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Information Society e a visita não tão cruel do tempo

Quem fosse à Live Curitiba naquele sábado à noite encontraria um show de gente grande que nunca perdeu de vista o horizonte do espetáculo

Information Society e a visita não tão cruel do tempo
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“You are content”. As três camisetas pretas dos membros do Information Society formam a frase que só é provocativa para quem não é dessa geração. Felizmente para eles, é o caso da plateia da Live Curitiba do último sábado à noite. O trio norte-americano — que funde tantas vertentes da época que é possível denominar o gênero como “música dance” sem incorrer num reducionismo barato — toca sem medo para uma plateia reduzida que, por sua vez, dança sem medo.

E que medo seria esse se não o medo do cronista que projeta para fora a timidez do corpo? O medo do tempo? Pode ser. Não há como desconsiderar a visita cruel do tempo quando se depara com a plateia mais madura de música eletrônica de que se tem notícia, e não há como ignorar o contraste entre a multidão em êxtase do Rock in Rio II, de 1991 e as cerca de quinhentas pessoas que embarcam no doce trem da nostalgia para fazer turismo na própria juventude. Kurt Harland já não canta com patins sob os pés, os baixos futuristas de James Cassidy agora são retrô-futuristas e Paul Robb, um gênio da programação musical, já não sabe mais consertar na hora os muitíssimos problemas técnicos que os pads eletrônicos apresentaram ao longo da noite.

Ainda assim, quem percorresse o corredor desnecessariamente quilométrico de gradis que serpenteavam para dentro da Live Curitiba naquele sábado à noite encontraria um show de gente grande que nunca perdeu de vista o horizonte do espetáculo. Que importa que o público não seja mais tão numeroso, que haja problemas técnicos, que a plateia esteja como o DDI do Brasil e que o show anterior da Thea Austin do Snap! tenha sido um dos espetáculos mais constrangedores já testemunhados naquele palco? InSoc sabe de si — um amniota primitivo que, caso aceitasse sumir na neblina do tempo, seria o elo perdido entre o funk carioca e a tecneira dos dias de hoje, o espaço entres as mãos renascentistas de Tony Garcia e McLan que quase se tocam. O triunfo do que permanece e do que parece velho sem envelhecer, ou o contrário. Harland levanta a camisa para mostrar o tanquinho e grita em fusão de idiomas: “sessenta e dois anos, motherfuckers!”, para delírio dos igualmente dignos presentes, à exceção de uma meia dúzia de fósseis pitorescos das pistas (o maior de todos, Adial Junior, o Dance Boy, não foi visto em parte alguma, e talvez hoje desfrute do conforto da vida a dois com uma gatinha extrovertida que goste de andar de DelRey cor de rosa pelas ruas do Ganchinho).

Há um episódio de Futurama em que o protagonista, Fry, um homem do século 20 tendo que reaprender sobre a vida na Terra no século 30, está deprimido em casa ouvindo Baby’s Got Back do Sir Mix-a-Lot e Leela chega e diz que ele não pode ficar enfurnado em casa ouvindo música clássica. A graça da piada reside em pensar em uma música tão pobre e vulgar na nossa época alçando o status de clássico com o devido distanciamento temporal. E talvez algumas linhas que Calvino tenha escrito no campo da literatura se aplique à música. O que torna uma banda clássica, afinal? A julgar pelo público da Live, não é a capacidade de renovar seu público, apesar dos esforços de alguns poucos pais orgulhosos com sua prole. Tampouco sua permanência nas paradas, ou a capacidade de emergir como culto após ser escorraçado pela crítica – os ecos da mídia especializada que julgavam o trio uma espécie de Depeche Mode da segunda divisão ainda são presentes em quem vivenciou o período. E, com tudo isso, quem quer que presencie de forma crítica a execução ao vivo de “Think”, “Repetition” ou “What’s on your mind” tem a certeza de que tem, diante de si, uma banda enorme, clássica e atemporal, cujos apodos independem de contingências e circunstâncias. Energia pura. Contra tudo e contra todos, InSoc vive.

Yuri Al'Hanati

Yuri Al'Hanati

Autor dos livros de crônicas Bula para uma vida inadequada (2019) e A volta ao quarto em 180 dias (2020).

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