Pular para o conteúdo

Orhan Pamuk e “O Museu da Inocência”

“O Museu da Inocência” é um livro ímpar. Talvez haja outra coisa igual no mundo – afinal o mundo é extenso – mas aqui temos um exemplo muito curioso de processo de criação literária

Orhan Pamuk e “O Museu da Inocência”
Orhan Pamuk. Foto: Maka Gogaladze/Wikimedia Commons
Publicado:

“(...) o amor ser transforma numa obsessão terrível, uma doença.”

Por onde começar com esse livro? Creio que o dividir em dois, com ambas as partes com quase o mesmo nome: “O Museu da Inocência” é um livro, um romance bastante longo, e “Museu da Inocência” é um lugar, um museu pequeno, repleto de objetos do cotidiano, sendo que ambos são indissociáveis. O próprio autor/narrador dirá que não é necessário visitar o museu para “entender” o livro, mas o ideal seria que o leitor tivesse tal experiência. Mas digamos que viajar a Istambul, visitar um museu num bairro antigo da cidade, inviabiliza a leitura. Também valeria lembrar que, em português, optou-se pelo uso do artigo no título do livro, mas em turco isso não ocorre por razões linguísticas. Então, em turco, o nome do livro e o nome do museu são a mesma coisa. A língua turca não funciona com artigos definidos, embora haja uma palavra para artigos indefinidos.

“O Museu da Inocência” é um livro ímpar. Talvez haja outra coisa igual no mundo – afinal o mundo é extenso – mas aqui temos um exemplo muito curioso de processo de criação literária. Orhan Pamuk escreveu um romance e fez um museu, em profundo diálogo: cada parte expositiva do museu (são 83 partes e mais duas ou três instalações, tirando a livraria e as partes naturais de administração que um museu deve ter) é também um capítulo do livro. E os objetos expostos têm a ver com o conteúdo do livro. Numa cidade com tantos museus magníficos, é bem curioso que esse museu faça tanto sucesso, já tendo ganhado prêmios, e logo um museu que tem a ver com um livro, que é um espelho da cidade de Istambul... e da Turquia.

A coisa toda funciona da seguinte maneira: no primeiro capítulo, uma bolsa faz parte da narrativa. É a partir dessa bolsa, digamos, que a relação entre os personagens principais começa. A bolsa está exposta no museu, na parte de número 1. Então, capítulo 1 do livro corresponde à parte 1 do museu, e assim por diante. Obviamente, o leitor saberá que a bolsa não é a bolsa do livro, afinal estamos lidando com uma ficção, mas a bolsa está ali, exposta, é um objeto físico, palpável, o que dá ao livro um raro e muito especial sentido de existência, como se a ficção se tornasse realidade ou o contrário (e o que deve ter ocorrido): um objeto físico, do “mundo real” se torna ficção, no livro.

Difícil saber quais objetos foram encontrados antes e quais objetos o autor encontrou depois da escrita. Sabemos, pelo personagem/narrador, que ele não apenas percorreu um número assombroso de museus mundo afora (o que faz o leitor se perguntar se o autor real, Pamuk, fez o mesmo caminho), como percorreu brechós, antiquários, casas de colecionadores, para encontrar os objetos ideais para cada capítulo/expositor do livro-museu (ou do museu-livro; escolha). São centenas de objetos, de isqueiros a garrafas de refrigerante, de postais a pequenas fotografias, espelhos, bijuterias, botões de roupa, etc., objetos que fazem parte da vida de qualquer pessoa, mas que ali ganham um sentido muito específico. Nenhum objeto do museu é uma raridade no sentido dado a “raridade” em museus que expõem joias de reis ou armas antigas encontradas num túmulo milenar. Também não é o único museu no mundo a mostrar peças cotidianas (em verdade, são muitos), mas talvez nenhum deles tenha objetos que “são” uma parte de um livro. Haverá museus com peças de escritores, como Dostoiévski ou Knut Hamsun, mas aqui temos algo realmente singular. Tanto o russo quanto o norueguês existiram.

