Escrevi umas palavras sobre o filme de Almodóvar mais recente, “O quarto ao lado” e surgiram situações literárias muito interessantes, a começar pelo livro que serviu de base para o roteiro do filme, “O que você está enfrentando” (título brasileiro; em Portugal ficou “Qual é o teu tormento?”, traduções para “What are you going through”), da autora americana Sigrid Nunez.
Entre duas histórias paralelas, ou melhor, entre uma história central e outras paralelas, a autora cita diversas obras e autores, como Joyce, Woolf, Lenora Carrington, Faulkner, o que traz a possibilidade de diversas interpretações e o mesmo faz Almodóvar – eu diria que ele ainda bate mais nessa tecla, afinal, seu cinema é repleto de referências de cor, design e designers, livros, filmes, obras de arte, etc. Minha preocupação, foi, então, de início, verificar como cada um desses autores carrega algum significado possível para o roteiro.
Mas o espaço aqui é literário e não crítica de cinema. Tive de ler Sigrid Nunez e a leitura trouxe interessantes insights não apenas sobre a autora como sobre o mercado editorial e os leitores, ao menos certo “tipo” de leitores e certo “tipo” de mercado editorial.
A escrita de Nunez é bastante direta, digamos direta e reta, sem grandes malabarismos sintáticos, sem esforços no caminho de uma linguagem experimental e sem vocabulário culto. A literatura precisa ser experimental? Não obrigatoriamente, mas o assunto é, senão espinhoso, profundo o bastante para não caber aqui. No máximo, como disse acima, o narrador faz menção a autores/as que de um modo ou de outro trazem uma superfície de sentido ao que se é narrado. Em verdade, uma das características mais relevantes para mim desse tipo de escrita é justamente a recusa à linguagem elaborada. Não em vão a escrita de Nunez é comparada à escrita de autores como Rachel Cusk, famosa por começar uma trilogia com uma conversa superficial e banal num avião (falo da trilogia “Esboço”, “Trânsito” e “Mérito”). Claro, alguém dirá que tal tipo de abordagem da linguagem tem a ver com uma arquitetura desenhada e pensada, e que esses livros terão algo de “ensaístico”, pois tratam de temas profundos, como a morte, a perda, a distância, a solidão ou, enfim, qualquer tema considerado “profundo”. Penso seriamente que não apenas as escolhas vocabulares, a sintaxe, os recursos coesivos, os discursos desse tipo de obra estejam mais para uma linguagem particular que se construiu e constrói no meio da internet e das redes sociais que permitem textos maiores, como o Facebook.
Mas tentemos algum caminho que pareça menos subjetivo que minha mera opinião e que traga algum recurso de análise.
Sigrid Nunez ou Rachel Cusk não são as primeiras autoras a trazer para a literatura a linguagem do dia a dia ou as grandes questões humanas disfarçadas em uma discussão banal. Tolstói fez isso quando dá a um cavalo voz e quando traz para sua escrita erudita o palavreado do sujeito comum e não aquele do grande senhor russo. Suas escolhas vocabulares dão trabalho aos tradutores porque a pergunta que se faz é “como vou trazer para o cotidiano simples da minha língua o vocabulário dos cuidadores de cavalos da Rússia do século XIX?”. Alice Walker ou Toni Morrison tentaram com maior ou com menor sucesso fazer com que suas personagens do final do século XIX ou do começo do século XX tivessem uma “lógica linguística” – e inclusive foram criticadas por isso, com o discurso de que mostravam um homem/uma mulher negro/a rústico/a e analfabeto/a. Foi um risco. Mas ninguém dirá que a discussão que Tolstói faz sobre o humano (ele finaliza o conto abertamente dizendo que os restos de um cavalo tiveram utilidade enquanto os restos de um homem, não) ou que Toni Morrison faz sobre o humano sejam incoerentes ou desqualificados porque a linguagem é a do dia a dia de pessoas simples.
Nos tempos atuais, um autor que traz a linguagem do cotidiano e os problemas do cotidiano numa discussão muito profunda, e aparentemente simples, apenas aparentemente simples, é Ingo Schulze. Sei que há outros. Mas no caso de Schulze um problema aparentemente sem importância, um barulho, uma casca de laranja, um desencontro, descritos de maneira bastante engenhosa, fazendo o leitor crer que lê algo banal, descortinam uma reflexão sociológica, histórica ou filosófica. Falarei dele logo, aqui neste espaço.
Para facilitar um pouco a leitura, farei uma lista das características principais dessa literatura, para além da recusa à linguagem elaborada:
a) A presença do pós-humano. Longe de mim tentar definir o que seja o pós-humano e as pós-humanidades. Mas penso no homem “multitelas” atual e no como a escrita de Nunez incorpora o “multi” desse universo “telas”. Não posso dizer se se trata de uma técnica de escrita ou de um recurso pensado (em Cusk isso se dá de modo muito similar, aliás), mas a narrativa é feita ela mesma em multiplicidade, assim como o internauta pode navegar de uma coisa para outra, de um segundo a outro, de modo a esquecer onde começou a navegação. É um homem-quase-máquina. Na narrativa de Nunez, o narrador “pula” de uma história para outra, mas essas histórias não gravitam em torno da história central. São outras histórias, embora grande parte faça menção à perda. O passeio por outras histórias é tão intenso que até um gato ganha voz, num dos momentos mais frágeis e desnecessários do livro.
