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Patinação no gelo: o fogo de Prometeu

Em 4 minutos de apresentação, o casal voa pelos ares. Gira, salta, dança, sincronizado como um para-brisas. Todos os movimentos são perfeitos. Nenhum desequilíbrio. Nenhuma hesitação. Nenhum deslize a não ser o dos patins sulcando o gelo sem ruído

Patinação no gelo: o fogo de Prometeu
Ilustração: Benett

Em 4 minutos de apresentação, o casal voa pelos ares. Gira, salta, dança, sincronizado como um para-brisas. Todos os movimentos são perfeitos. Nenhum desequilíbrio. Nenhuma hesitação. Nenhum deslize a não ser o dos patins sulcando o gelo sem ruído. A precisão de relógio atômico faz parecer que os corpos e as batidas da música nasceram já assim, simultâneos como acenos ao espelho.

Todas as exigências do programa são cumpridas com rigor: arremessos com giros quádruplos os mais altos jamais realizados, aterrissagens em marcha a ré as mais suaves jamais vistas, libélulas tocando a água. Penteado intacto, maquiagem imaculada, inviolado o mármore do rosto. Nem cansados os dois parecem estar.

Antes da cena final, os espectadores têm certeza de que todos os elementos avaliados receberão a nota máxima, num feito sem pre cedentes. Certeza essa confirmada sem surpresa e de forma unânime pela banca de juízes. Poderíamos afirmar que nesse dia os humanos redefiniram a excelência, subiram o sarrafo, tomaram das mãos dos deuses do Olimpo o controle do PlayStation 5.

Poderíamos ir além e afirmar que nesse dia os humanos desafiaram a gravidade e a venceram, não fosse pelo fato de que ali a gravidade e os humanos não existem. Não estamos diante de uma performance executada nos Jogos Olímpicos de Inverno Milano Cortina 2026, mas diante de um vídeo produzido por inteligência artificial. 

Chamaria os arremedos de arte produzidos por inteligência artificial de arte artificial. Mas porque esses arremedos de arte não merecem a dignidade de um nome, usarei, de agora em diante, uma sigla, em letras minúsculas, para a eles me referir.

A sigla poderá significar o que se queira, desde que bote a máquina algorítmica e os digitadores de prompts em seu devido lugar: arte artificial, arte abjeta, arte asquerosa, arte abominável, arte abobalhada, arte apatetada, arte anêmica, arte apática, arte acéfala, arte amoral, arte adoecida, arte assaltante. Qualquer coisa, enfim, que não seja arte arte.  

Eis a aa. Sem treinos, sem traumas, sem calos, sem joelhos esfolados, sem juntas deformadas, sem veias latejando, sem esgotamento físico, sem exaustão mental, sem tormentos psicológicos, sem abnegação, sem fingir que não está doendo, sem frio na barriga, sem frio em lugar nenhum, sem quedas a não ser que caia a luz, sem privações, sem renúncias, sem ao vivo dar a cara a tapa, sem medo do fracasso na única coisa que sabe fazer, sem saltos no escuro, sem saltos de fé, sem saltos mortais (só pode morrer aquele que vive), sem noites em claro pensando num arremesso e numa aterrissagem que duram 6 décimos de segundo. Sem nada. 

Em sua luta contra a queda literal, contra a queda figurada, contra a queda mitológica, o que artistas e atletas humanos de fato fazem:

A patinadora japonesa, entre as favoritas, cairá duas vezes.
O casal francês, Camille e Pavel Kovalev, ao som de Come Together, cairá também, juntamente com uma lágrima.
O fenômeno Ilia Malinin, incensado como a perfeição em forma de pirueta, não só não executará o salto quádruplo prometido, como errará os triplos, o que nos treinos faz com um pé nas costas. Mil cairão a tua direita, dez mil cairão a tua esquerda, e tu cairás também. Cairá o atleta, cairá a casa, cairá o salto alto. Sentiu, Galvão. Eu também senti: o cara é muito, muito bom. 

No casamento admirável e conflitante das artes com o esporte, na performance de espécimes humanos dançando sobre o fio da navalha, também há: 

Há a encarnação do drama e da alegria de caminhar juntos, o êxtase e a dor da tentativa de caminhar juntos, o reconhecimento do esforço por terem caminhado quase o tempo todo assim, o valor inerente a esse quase.
Há a frustração dos desacertos, a cobrança dos desencontros, o rompimento pelo erro reiterado. 
Há o alívio no salto bem sucedido, a perplexidade no salto refugado, o acolhimento no salto que termina em tombo.
Há o reencontro após desvios imprevistos de rota.
Há a sublimação do erotismo: às vezes ela aterrissa antes, às vezes ele, eventualmente juntos.
Há a elegância da sugestão.
Há os atletas ofegantes e nós, os voyeurs, sem fôlego.
Há o virtuosismo dos rodopios, fogo sobre o gelo, a sutileza de um toque no ombro.
Há muitos casais de fato, namorados, noivos, amantes, caidinhos um pelo outro.
Há o discurso de superação, filho legítimo dos esportes de alto rendimento, resgatado do cativeiro corporativista.
Há o narrador esportivo, que das palavras faz seu ganha pão, confessando estar sem palavras diante de tanta beleza. Compreendemos.
Há o choro incontido, a rendição ao descontrole depois do tensionamento orgânico dos músculos, a comemoração atirados no gelo.
Há a pista, tela em branco, página vazia, plano euclidiano de onde irrompe a tridimensionalidade dos corpos. 
Há, ainda uma vez, as quedas. A queda no início, a queda no final, a queda só dela, a queda só dele, a queda mais bela entre todas as quedas: a queda sincronizada. 
Há a patinadora com sangue escorrendo do joelho.
Há sangue.
Há joelhos. 

A arte, desadjetivada, seguirá sendo nossa. O corpo, com sua exuberância e vulnerabilidade, com seu cérebro e coração, também. Quem quiser seguir com a perfeição impermeável, portanto sem poros, portanto sem respiros, portanto morta, da aa, que siga, simulacros de gente, androides zumbis. Eu fico com os tropeços, com o sangue, com as derrotas. Os erros são meus e ninguém tasca.

Tags: Cronicas

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