Em primeiro lugar, vamos ao enredo, digamos, central do livro. Kemal, da alta sociedade de Istambul, namora uma moça não tão rica quanto ele, mas de família tradicional, Sibel. Às vésperas do noivado, ele encontra uma prima distante, Füsun, com quem inicia um romance, com encontros sexuais bastante intensos. Ele chega a noivar com Sibel numa festa para a elite de Istambul, à qual comparece Füsun e lugar onde esta fica sabendo que Kemal mantinha relações sexuais com a noiva. Füsun desaparece e seu desaparecimento enlouquece Kemal a tal ponto que ele desmancha o noivado com Sibel, para escândalo da sociedade. O tempo passa e quando Kemal encontra Füsun ela está casada com um cineasta sem recursos. O romance dá uma guinada (o que seria uma segunda parte) e o narrador passa a contar o que ocorreu nos oito anos seguintes. Kemal  começa a frequentar quase que diariamente a casa de Füsun, sendo bem recebido por seus pais. Kemal se oferece para pagar um filme em que Füsun seria estrela, mas os anos vão passando e tal projeto nunca se efetiva. Já quase chegando a nove anos de “espera”, falece o pai de Füsun e ela decide separar-se do marido (com quem jura nunca ter tido relações sexuais). Então, há como que uma terceira parte do livro, mais breve. Kemal e Füsun decidem se casar (com o consentimento da mãe de Füsun) e eles partem em viagem à Europa, antes de oficializarem o casamento. No meio do caminho, numa noite após Füsun se entregar a Kemal, como uma última vez, ela toma a direção do carro, acelera e bate numa árvore. Ela morre, Kemal fica um tempo hospitalizado e, quando sai, decide fazer um museu em memória da moça. Durante os quase nove anos em que frequenta a casa da família de Füsun, ele rouba pequenos objetos. Tais objetos e outros, colhidos e pesquisados em brechós, antiquários e em coleções particulares, vão compor o acervo do museu em homenagem a Füsun, que é montado na pequena casa em que ela morou (ou teria  morado) com a família e o marido, num bairro simples de Istambul: Çukurcuma.

Este museu agora existe fora do livro – e pode ser visitado por leitores e não leitores de “O Museu da Inocência”.

A primeira observação que muitos leitores acabam fazendo é a seguinte: nos sites de venda de livros, em resenhas mundo afora, na capa da edição brasileira, há menções a uma “bela história de amor” e também a um “primeiro amor que a gente não esquece”. Nada poderia ser mais mentiroso e enganador. Muitos leitores percebem o quão a história “de amor” entre Kemal e Füsun é uma história de obsessão, machismo, egocentrismo/egoísmo e ainda de uma relação interclasses que não poderia dar certo numa sociedade conservadora. O modo como Orhan Pamuk constrói o romance faz crer, de fato, numa paixão de viés romântico, mas à medida que o leitor acompanha o raciocínio e o modo como a mente de Kemal funciona, ele observa como a vida de Füsun foi destruída por Kemal, embora uma moça turca (à época dos fatos) não precisasse, exatamente, de um sujeito como ele para ter a vida destruída. Pamuk mostra, aos poucos, como a vida de uma mulher turca – no caso, Füsun, não que ela represente todas as mulheres turcas – gira em torno do pai, depois do marido e ainda em torno da vontade de mentes masculinas e de religiosos (algo que não aparece muito nessa obra; aliás, quase nada, mas não que a religião não seja relevante para entendermos o todo dessa relação catastrófica para a vida de uma mulher que deseja liberdade, uma liberdade “europeia”; já lido com disso). Falei em homens, mas poderíamos colocar aí as mulheres inseridas num meio masculinista em que os discursos e as práticas sociais “masculinas” imperam. A mãe de Füsun – e talvez nem a possamos condenar por isso – foi também uma peça importante para o fim terrível da personagem.

A estratégia de Pamuk é a seguinte: a fala de Kemal é branda, é a fala de um sujeito apaixonado, uma paixão que tem constância e uma estranha forma de paciência. Não em vão o personagem chama seu museu de “[da] inocência”, pois em sua visão seu amor por Füsun, como os “verdadeiros amores” devem ser, é um amor de inocências, embora esse amor que ele sente passe por tantas fases e situações: o desejo carnal mais exacerbado e sem a vergonha de declinar seu nome, o desejo de posse, que acaba por congelar Füsun durante quase uma década (embora ele não haja sozinho nessa empreitada), um desejo de posse disfarçado de cuidado, e depois a construção de um museu que toma ares de um cenotáfio.

