Minhas costas doem. Estou perto dos quarenta e passei a semana que antecedeu o último show do Planet Hemp em Curitiba à base de opioides fortes. Dói pra respirar, pra abaixar, levantar, dói pra viver. Entendi as declarações de Marcelo D2, agora perto dos sessenta, sobre os limites do corpo que levaram a banda à derradeira turnê. Precisei da dor para criar empatia, não me levem a mal. É um não sei o quê de turnê final pra cá, último show pra lá, todo mundo parece estar sempre anunciando despedidas. É compreensível do ponto de vista do marketing: tudo está caro e o dinheiro é magro. Dói no bolso para morar, para comer, dói para viver, e nunca é um bom momento pra se gastar em shows, a não ser que seja o último. Até ver Ozzy Osbourne conhecer a coisa em si duas semanas depois de tocar, fragilizado e inconsistente, no que anunciou ser sua despedida, não botava fé em nada. Mas deveria, pois estou envelhecendo, o Planet Hemp está se despedindo dos palcos e depois de certa idade, toda maconha é medicinal.
A concepção do espetáculo sugere mesmo uma despedida, com retrospectiva no telão e um set que passa por todos os momentos da banda. Chama a atenção, na narração (é a voz do Black Alien?) a quantidade de pessoas mortas. O fundador Skunk (aids), o parceiro Speedfreaks (homicídio), o amigo Fábio Kalunga (suicídio) – o líder da banda Cabeça, cujo excelente segundo disco jamais viu a luz do dia nas plataformas digitais, aliás, tocou junto com o baterista Pedrinho quando ele era apenas uma criança, além de ter sido baixista do Seletores de Frequência – o próprio Marcelo Yuka (AVC), nosso amigo da praia, aparece numa vinheta de abertura do álbum Jardineiros. Em dado momento, a banda toca a versão de Samba Makossa, de Chico Science (acidente de carro), que D2 performou no acústico do Charlie Brown Jr., cujos integrantes principais morreram de overdose e suicídio. Serge Gainsbourg diria nessa hora, assim como eu, que ele próprio não vai nada bem, mas vivos, a dupla Marcelo D2 e BNegão, o Toejam & Earl da vida real, celebram o que conquistaram, cientes de que não é fácil fazer nem rap e nem rock no Brasil, o que dirá raprockandrollpsicodeliahardcoreragga.
Marcelo, com um colete de batalha do Bad Brains, tranças embutidas, bermuda e tênis, é a personificação do ecletismo de sua época, e não faz a menor questão de corroborar suas declarações acerca do fim. Pula, grita, canta com a garganta seca de maconha e exibe uma disposição invejável. Ao seu lado, Bernardo, o último rockstar do Brasil. Impossível confundir o gigante gentil com uma pessoa comum, que passa desapercebida na rua. Econômico nos movimentos e perdulário com a voz, é todo ele uma construção impossível. Suspeitaria do golpe de marketing da turnê de despedida, não fosse um sofá instalado no palco para que os dois descansassem a cada tantas músicas, em meio a instrumentais longos e narrações no telão. Ao longo dos anos, o show também deixou ter uma atmosfera quase que exclusiva de hardcore, com rodas e moshs, para dar lugar a instrumentais mais elegantes e um naipe de metais que trabalha incessantemente pelas duas horas de repertório, uma amálgama de toda a carreira, com todos os hits.
Ao meu lado, nas galerias, acendem um baseado, e um senhor incomodado pede para que fumem para lá. Nada do bom negro nem do bom branco, que pedem cigarros com pronominais claros. Deixa disso, camarada e me apague este cigarro. Curitiba é mesmo o tipo da cidade que formaria alguém capaz de se incomodar com fumaça de maconha em pleno show do Planet Hemp. Enquanto isso, a banda toca Jardineiros, e demonstra que o hiato anterior aos dois últimos discos recrudesceu a linha política das letras. Menções ao bolsonarismo em novos clássicos como “Taca Fogo” e “Puxa Fumo” funcionam como apêndices de comentários a hits antigos como “A Culpa é de Quem?” e “Contexto”, e ao final do espetáculo, a sensação é de que nada ficou de fora da grande coesão que opera sobre a banda.
Também minhas costas já não doem tanto. Talvez tenha sido a nostalgia, o turismo na própria juventude e a energia contagiante do Planet Hemp. Talvez tenha sido o recinto enfumaçado – as roupas, o cabelo e tudo mais também parecem estar devidamente medicados. Talvez tenha sido o lugar privilegiado que os bons editores do jornal negociaram com a produtora, mas saio da Live Curitiba pleno, com a cabeça leve, sem dores e empolgado com a efervescência musical da minha geração. Provavelmente amanhã cedo o corpo de Marcelo D2 grite mais alto do que ele próprio na noite de hoje. Não me preocupo com ele, que claramente tem suas receitas. Me preocupo com o que será de nós quando faltarem MCs no microfone com atitude HC. Quando o último deles se for, a culpa será de quem?