Um dia esta terra ainda vai cumprir seu ideal, diz o lindíssimo refrão de Fado Tropical, do Chico Buarque.
De acordo, mas não para tornar-se um imenso Portugal, como prenuncia o restante da letra (afinal queixumes, conformismo e padarias já os temos cá), mas sim, prenuncio eu, para tornar-se a sede oficial, a matriz energética, a fonte murmurante que vai recarregar a bateria do humor no mundo. Praticamente um Vale do Silício, só que do Riso.
E além do mais, verdade seja dita, mesmo os menos perspicazes entre nós já se perguntaram por que a referida canção é cantada num tom assim tão macambúzio, tão sorumbático, tão jururu, como se o presságio buarqueano, um dia sacramentado, fosse recebido antes com lágrimas de pesar que com efusivas celebrações de felicidade. Não seria um distorcer absoluto de todas as técnicas e filosofias da composição atacar um Parabéns pra você numa melodia de filme de terror? Ou botar o tema de Ghostbusters para tocar na cena final de Ghost − Do outro lado da vida? Não seria botar o Ô do borocoxô no lugar do Ó do borogodó? Tenho certeza de que Chico, brasileiríssimo, o sabia muito bem. Tivesse em vez disso composto um Vira Tropical e abraçaríamos, todos, a ideia.
Não que em Portugal não haja humor, deve haver, dizem que há, e prova em contrário é o impagável Ricardo Araújo Pereira. Mas estou me referindo a algo que não se reduz a meia dúzia de comediantes especializados (à parte o fato de alguns deles, Praças Nossas e Zorras Totais, não fazerem rir a ninguém), e sim a uma multidão de heróis anônimos, equipados todos com uma espécie de sentido extra, nascido de penduricalho, que penetra fundo nosso modo de vida cotidiano e dá as caras em todo canto, de inopinado, escapando irresistivelmente da boca de qualquer um, na aula, na mesa, na maternidade, no velório.
“Brasileiro faz piada de tudo, até da própria desgraça”, diz a frase feita com um ar indisfarçável de reprovação, anátema exorcizante, como se não rir de uma desgraça eliminasse da palavra o seu prefixo e os ex-acometidos passassem a viver em estado de.
Eu mesmo, para minha vergonha, já pronunciei essa frase uma vez. Foi numa piada.
Tinha o seu Zé, doente terminal, agonizando no leito de morte, todo estropiado. Seu melhor amigo, querendo dar ao companheiro de toda uma vida um momento final de prazer, lhe oferece um cigarro. No que o moribundo responde: que isso, cumpadre, então já não sabe que estou tentando parar?
E é assim que o mundo começa, não com um suspiro, mas com uma explosão. Uma explosão de gargalhadas. Por isso conclamo moiras, pitonisas, vates, agoureiros de toda espécie, Cassandras e Rasputins, Nostradamus e mães Dinás, e mais Paul, o polvo vidente, para em coro predizerem comigo: esse é o destino que o Brasil há de cumprir: rir, fazer rir, sambar na cara da tristeza, tornar o mundo menos careta e mais feliz, não inundar a China apenas com soja, a Europa apenas com futebolistas e Miami apenas com gente brega, mas transformar também nossa zoeira popular, nossa hilaridade imaginativa, nossos folguedos licenciosos, mais abundantes que os outros três, em produto tipo exportação.
Indícios vigorosos que apontam a plausibilidade do nosso vaticínio há aos montes, de Montes Claros a Montes Altos, de Monte Azul a Monte Verde (Trás-os-Montes, não sei...). Colhi algumas amostras, por aí, ciente de não serem as únicas (olá, memes), bastando olhar em volta para lembrarmos ainda uma vez que fazer graça é meio que um nosso modo de tocar a vida, de tirar dela um pouco do peso da pedra de Sísifo e deixar rolar.
E já que falamos em peso, alguém aí conhece peso maior do que o da linguagem jurídica? Pois então, a coleta de sangue que detectou não a enfermidade, mas o vigor do paciente, continha as seguintes sugestões de novos nomes, slogans e propagandas para escritórios de advocacia, lidas na postagem de alguém que lamentava eles serem historicamente tão sisudos, tão pouco imaginativos e tão chatos, tipo a primeira letra do nome dos donos seguida da palavra Advogados (TNC Advogados) ou os sobrenomes dos donos seguidos da expressão Advogados Associados (Pinto & Rego Advogados Associados). A enxurrada de comentários demonstra que nossa criatividade humorística não é privilégio de gênios. Ou, se for, demonstra que esta terra está repleta de gente genial e privilegiada.
Vamo pôr no pau Advogados Associados.
Cinta-Liga da Justiça Advogadas Associadas.
Irmãos Prende & Solta, Defensoria e Acusação.
Eu Vou Atrás Dos Seus Direitos, Escritório de Advocacia.
Descasos de Família, Vara Familiar.
Entre Você e a Cela.
Advogatas.
Trânsito em Julgado, livramos suas multas e pontos na carteira.
Provamos o Contrário.
Fala Fácil, Advogados Sem Juridiquês: não gastamos o nosso latim.
Metemos o Processo, Advocacia Kafkiana.
Abel & Caim Advogados Associados, especialistas em direito de herança.
Vara Criminal, defensoria de atores pornô.
Devedor Não Tem Bens, Cobrança Jurídica.
Ânus da Prova, Litígios, Separação e Divórcio.
Fale Com Meus Advogados Advogados.
Seríamos ou não muito mais felizes se tais sugestões fossem acolhidas pelo mundo sensível? Que maravilha seria caminhar pela rua e topar com um Coisinha Julgada Tão Bonitinha do Pai, ações de pensão, guarda e visitação. Ou com um Peça Jurídica, defensoria de atores. Eu certamente iria atrás de uma Eu Vou Atrás Dos Seus Direitos.
“Pois é, ideias não faltam, o que falta é serem postas em prática”, dirá o inconformado a quem idealismos não satisfazem, como se a matéria-prima do humor não fosse apenas a pura linguagem e a filha do seu tio. Que surpresa teria, no entanto, ao descobrir que gente linda e revolucionária já anda botando em suas tabuletas coisas como SobranSheila, especialista em cílios e sobrancelhas; Salão de depilação Pelo Menos; Weslley Salgadão; Sebastião Salgados; Chaveiro Hugo Chaves; Espetinhos Churrassik Park; Bar Álcool Íris; Meu Pet Laranja Lima; Lotérica Adeus Patrão; Cachorro Crente (na frente de uma igreja); Sorveteria Ice Te Pego; Motel Você Que Sabe; Vírus da Grife; Meu Salgado Favorito; Bar Tô no Trabalho; Ava Lanches; O Senhor dos Pastéis; iPhome Lanchonete e Petiscaria; Hamburgay: Burger & Glitter; AcaraJéssica; Bar O Botecário; Restaurante Maria Vai com as Ostras; e o apoteótico Innocenti Advogados Associados, que vem junto com um plot twist: Innocenti é o sobrenome dos donos.
Eu mesmo, fosse abrir um restaurante indiano no Rio, não hesitaria em nomeá-lo Curryoca.
Renomear o mundo com as cores da alegria. Eis uma das realizações de nossa profecia autorrealizável. Suíte, por exemplo, é palavra esnobe e pomposa demais para se referir a um mero quarto com banheiro; propomos dormictório.
Eugène Ionesco escreveu: “Ideologias nos separam, sonhos e angústias nos aproximam”. E o brasileiro, sonhador e angustiado, complementa: e fazer piada também.
Que a profecia se realise, quando não estiver assim mais tão lisinha.
Todo nome fantasia é real.