Embora eu possa entender que muitos leitores desse livro vejam nesse caminho “de amor” percorrido por Kemal um caminho do “amor verdadeiro” (seja lá o que isso for), acho difícil não terem percebido as infindáveis pistas deixadas pelo autor da obsessão compulsiva de Kemal por Füsun. Ele não apenas destrói a vida de quem diz amar; destrói sua própria vida, cria situações constrangedoras em duas famílias, congela junto com Füsun a vida do marido desta, promete para um futuro incerto uma vida de felicidades para a família dela (e isso é muito, mas muito ambíguo no livro, e valeria uma análise à parte e detalhada), perde os próprios amigos, quase vai à falência, tornando-se um morto-vivo. O tempo todo uma voz acima da voz de Kemal diz por ele que seu caminho é um caminho tortuoso, para não dizer equivocado. Kemal usa todos os seus recursos para seguir no passo errado: seu dinheiro, o nome de sua família, o respeito que os pais de Füsun têm por ele, o interesse financeiro do marido de Füsun, etc. Um homem do núcleo social de Kemal tem poder, senão ilimitado, amplo. Tanto que entra governo, sai governo, Kemal se mantém ileso – ou quase, pois ele mesmo deixa os negócios em segundo plano para se dedicar a um amor quase impossível – e ele vai levando. Ele sabe que tem poder, não apenas financeiro. Numa sociedade como a turca, um nome vale bastante.

Para facilitar a exposição das considerações sobre este livro, farei uma enumeração de situações não estanques. Umas parecerão repetição de outras, mas ocorre que, como são indissociáveis, são espelhadas.

1. A falsa impressão de que tudo ali é mais antigo do que é. Quando se entra no museu e se visita o primeiro andar, os objetos ali reunidos remetem a uma década mais antiga que os anos 1970-80. O anacronismo é muito interessante: ou os objetos realmente remetem à Turquia dessa época e a Turquia estava “atrasada” ou os objetos foram escolhidos para dar a sensação de um atraso. No vai-e-vem da narrativa de Kemal, por vezes o leitor terá a sensação de estar num espaço mais antigo que os anos 1970-80.

2. A relação entre Kamal e Füsun e a possível metáfora para a história recente da Turquia – e de Istambul. O leitor observará que há uma história de amor no livro, e que essa história poderá ser entendida como uma metáfora para Istambul (e a Turquia): Kemal representaria uma nova Turquia, de “olho no futuro” e tentando “se aproximar da Europa”. Há de se observar que o nome escolhido para a personagem, nome muito comum na Turquia, eu sei, é o nome do meio de Atatürk. Assim, Sibel representaria o passado e Füsun o futuro. Kemal seria essa Turquia-Istambul entre dois mundos, nem uma coisa nem outra, sem conseguir uni-las, fundi-las, ou conviver com ambas. Sibel se casa com outro homem e mantém a tradição e Füsun morre, talvez indicando que a fusão (ou que uma modernização total) seria impossível.

3. O livro “antipolítico” de Pamuk se torna um tratado sobre política e sobre história. Não apenas Atatürk é citado diversas vezes no livro, como os golpes que a Turquia sofreu em particular nas duas décadas mais importantes do livro. Aqui e ali são sugeridas as ligações das elites com o golpe, mas o que mais chama a atenção é a indiferença política de Kemal, o que pode ser entendido também como uma posição política. Kemal simplesmente aceita cada golpe, cada toque de recolher, tendo como principal preocupação as visitas à casa de Füsun. Aqui caberia um adendo: Gumbrecht terá feito algo parecido, mas não fez um museu. O autor e pensando alemão recolhe uma série de situações aparentemente desconexas sobre a Alemanha, o que no fim das contas é um retrato e tanto do seu país. Kemal, Füsun e Sibel podem ser uma metáfora da situação histórica da Turquia moderna, mas as relações sociais expostas pelo narrador dão uma visão geral das relações entre sujeitos, ou seja, mostra “o político” da situação turca.

