Calhou de esta ser uma época de problematizações. Todo mundo problematiza e problematiza-se tudo: desde acusações indignadas de apropriação cultural dirigidas a alguém que comeu sushi, até brigas pautadas por se a adoção de um vira-lata seria ato revolucionário ou reforço do especismo burguês, passando por qual obrigatoriamente deve ser a nova ministra (sim, ministra, ministra) do STF ou qual seria a ordem mais correta (mais Direita) de se calçar as meias e os tênis: meia, meia, tênis, tênis ou meia, tênis, meia, tênis? (Eu, de minha parte, a partir de hoje só boto tênis, tênis, meia, meia, e que não me venham encher os pacová.)
Até mesmo os descontentes com o que consideram um número excessivo de problematizações acabam problematizando o fato de existir um número excessivo de problematizações, acrescentando, de forma insuspeita, mais um número ao número que acham excessivo.
Inclusive o antes raro verbo problematizar, envergonhado e encarcerado dentro de empoeiradas teses e dissertações, começou a usar o tempo que tinha de sobra para problematizar sua contida condição existencial, o que resultou em sua firme decisão de saltar o cercadinho restrito e enfadonho da metodologia textual acadêmica para se reproduzir destrambelhadamente cá fora e viver vida mais vibrante em meio à balbúrdia problematizadora das redes sociais.
Do mesmo modo, eu, filho alinhado a esta nossa época escorreita, além de filho de Deus, também venho ora reclamar a parte que me cabe do direito de espernear. Não serei logo eu o excêntrico que não encontra erro em nada nem aponta o dedo acusador contra ninguém. Como benefício adicional, ainda preservo a saúde, afugentando a possibilidade de levar pedrada dos dois lados ao bancar o diferentão domiciliado na parte mais elevada do muro que não estava ali, mas agora está.
Problematizarei, pois. E o farei apontando meus dedos salivantes aos nunca antes apontados − porém evidentes− pressupostos de um famoso ditado popular.
“Pau que nasce torto nunca se endireita”, é o que repete, a torto e a direito, a proverbial sabedoria popular.
Mas não, não vou problematizar o torto conceito embutido no provérbio, que sustenta que já se nasce pronto, com todos os defeitos já postos, irreparáveis, e que cultura, época, família e o mundo errado não são decisivos na constituição de um indivíduo.
O que vou contestar é por que caralhas, como deixa bastante claro o verbo “endireitar”, presume-se que o pau torto nasceu virado para a esquerda. Esquerda do ponto de vista de quem?
Porque a verdade é que se eu me posicionar no lado oposto de quem afirma que o pau está torto para a esquerda, obviamente para mim o pau estará torto para a direita.
Isso, aliás, me lembrou de uma piada que ouvi certa vez. Um dos fugitivos diz ao outro: rápido, se esconda atrás da árvore. No que o outro responde: qual parte da árvore é atrás? Os dois interrompem a fuga, pensando na solução. Ambos são presos.
Ok, problematizar naquele momento não foi a alternativa mais esperta. Mas, ao menos, projetou o problema à lupa da investigação. Na cadeia, nosso fugitivo filósofo e seu comparsa (este mais que aquele) terão tempo para se posicionar relativamente à questão.
Porque, inferências avante, quem está situado a 90 graus dos sabichões da esquerda e da direita, forçosamente terá de afirmar que o pau está envergado ou para trás ou para frente, a cada um desses abrindo-se a possibilidade da criação de um adágio diferente.
Percebam nisso o fundo buraco ideológico direcional no qual estamos metidos, pois a língua nem mesmo nos oferta verbos que indiquem o retorno do que é torto para trás, para frente ou para a esquerda. O pau nunca endireitado está aí, espalhado, dicionarizado, na boca de todos, mas quando é para a esquerda que o pau nunca retorna, usa-se o quê? Esquerdificar? Pau que nasce torto nunca se esquerdifica? Nunca se esquerdeita? Nunca se esquerduta? E quando é para trás ou para a frente? Pau que nasce torto nunca se enfrenta? Pau que nasce torto nunca se atrasa?
Como problematizar não resolve muita coisa, mas pelo menos expõe a coisa, deixo aí a coisa exposta. Se estiver meio torta, morrerá assim, torta, sem adestramentos nem canhotamentos.
É meu Direito não mexer numa vírgula, esse torto sinal gráfico envergado desde sempre para a esquerda.