Li, durante o meu minúsculo horário de almoço, a notícia do homem na Flórida que foi preso por matar e comer dois de seus pavões. A Flórida, um estado dos Estados Unidos importante para os brasileiros que gostam de viajar para aquele país, ganhou notoriedade nas últimas décadas pela proliferação de notícias bizarras envolvendo homens. “Florida man” se tornou um objeto no rol memético, a ponto de figurar em um episódio da série afrossurealista Atlanta. Como morador do estado do Paraná, me comovo toda vez que o bizarro e o insólito se incorporam identidade cultural de um estado inteiro, por isso me interessei.
A história conta que o homem da Flórida – este homem da Flórida, entre tantos outros – um sexagenário, comeu seus pavões de estimação por birra de uma vizinha que continuava a alimentar os bichos contra sua vontade. Para provar um ponto muito específico, isto é, seu direito proprietário sobre as aves, degolou, sangrou e grelhou seus bichinhos. O crime foi configurado como crueldade animal, e a imprensa estrangeira tratou de enfatizar o motivo torpe da morte dos bichos. A razão para isso se encontrava no prato à minha frente, que guardava um peito de frango grelhado. Fica difícil para uma sociedade que come carne traçar um limite moral sobre o que comer ou o que não comer. E obviamente a culinária é, assim como todos os outros campos sociais, extremamente moral para além do tabu da carne humana.
A carne do pavão, dizem, é dura e sem graça, e cria-los para fins de alimentação seria um desperdício de dinheiro. Por outro lado, é uma ave sujeita a direitos proprietários e não é protegida pelas leis dos Estados Unidos, de modo que comê-los não é ilegal. O importante aqui no caso, são dois elementos: o contexto – não a forma, não a finalidade da carcaça, mas o contexto – em que eles foram mortos e, eis o ponto, a beleza dos pavões, porque muito provavelmente a polícia não seria envolvida no caso de galinhas.
Bom, vocês já sabem onde eu quero chegar com isso, né? Jesus era feio.
Ao menos, mais feio que Barrabás, que foi solto pela multidão, para o estarrecimento de Pôncio Pilatos. E aqui não estamos entrando no mérito dos populares quadros nacarados do Cristo europeu, continuamos sem saber as feições da santa lata. Sabemos que um assassino confesso foi solto enquanto um pacifista foi crucificado, e a beleza só pode ser configurada por individuação e comparação. Barrabás era um pavão e Jesus Cristo era uma galinha. O pavão Barrabás foi poupado, segundo os teóricos, por sua sedição violenta, distante daquela resistência pacífica da concorrência. Belo e raivoso, consoante com a moralidade estética e posando para a ilusão das massas, Barrabás poderia ter sido tão somente um ególatra, um narcisista que tem apenas a si na ordem do dia, e ainda assim seria poupado.
Como os belos rapazes de fraternidade acusados de estupro em pleno campus das faculdades norte-americanas, liberados pelo juiz consternado com o futuro brilhante pela frente, enquanto as pobres vítimas se contorcem em espasmos de raiva pelo desequilíbrio do mundo, Barrabás, se fosse feio... ah, mas de que valeria a angústia no Getsêmani, o peso das moedas de prata e o desterro dos demais? Jesus precisa ser mais feio e maltrapilho, com o esfomeado que sente o malhete ceifando a incerteza ao roubar um valor irrisório em comida de um supermercado, já contando o lucro da distribuidora e do estabelecimento. O olhar de desprezo sujando a si enquanto comemora o sucesso da expressão dos direitos humanos, certo de que o matariam no ato se pudessem livrar o mundo de mais uma pessoa feia de forma impune.
Obras de arte salvas do fogo enquanto cidades inteiras ardem, a preservação de araucárias fêmea diante da poda seletiva dos machos, a árdua criação de peixes ornamentais contra a tarrafa cheia de corvina. A beleza salva vidas porque a expressão da moralidade no mundo sensível não é privilégio dos fascistas, e Nietzsche não é prescritivo como Adorno. O belo dorme tranquilo e o feio dorme com medo, é como a coisa é. Jesus era feio e morreu pelos nossos pecados, a começar pela soberba e pela vaidade. O mais cristão a se fazer diante disso é preservar aquilo que atenta contra os olhos. Salvar as galinhas, as pichações e os quadros do Romero Brito requer agência, ir contra a corrente. Mas quem é que iria querer fazer uma coisa dessas? Se a beleza está nos olhos de quem vê, onde está a essência?
Provavelmente escondida debaixo de uma porção de penas coloridas.