéticas, de consumo, de leitura e sua situação financeira. Ao ler esse texto, a Julie sentenciou: “daí sai um romance” e pediu para eu desenvolver algum personagem que aparecia nos e-mails. Escrevi, então, o capítulo que trata da invasão de 8 de janeiro, em que Nuno Piva e sua namorada são vistos em meio a turba por agentes da polícia federal que assistem aos vídeos das câmeras de segurança.

A partir daí, decidi como seria a estrutura do livro: cada capítulo teria duas personagens femininas conversando sobre suas vidas, mas só a voz de uma delas apareceria. A fala da interlocutora precisaria ser deduzida pelo leitor. A história de Nuno Piva apareceria em segundo plano e deveria ser construída pelo leitor a partir da fofoca e do ressentimento, mas também do amor e da admiração presentes nas falas das personagens. Dentre elas, uma cachorra, uma pulga e uma piolha. Elas surgem no texto porque, como eu tomei a decisão de não dar voz ao protagonista e ao mesmo tempo não usar a terceira pessoa para narrar a história, precisei de uma cachorra que presenciasse alguns momentos da trajetória de Nuno e essa cachorra precisava conversar com alguém, a pulga, que por sua vez também precisava de uma interlocutora, a piolha que residia na cabeça de Nuno. Além disso, sou uma pessoa apaixonada por realismo fantástico, então também foi uma escolha estética introduzir elementos fantásticos na narrativa.

Tem um belo de um exercício formal na narrativa, até bem ousado para quem está na primeira experiência como romancista. Como foi isso de decidir narrar em fragmentos, sem linearidade?

A escolha do estilo de narrativa fragmentada, não linear e com o objetivo de fazer o leitor preencher os buracos e construir a história com os elementos que eu distribui ao longo do texto tem a ver com o meu gosto pela subversão da linguagem. Havia também a ideia de tentar perverter a jornada do heroi, criando um heroi em ruinas e descrevendo essa história como segundo plano da história de outras pessoas. Tudo isso porque o meu interesse é mais no trabalho de linguagem do que na história propriamente dita. Livros que têm uma história fascinante, mas que são contadas de uma maneira convencional, não me atraem. Eu gosto de decifrar livros e textos e, quando escrevo, quero causar o mesmo tipo de espanto que eu gosto de sentir como leitora.   

Além da coisa caleidoscópica, você teve que imitar o estilo de pessoas diferentes, de falar, de narrar. Isso foi difícil como parece ser?

Inadvertidamente eu acabei exercitando o que a Julie tinha me falado no início: a plasticidade dos personagens. Dos principais (Carmen Piva, Marilena, Débora) escrevi a biografia em um arquivo separado. Dos demais, detalhei datas e acontecimentos, assim como a relação que tinham com Nuno e sentimentos associados. Para trabalhar o estilo verbal de cada um, fazia um exercício de imaginar o personagem, identificar uma pessoa real que eu achasse semelhante e tentar emular seu jeito de falar, misturando com algumas palavras, gírias ou vícios de linguagem relativos à idade, época e aspectos socioculturais. Por fim, tive que fazer uma super linha do tempo com todos os personagens de todos os capítulos, para que a história não tivesse nenhum furo cronológico. Tive inclusive que fazer uma série de mudanças nos capítulos envolvendo os bichos, por causa da expectativa de vida deles.

Você é da psicologia, e parece que tem mesmo um gosto por estudar os personagens ali, mais do que em fazer uma trama, bolar reviravoltas. Você pensou mesmo primeiro nas pessoas envolvidas e depois na história ou é só impressão?

Sim, primeiro eu imagino os personagens e talvez tenha facilidade para fazer isso por ser psicóloga e mais especificamente, trabalhar com clínica, pois em meu trabalho todos os dias ouço em pormenores e analiso a história de diversas pessoas, com diferentes formas de narrar, de sentir e reagir. Então como cada capítulo é contado por alguém, eu precisava imaginar essa pessoa, para então ela poder contar a história.  E de fato não me detive em reviravoltas. Por exemplo, existe o escândalo que foi o precipitador da ruína de Nuno. Eu até cheguei a pesquisar escândalos envolvendo publicitários, fiz até uma pasta. Por fim, decidi apenas contar que houve um escândalo. Fica para o leitor a tarefa de imaginar o que aconteceu. Fiz isso para não dar tanto destaque para o protagonista, seguindo a lógica de deixá-lo em segundo plano. O efeito de reviravolta acaba acontecendo por um novo personagem que aparece e surpreende com a sua história.

Serviço
"Quarta-Feira de Cinzas na Loja de Fantasias", de Fernanda Magalhães
Editora Arte e Letra, 120 páginas, R$ 65,00
Para comprar, clique aqui

Rogerio Galindo

Rogerio Galindo

Jornalista, um dos fundadores do Plural.

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Tags: Livros cultura

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