Os detalhes de como cheguei a um estado tão deplorável não vêm ao caso. O que importa é dizer que eu estava no fundo do poço. O amor tinha voltado para mim sua face horrível, aquela que seca todas as flores. Não encontrava consolo no passado; tudo me parecia uma sucessão de erros mal costurados pelo acaso. E o futuro estendia à minha frente uma trilha enganosa rumo ao abismo irracional que, cedo ou tarde, me devolveria ao nada. Tinha perdido um dente, mas não ia ao dentista, o buraco na gengiva lisa era uma distração para a língua. Só trabalhava o suficiente para comer, me embriagar e não ficar o tempo todo ouvindo os meus pensamentos. Dormia como um náufrago e acordava na areia ardente das ressacas.
Morava nesta mesma casa de madeira em que estou agora, entre araucárias e sapos. Mas naquela época eu me dizia: “Isso é o que restou, uma cabana num brejo, perto de uma vila miserável”. Fazia fogueiras. Andava pela mata com uma garrafa na mão, tropicando. E nem a lenha nem o vinho conseguiam me iluminar. Eu tremia. Meu estômago estava sempre contraído, ardia. Ao mesmo tempo era como se não tivesse corpo, ou o usasse feito um saco para carregar o vício da vida.
Uma tarde, voltando de não sei onde para casa, parei o carro num boteco da estrada poeirenta. Dois maltrapilhos jogavam sinuca. O homem atrás do balcão, barbudo, cabeludo, era um Cristo fadado a viver no deserto, já à beira da velhice. Pedi uma cachaça. Emborquei o copinho. Era pinga muito vagabunda, queimava como vidro derretido. Mesmo assim pedi outra, e mais outra. Muitas, não lembro quantas. Senti o alívio daqueles sujeitos quando o intruso de outro mundo foi embora. Então, ao descer o trecho final, a pirambeira que levava à chácara, talvez para acabar com o game, acelerei. Não venci a curva derradeira e o carro capotou, várias vezes, até parar de ponta-cabeça, escorado por uma árvore. O cinto de segurança me mantinha preso. Afastando estilhaços de vidro, apoiei a mão esquerda no teto do carro e com a direita tentei soltar a trava do cinto. Estava emperrada pelo peso do meu corpo. Não sei quanto tempo fiquei ali suspenso, úvula de uma garganta de lata. Mas já anoitecia quando a trava finalmente cedeu e eu caí no teto. Rastejei para fora do carro. Sem olhar para trás, fui cambaleando até o brejo. Constatei que a chave da casa, a carteira e o celular permaneciam no meu bolso, a coisa não tinha sido tão ruim assim. Saberia mais tarde que estava com três ossos quebrados, mas naquela hora, sob o efeito da pinga ordinária, não sentia nada. Com muita dificuldade para enfiar a chave no buraco, abri a porta. Resolvi tomar um banho, vestir roupas limpas, talvez pensando em apagar os vestígios do desastre. Depois, peguei uma garrafa de vinho e me sentei nesta mesma mesa em que escrevo agora. Bebi devagar, até que alguém surgiu bem ali, na janela da sala. Era um vizinho muito próximo de mim, um amigo que por acaso vira o carro lá no mato, de pernas para o ar. Eu o convidei a entrar e disparei uma sucessão de frases poéticas sem sentido. Ele analisou a situação. Concluiu logo, um pouco aborrecido, que eu precisava ser levado a um hospital.
Meses depois, decidi me mudar para Portugal. Durante seis anos, enquanto eu vivia esquecido do outro lado mar, o campo onde o carro capotou sofreu uma transformação lenta, silenciosa. O óleo que eu vira pingar do capô voltou à origem, sumiu na terra. Os rastros da freada antes da curva foram lavados pela chuva, que os encobriu de pedrinhas brancas. Os sulcos de terra na relva, cavados pelas várias pancadas do carro tombando, pouco a pouco sumiram sob um tapete de ervas e trevos. Algum pedaço do carro que terá voado longe (plástico, borracha ou metal) acabou à sombra de um polvilho amarelo de almeirões-do-campo. Outro, enrolado pela serena serpente de uma trepadeira. Abelhas, joaninhas, libélulas, gordas moscas azuis teceram uma fina teia de zunidos sobre os ecos do meu escândalo. Árvores que eram bebês quando o homem estúpido saiu rastejando de sua máquina, agora exibiam altas copas e bebiam os humores do céu. Na árvore que deteve o carro, a grande ferida que fora aberta, depois de curada com resina, vestiu-se de uma nova casca. A pálpebra se fechou. Entregou de vez ao sono a aparição do bólido humano.
Foi numa manhã nublada que voltei do exílio autoimposto. Trazia só uma mochila com algumas peças de roupa, meu computador, dois livros e um cartão Navegante, que eu tinha usado muitas vezes para atravessar o Tejo. Desci a pé, devagar, a ladeira em que numa tarde distante eu perdera o controle da minha vida. Tomava cuidado para não escorregar nas pedras. Os latidos dos cães da vizinhança iam rareando conforme eu me aproximava da mata. Quando cheguei à curva do acidente, olhei para baixo: não soube dizer qual teria sido a árvore que detivera o carro. Aquilo agora era uma floresta. Alguém havia construído um chalé tosco, de tábuas desiguais, no que eu presumia ser a rota do carro rolando. Do chalé saiu um menino descalço, vestindo só um calção vermelho. Ele abriu um sorriso bonito, acenou para mim.
“Olá!”, eu disse, devolvendo o sorriso. Olhei para o último lance da ladeira. E reparei admirado, pela primeira vez, nos vários tons de verde que rodeavam minha casinha lá no vale.