Pular para o conteúdo

Show 35+ e remedinhos

Nutro uma fé ridícula nesse remedinho. Pra mim, ele é plenamente capaz de me curar de qualquer coisa que aconteça no caminho

Show 35+ e remedinhos
Ilustração: Benett

Eu levo um comprimido (é relaxante muscular, calma) pra todo lugar que eu vou.

Primeiro porque nutro uma fé ridícula nesse remedinho. Pra mim, ele é plenamente capaz de me curar de qualquer coisa que aconteça no caminho.

Dor de cabeça de ouvir abobrinha dos amigos bêbados? Remedinho.

Dor na unha encravada que levou uma pisada de um bulldog? Remedinho.

Quebrei um dente no ato de beijar uma estátua que se parecia muito com o L do KLB? Remedinho.

- Ai, AB, mas você não falou que é um relaxante muscular?

Sim. Mas também nutro em mim a crença de que tudo é músculo.

Somos um músculo, sabe?

E relaxar é ótimo.

Então relaxar nosso músculo - que somos nós - é tudo de ótimo.

O motivo 2 é que eu me sinto muito preparada pra ajudar alguém.

Eu também carrego bandaid de bichinho pra esse fim.

Vai que alguém precisa? Eu tô lá, preparada!

Uma princesa benevolente!

TÔ COM CÓLICA! - Quer um comprimidinho?

AI UM TREM ME ATROPELOU, SOCORRO!  - Calma querida, toma aqui um comprimidinho.

MEU BOY ME CHIFROU COM MEU TIO! - Ei, meu anjo, você precisa de um comprimidinho.

E talvez um bandaid do Pikachu.

Então, sinceramente, só vejo vantagens em ser essa pessoa que carrega o remedinho pra onde vai.

Dia desses fui a um festival de música com minha irmã.

Desses abertos e com vários shows e que tem que ser jovem pra ir.

Só queeee... Fato 1: não sou jovem.

Fato 2: ninguém lá era jovem!

Poque as bandas do festival não eram jovens também

E eu lhes pergunto: Quem foi que inventou um show desses que duram horas pra um público 35/40+???

E eu mesma lhes respondo: Alguém que sabe que EUZINHA estaria lá com meu remedinho.

Pois bem.

Antes de iniciar o último e mais esperado show, percebo uma moça (tá... era mais senhora que uma moça, mas o que importa é o coração) com a cabeça baixa, escorada no marido, claramente passando mal.

Achei que ela fosse vomitar.

Mas aí ouvi: tô com muita dor nas costas. Não vou aguentar ficar, amor.

Doeu meu coração.

Porque era o show principal, sabe? E enquanto senhora moça, eu me compadeci da moça senhora.

Cheguei perto - como uma completa maluca - e perguntei: moça, tenho um comprimidinho você quer?

E ela sorrindo: sim.

Boa ação feita. Paz na terra entre senhoras e bandas velhas.

Só queeee... Eu fui duramente criticada pela minha irmã, que achou meu ato de bondade irresponsável.

Primeiro porque eu tava ouvindo a conversa alheia. Mas e daí, né? Vocês tão aqui lendo a história alheia também!

Depois porque eu podia ser uma psicopata e estar envenenando alguém. Mas eu não sou! Sou uma princesa benevolente.

Então pra mim foi uma vitória sim.

Aproveitei e tomei um comprimidinho também. Pra relaxar o meu músculo da cara de pau.

Show lindo.

Aline Brandalise

Aline Brandalise

Marqueteira e cronista. Escreve sobre o quanto viver pode ser ridículo e é autora de "Às vezes me sinto uma espectadora da vida real", primeiro livro da coleção Biblioteca Plural.

Todos os artigos
Tags: Cronicas

Mais em Cronicas

Ver todos
Patinação no gelo: o fogo de Prometeu

Patinação no gelo: o fogo de Prometeu

/

Mais de Aline Brandalise

Ver todos

De nossos parceiros