4. “O museu da inocência” é uma história de amor? Ou, por isso mesmo, é um tratado sobre o machismo, a misoginia e o amor-posse? De altar do amor, para quem ainda não leu o livro, o museu, após a leitura, lembra o cenotáfio citado acima.

5. A obsessão de Kemal que passa de corte a cicatriz. Primeiro, a dor da separação. Mas quando encontra ou reencontra Füsun, a dor desaparece quase por completo e o que fica no lugar dela é uma sensação de posse (não total, pois parcial, se pensarmos no quanto ela a desejava sexualmente), como um sujeito que tem a posse de um animal, um carro, uma fazenda, um país inteiro. E ele fica quase dez anos não exatamente apaziguado, mas confortável. Ela, Füsun, está a um passo dele. Em algumas situações, a atitude dela parece vingança. E ela não tem muito mesmo o que fazer. Ao longo do livro há um detalhe que pode passar despercebido ao leitor (e ainda mais a quem frequenta o museu): um pássaro preso a uma gaiola. Em determinado momento da vida engaiolada de Füsun, ela começa a desenhar justamente pássaros. Não lhe resta muita coisa.

6. Em muitas frases e ações de Kemal, ele surge como indissolúvel/insolúvel, o que não tem solução. Se o livro é uma metáfora para a Turquia, se a história entre ele e Füsun possa ser assim entendida, é como se a própria Turquia também não tivesse solução. Sem uma fusão ou sem um apagamento das tradições.

7. Em verdade, ao leitor, parece que Kemal não está exatamente entre uma coisa e outra, pois essas duas coisas estão dentro dele, como a tradição e a modernidade “estão”, fazem parte, da Turquia moderna (como já expliquei, não penso num mundo dicotômico, mas a dicotomia faz parte da narrativa de Kemal/Pamuk). Quando, por exemplo, o leitor-visitante do museu segue para o lado asiático de Istambul, ele sente que nada mudou. Basta, hoje em dia, chamar um Uber. Mas, ao mesmo tempo, caso se conviva com as pessoas, diferenças serão observadas e sentidas, mas a cidade é a mesma. (Aqui eu falo em cidade porque a mim me parece que a preocupação maior de Pamuk é a cidade e não o país.)

 8. Ainda sobre o museu em si, trata-se, como já dito, de um museu de objetos, então é o objeto que “conta” a história. Isso fica muito claro e preciso nas garrafas de refrigerante, que mostram muitas coisas da Turquia: sua ocidentalização frágil, seu apego ao passado, a chegada dos produtos pouco saudáveis, que acabam substituindo os saudáveis produtos tradicionais da Turquia, etc. Isso, tomado por um prisma que permita alargamento da visão sobre a Turquia permitirá “entender” melhor onde a Turquia se encontra atualmente.

9. Nesse caminho em que Füsun se transforma também num objeto colecionável, mas que seria a grande joia do museu pessoal (“da inocência”) de Kemal, ele é um sonhador (em vários momentos ele narras suas fantasias e devaneios), um tipo meio raro de cleptomaníaco ou obsessivo compulsivo?

Bem; haveria tantas outras coisas mais a dizer sobre esse livro incrível porque Pamuk coloca lentamente as situações a serem observadas como ele mesmo fizesse outro museu, um de palavras. Como última observação neste texto eu diria que a Istambul (ou a Turquia) de Pamuk em “O museu da Inocência” tem muito a ver com o Brasil. Ao longo da leitura eu imaginava minha família vivendo no interior de São Paulo, estranhando a chegada da televisão de tubo de raios catódicos, a primeira árvore de Natal que montamos, o primeiro peru assado (a tradição era comer leitão), as discussões sobre virgindade, o trabalho remunerado das mulheres, os golpes políticos, etc. Parece que temos mais a ver com eles do que gostaríamos. Meu único porém com o livro é a aparição de Orhan Pamuk na narrativa (ele tinha sido citado no famoso baile de noivado entre Kemal e Sibel): isso soou desnecessário e um pouco forçado.

 

 

Mais em colunista

Ver todos

Mais de benedito costa

Ver todos

De nossos parceiros