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Padaria é a nova balada

A liturgia do domingo de manhã agora é a corrida. E o café da manhã é a nova balada

Padaria é a nova balada
Ilustração: Benett
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O tapume cobre a casinha de esquina mais charmosa da rua. Moro no mesmo bairro há muitos anos e já vi essa mesma cena algumas vezes. A casinha, situada na esquina de uma avenida rápida com uma rua de passagem, é charmosa e não foram poucas as vezes em que o curso sonhático da mega-sena que nunca jogo tenha desembocado na compra daquele imóvel. Passa rápido porque logo penso que não ia querer ficar no mesmo bairro pra sempre e muito menos numa rua barulhenta como aquela. Mas uma casinha de pedra, com dois andares, uma boa vegetação em volta e um interior espaçoso chama mesmo a atenção de quem quer que passe, incluindo o de empresários que sonham em ter ali algo próspero e duradouro.

Para os negócios, entretanto, a casinha é um desastre. Inúmeros estabelecimentos abriram e fecharam suas portas ali, alguns sequer cheguei a ver em operação. Bares, cafés, imobiliárias, escritórios de profissionais autônomos, nenhum resistiu naquele endereço. Mas o que vem agora é uma padaria de fermentação natural, a nova febre da cidade.

Jamais escreverei uma linha contra a profusão de padarias artesanais da cidade — poder comer um pão bem feito e lentamente fermentado é um sinal discreto de qualidade de vida que merece o grifo todas as vezes. Minha única ressalva recai sobre as custas de tal explosão. E digo: a cada nova padaria artesanal que se abre, três bares noturnos fecham as portas.

Não é novidade que a geração Z tem uma relação muito diferente da minha com a saúde e o próprio corpo. O consumo de álcool, que atingiu o ápice com os millenials, definha diante da explosão das corridas de rua e das padarias artesanais. Curitiba se tornou, quase que ao mesmo passo, mais boêmia e mais careta. As noites estão mais vazias enquanto o quadrilátero da Prudente de Morais entope a passagem de carros durante as tardes de sábado. A olho nu, a vida noturna continua intacta, mas a historiografia se impõe para nos lembrar de uma época em que o mesmo quadrilátero entupia em outra hora em frente ao Janela. Quem ainda se lembra de quando a Coronel Dulcídio ou a própria Vicente Machado pareciam, nas noites de quinta, sexta e sábado, enormes carnavais fora de hora, fora de época, fora de lugar, fora de contexto e fora da realidade, com aquelas pernas de fora tremendo no frio de onze graus e as fumaças de vape sabor toranja com abacaxi se misturando com o ar quente que sai naturalmente da boca nesta cidade que urge por festa?

A liturgia do domingo de manhã agora é a corrida. E o café da manhã é a nova balada. Nove, dez horas da manhã, e jovens com bigodes anacrônicos, mullets irônicos, pochetes japonesas e calças de prega já estão reunidos para enfiar a cara em rolinhos de canela e cafés especiais, e se engana quem pensa que estão na rua desde a noite anterior. Limpos, magros e com olhares sem expressão, estão ali para celebrarem uma nova forma de boemia saudável e eficiente. Acordar cedo, correr, comer um avocado toast e, quem sabe, ainda fumar um vape sabor toranja com abacaxi, porque alguns hábitos não morrem nunca.

Que tal mudança expresse um novo paradigma de eficiência e estilo de vida condizente com a quadragésima oitava onda do capitalismo tardio, talvez seja cedo para cravar o diagnóstico. Talvez o argumento anedótico de São Paulo, uma cidade que se afunda em uma inflação local enquanto explode em padaria e cocaína, sirva por enquanto para dizer para onde caminhamos. Já viu quanto sai um rolinho de canela e um café coado na V60? Os frequentadores do Pão&Puta se assombrariam.

Yuri Al'Hanati

Yuri Al'Hanati

Autor dos livros de crônicas Bula para uma vida inadequada (2019) e A volta ao quarto em 180 dias (2020).

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