Trinta e cinco anos depois das primeiras tentativas (tempo de uma aposentadoria), conseguiram finalmente reunir todos daquele grupo singular, no WhatsApp.
Uma convenção dos preguiçosos significa que todos ali convencionaram, como meta de vida, evitar a fadiga e promover o sossego. Sempre que possível, para não cansar.
O objetivo de tal excepcional assembleia, embora, suspeitemos já, não alcançado, era que cada um relatasse as técnicas desenvolvidas para evitar pegar no batente, ao mesmo tempo em que conseguia manter o emprego, já que o ato de comer, Deus nos console, continua se aferrando incansavelmente a seu estatuto de imperativo biológico.
Como ninguém se animasse muito a dar declarações longas e detalhadas, um pouco por −dãr− preguiça, um pouco por medo de ser desmascarado, cada um dos membros enviou um áudio falando um pouquinho, mas só um pouquinho mesmo, sobre sua profissão, clicando logo em seguida em “Sair do grupo”.
─ Eu trabalho na fábrica de produtos de limpeza, fazendo cera.
─ Eu trabalho no açougue, enchendo linguiça.
─ Eu, na relojoaria, fazendo hora.
─ Eu, na fábrica de bonecas infláveis, fazendo corpo mole.
─ De salva-vidas, tirando o corpo fora.
─ De segurança, cruzando os braços.
─ De lutador de sumô, empurrando com a barriga.
─ De manequim de caixão, me fingindo de morto.
─ De peão, fazendo rodeios.
─ De piloto de corrida, dando voltas e voltas.
─ De atleta paraolímpico, dando uma de João sem braço.
─ De telefonista, passando a conversa.
─ De cobaia na indústria de pomada pra pele, coçando o saco.
─ De entregador de pizza, deixando na mão.
─ De massagista de jogador, fazendo tudo nas coxas.
─ Na loja de tecidos, fazendo fita.
─ Na Marinha, dando o nó.
─ Na Aeronáutica, dando uma voada.
─ Na orquestra, levando na flauta.
─ Na Batcaverna, morcegando.
─ No restaurante, cozinhando o galo.
─ Na fábrica de charutos, enrolando.
─ Na olaria, fazendo o que me der na telha.
─ No orfanato, dando o Migué.