Concentrem-se na imagem daquele detestável primeiro dia de aulas e em uma alcateia de adolescentes perseguindo, estonteados, afirmação e identidade, prontos para darwinianamente esmagar sem piedade a cabeça dos mais fracos.
Agora observem todos aqueles aterrorizantes protocolos de iniciação desse primeiro dia e um aluno tímido e franzino que levanta e diz, mal dissimulando a insegurança: “Meu nome é Arzírio”.
Pronto! Está feito o massacre!
Trinta e cinco bocas de Josés-Pedros-Marias contendo o riso a custo. Trinta e cinco pares de olhos, revestidos pela diabólica essência insolente da adolescência, gargalhando a custo nenhum, disparando, dessas espingardas de dois canos, setenta projéteis de sarcasmos, sarcomas e superioridade por segundo, e se perguntando: “Mas que caralho de nome é esse?”
O nome circunscreve o novo homem. Adeus futuro orador da turma. Adeus futuro cidadão falador e articulado. Adeus futuro conquistador das menininhas engraçadinhas e falantes. Adeus espontaneidade. Adeus vida social. Que o mundo dos introspectivos, dos silenciosos, dos casmurros e dos que para se comunicar ou precisam escrever ou precisam pensar trinta e cinco vezes antes de pronunciar duas palavras o receba muito bem. De braços abertos. De boca fechada. Que você ache sua voz feia. Que você tenha medo de gaguejar. Que você tenha certeza de não poder nunca encontrar a palavra certa. Que de quando em quando alguém se despeça dizendo “Nossa, como foi bom falar com você”, sem nem desconfiar que tudo o que aquele monólogo disfarçado de conversa precisava era de um espectador. Que em sua mente e em seu coração fique instalado, para todo o sempre, o anátema: “Você tem o direito de permanecer calado e o seu silêncio pode e será usado contra você”.

"O problema de todo mundo querer ser um pouco original é que se corre o risco de todo mundo ser um pouco original do mesmo jeito e ao mesmo tempo." A citação é do psicólogo e linguista canadense Steven Pinker, que no livro “Do que é feito o pensamento: a língua como uma janela para a natureza humana”, explica por que alguns nomes, em determinadas épocas, são os preferidos nos cartórios e pias batismais, como bem ilustram os abundantes Enzos e Valentinas desta nossa década. Quantas e quantas vezes, munido de argumento semelhante, eu quis perguntar a minha mãe ou a meu pai: “Por quê, por que vocês não quiseram ser um pouquinho originais junto com os pais da década de 80 e me nomearam Fábio, Rogério, Paulo, Luciano...?" Mas eu nunca perguntei. Sempre guardei comigo o questionamento, enquanto seguia ruminando mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria uma solução sim, porque nenhum Raimundo poderá um dia saber o que é se chamar Arzírio e ter de falar com atendentes de telefonia.
Imagino que alguém aí do outro lado, a despeito de não mais pertencer à raça insolente da adolescência, também esteja se perguntado: "Mas que caralho de nome é esse? ”
E reside na resposta que hoje tenho a dar o antídoto para os traumas que por tanto tempo me perturbaram. A resposta esteve sempre ali, na verdade.
Meu avô materno se chama Arzírio. Minha avó materna, tão cedo finda, se chamava Alzira. Em que outro mundo possível um Arzírio e uma Alzira se conheceriam, namorariam, casariam- se e teriam, décadas depois, um neto chamado Arzírio? Quantos lances de três dados são necessários para que em cada uma das faces saia o número sete? Quantas e quantas voltas a Roda da Vida ou da Fortuna ou do Acaso ou do Destino (ou o nome que preferirem) precisou dar para que este mundo vasto mundo se alinhasse com os planetas e estrelas e chakras e galáxias e assim surgisse tão excêntrica e imprevista ordem onomástica no Cosmos?
Por isso hoje tenho orgulho do meu nome. Fico imaginando, sem conhecer a história pois eles eram muito reservados, meu avô, muito jovem, aproximando-se de minha avó e dizendo, mal dissimulando a insegurança: “Meu nome é Arzírio”. E ela, não disfarçando o choque: “Sério? O meu é Alzira...”. E que por causa disso, apenas por causa disso, os dois imediatamente perceberam, nesse traço tão incomum, o primeiro traço em comum que os futuros casais de todas as épocas descobriram em si e que neles despertou a tácita e mútua decisão para o primeiro roçar de dedos, o primeiro enlace de mãos, o primeiro passo lado a lado.
Sem meu nome, eu não existiria. E definitivamente uma rosa, sob os auspícios de outro nome, não teria o mesmo perfume.
Arzírio Cardoso, neto do Arzírio e da Alzira, in memoriam.