b) É uma linguagem mesclada, entre o culto (mas nunca o erudito) e o popular, não muito diferente dos “textões” das redes sociais. Não é incomum nas redes sociais (eu mesmo faço isso) a menção a um grande pensador numa discussão bastante rasa. Essa linguagem se aproxima da linguagem de uma grande rede de obras escritas que fazem algo igual ou similar: livros de autoajuda, de “religião”, de negócios, de investimentos, de “análises políticas”. Os grandes temas universais (se é que se pode falar assim) estão presentes, mas sempre pela superfície. Mais palatáveis, são mais lidos; mais fáceis, são mais vendidos – e não é de hoje que têm feito sucesso nas grandes feiras de livros, sugando tudo a sua volta, asfixiando pequenas editoras e autores com “outra pegada”. Essa linguagem facilitadora se vê em grande parte da poesia atual, para não falar da produção ficcional. Eu diria que essa linguagem conversa de perto com a linguagem do marketing e da propaganda, assim como das séries televisivas, fáceis de ver, e rápidas.
c) Este livro em particular de Nunez é parente próximo dos livros de autoficção. Outro dia posso falar melhor dela, mas a autoficção atual tem se expandido: da mais pura autocomiseração e narcisismo, disfarçadas de questões de identidade e subjetividade, até obras com um verniz mais, digamos, sociológico/antropológico (penso aqui no arco que vai de Taïa a Eribon). É uma literatura que age como o grande mercado publicitário ou cinematográfico, quando este sequestra importantes e relevantes questões humanas (como a negritude/branquitude, por exemplo) e as transforma em produto de venda. Nem falarei do feminismo. O verniz que a indústria cultural passa nas superfícies dessas questões fundamentais da contemporaneidade é tentador. Darei um exemplo comparativo: a artista plástica Joana Vasconcelos produz uma gigantesca escultura de um sapato de salto. A escultura é feita de panelas. Parece lógica a crítica, certo? Então, a Maison Chanel compra a obra e a instala num jardim suntuoso de seu escritório central. A escultura continua lá, a crítica inicial também, mas no fundo será que essa crítica permanece com tal mudança de território (físico e de sentidos?).
d) A linguagem cotidiana que antes era um desafio literário aqui aparece como energia gracinha, um gracejo, um “não-tô-nem-aí literário”, “um quero ser moderninho” – e é tão artificial quanto aqueles cafés (o lugar) com madeira compensada clarinha e café (a bebida) sem gosto, passado na hora, servido em xícaras sem asa, “de design”. A escrita literária que incorpora os gêneros discursivos primários sempre foi um desafio. Aqui, ela simplesmente tem o perfil descrito acima, o das conversas nas redes sociais ou no whats.
e) É uma linguagem que dá pouca margem ao subliminar, ao que é alegórico, ao “que pode ser” porque precisa ser direta na tentativa de não deixar dúvidas, levando em consideração a incapacidade intelectiva da maioria dos leitores modernos. (Então, se ela fala da possibilidade de um intelectual francês ser sexy, precisa colocar entre parênteses que se trata de Fulano de Tal.) Esse tipo de narrativa precisa pegar o leitor pela mão, colocá-lo sentadinho numa cadeira frente a uma lousa, com os recursos das velhas cartilhas de escrita.
f) É uma linguagem que lida com coisas da atualidade mais tangível. Você dirá que a linguagem de Moby Dick gira em torno de coisas do mar ou que Petrônio também se referiu a objetos de seu tempo, não um relógio de pilha, mas talvez a um relógio solar, mas não é nesse sentido: aqui, a linguagem dialoga mais proximamente com a do jornal despreocupado com a ética jornalística, com a propaganda, com as fofocas internéticas. O tom das descrições de Nunez é o das “notícias” diárias de sitcoms e de realities. Tem mais a ver com a fast-fashion: o que é rápido e substituível, mas tenta enganar o leitor com o discurso do slow-fashion, algo que até o grande mercado já incorporou e destruiu.
g) Grande parte dessa produção seria o resultado de um bom curso de escrita – ou a escrita que qualquer pessoa escolarizada poderia fazer.
h) O desejo de escrita que esse “gênero” carrega não é diferente daquele do XIX, século em que qualquer um poderia” escrever”, desde que dominasse uma gramática. Ocorre que a literatura nunca foi um domínio gramatical.
Os momentos em que as amigas conversam sobre a vida e sobre a morte são os momentos que o leitor pode pensar “bem, aqui há algo de profundo”. Um mérito, ou melhor, dois méritos de Nunez: lidar com leveza o assunto pesado; não o finalizar abertamente e sim permitir que o leitor construa as imagens finais da personagem que – ele sabe – morrerá. Creio, analisando o filme baseado no livro, e pensar muito sobre ele, comparando-o com outras produções de Almodóvar, que ele se interessou pela beleza do diálogo entre as amigas. Limpou o terreno, colocou outros elementos e produziu um filme de beleza indiscutível, repleto de referências e possibilidades discursivas. E ele acrescentou dados novos e situações novas, como a da polícia, que não aparece no livro.
Caso você aprecie livros rápidos (ler livros pesados e longos é um desafio lógico,a final, em tempos de pós-humanismos), Nunez pode ser uma boa companhia. Rachel Cusk é outra autora que pode agradar.
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