Antes de Pat Metheny começar a tocar, eu estava pensando num ninho de mafagafos. Eu não sei o que é um mafagafo, mas sei que é um ser. Um ser que faz ninhos. Ninhos para filhotes, que provavelmente nascem em ninhadas. São sete, os mafagafinhos, segundo as escrituras. À hipótese de que mafagafos são ovíparos veio à mente por um breve momento, na esteira da amostragem fornecida pela nossa instrução em biologia básica. Quem tem ninho geralmente bota ovo. Mas aí, Metheny, com sua cabeleira inacreditável, senta num banco rodeado de violões, e faz um improviso que começa com Better days ahead, passa por Omaha celebration e mais uma porção de músicas que só um aspirante a Chapman, devotado à audição dos cinquenta e quatro discos gravados pelo maior guitarrista de jazz vivo poderia apontar com precisão. Um silêncio sepulcral. Ninguém saca um celular para filmar, ninguém olha para os lados. Nada se mexe na Ópera de Arame a não ser a cabeleira de Pat Metheny, de um lado pro outro. Parece um ninho de mafagafos, provavelmente.
Desmafagafizar sete mafagafinhos não parece ser uma coisa boa. De novo, não sei o que é desmafagafizar. Parece ser algo que destitui o mafagafo de sua essência. Como podemos admitir, depois dos avanços na ética animal, tal monstruosidade? Tudo bem que não ainda não sabemos que raios é um mafagafo. Mas também, diante da desmafagafização pretendida, também deveríamos nos perguntar que raios de espécie somos nós. Como podemos compartilhar genoma com Pat Metheny, que vem pela primeira vez em Curitiba e nos emociona ao preferir esconder a melodia de Garota de Ipanema e Manhã de Carnaval em suas modulações harmônicas ao invés de fazer sacanagem com a fauna hipotética local. Não obstante o vasto cancioneiro, Metheny guarda, debaixo de uma porção de notas, a essência de Jobim, Bonfá, Nascimento, Harrison, Lennon, Baker e Davis, sete mafagafinhos a salvo de qualquer desmafagafizador.
Não se sabe ao certo o que faz um desmafagafizador ser bom, mas sabemos que envolve desmafagafizar sete mafagafinhos que estão ali, indefesos, num ninho de mafagafo. Se a excelência do desmafagafizador vem da grande quantidade de mafagafinhos, do fato de eles estarem num ninho ou se – não quero nem pensar nisso – da circunstância de serem filhotes, nunca saberemos. Diante do espetáculo solo de Pat Metheny, só a guitarra (lato sensu) importa. Se a excelência do guitarrista vem de seu longo repertório, do domínio das variedades de instrumentos, como o violão barítono ou a guitarra semi-acústica, ou da versatilidade com que vai de um Dvorak arcadiano em Beyond the Missouri Sky a um Stockhausen raivoso nas suas explorações de Zero Tolerance for Silence, é claro como o sol que Metheny não desmusica a música, mas hipermusica, supramusica e paramusica o que vem pela frente.

Mafagafo é um ser, que dá origem a um verbo – desmafagafizar – e um ofício que parece terrível – o de desmafagafizador. Enquanto eu sonho com um ninho de mafagafos, Metheny sonha com México, porque a apenas a loucura de um de nós dois é capaz de se transformar em algo bonito. Depois que se levanta e se despede de uma Ópera de Arame inconteste e estupefata, ainda volta para não um, mas sete bis. Toca Autumn Leaves como quem encara um HTP disposto a não desenhar chão na casa, raiz na árvore e braços na pessoa; descortina a barafunda de máquinas com que improvisa seu número Orchestrion e se torna amado e temido ao mesmo tempo; explora o tema de Travessia, de Milton Nascimento para nos devolver com a mão esquerda a paz que nos surrupiou com a direita e termina por improvisar uma melodia bonita e extremamente palatável, segundo os ensinamentos de Keith Jarret em Köln.
Quando as luzes da plateia se acendem após um mesmerizante vai e vem do músico, do palco para a coxia, o público se conforma que uma das noites mais memoráveis de 2025 finalmente se acabou. Não temos reação, não podemos almejar ser nada pelas próximas horas, toda a realização pretendida já foi feita diante dos nossos olhos e ouvidos. Para além da insuficiência, fica uma sensação de cuidado. Testemunhamos algo grande e, por alguma razão, secreto. É preciso proteger Pat Metheny como se protege algo desconhecido como um ninho de mafagafinhos. Preservar na memória algo que podemos não entender completamente. Pat Metheny pode ser um ser, uma ação, um modo de pensar a música ou um ofício, que esconde alguma ascese em seus acordes como esconde o rosto debaixo de sua cabeleira. Ou como eu o escondo nessa crônica sobre mafagafos. Para sempre, Pat Metheny permanece indesmafagafizável.