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O que sobrou do céu

Houve uma época em que conseguia enxergar os três principais estádios da cidade da minha janela

O que sobrou do céu
Foto: Tami Taketani/Plural
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Quando lancei meu primeiro livro de crônicas, Bula para uma vida inadequada, meus editores acharam uma boa organizar a estranha viagem de dentro da minha casa para o mundo e de volta a ela, a partir de uma vista da minha janela. No texto, falava da festa na Vila Capanema, sede do Paraná Clube. Os refletores, os gritos da torcida, a massa amorfa de sons que emanavam daquele espaço encravado numa parte pouco prestigiosa da cidade, tudo isso chegava até meus sentidos pelo amplo espaço aberto que a pouca verticalização do bairro me proporcionava.

A verdade é que, desde antes e até agora, a minha vista tem se afunilado. O Marcelino Champagnat tirou minha vista do viaduto Capanema, um condomínio monstruoso de cinco torres esconde agora a estufa do Jardim Botânico, um novo prédio na esquina faz parecer que o Parolim e a Vila Guaíra inexistem, e assim por diante. É verdade que quando cheguei no Cristo Rei, meus vizinhos eram terrenos baldios e casas caindo aos pedaços. Impressionante o quanto o bairro cresceu em tão pouco tempo. De repente, não se acham mais vagas na rua, e a Affonso Camargo fica entupida nos horários de pico. Empreendimentos amalucados surgem a torto e a direito, e quase nenhum para em pé: pet shop, hamburguerias temáticas, clinica estética, restaurantes por quilo, quiosque de bubbletea, todos viraram cinzas, deixando como honrosa exceção o Joy-Joy Café, um reduto necessário para os fãs de jogos de tabuleiro.

Desde que cheguei ao lugar onde moro hoje, as marteladas, serradas e outros sons de construção se sobrepõem ao trânsito e ao trem. A construção civil levanta o glaucoma da minha janela, já existe ângulo para que vizinhos olhem para dentro da minha casa e não vai demorar muito até um paredão de prédios faça uma concha acústica torta e involuntária para o pequeno bosque que me protege da cegueira completa.

É difícil precisar o que é uma boa paisagem de janela quando se mora numa capital. O consenso é a de que, quanto mais cidade diante dos olhos, melhor. Que haja um maciço ao fundo, uma praia para além dos arranha-céus, um monumento icônico ou um rio cheio de curvas que corte a cidade, melhor. Na ausência de tudo isso, uma boa vista se resolve com distância. Toda a informação urbanística condensada em um horizonte indefinido. É o meu caso. A serra do mar está para o outro lado, e o mar, ainda além; a estufa foi tapada pelas torres novas e os rios são todos subterrâneos, dando à brava gente da cidade, vez ou outra, a alegria de ter uma cratera aberta em uma praça. Bons tempos.

Houve uma época em que conseguia enxergar os três principais estádios da cidade da minha janela. Que o sol se punha no Água Verde, e que até dava pra ver um pouco de Santa Quitéria e Novo Mundo. A cidade, plana e uniforme, se estendia até o horizonte, em suas casinhas de bairro e ruas secundárias, rios canalizados e vias expressas. Curitiba ainda cresce, se avoluma e se agiganta em frente aos meus olhos. Veneza afunda, Porto Alegre alaga, São Paulo se cobre de sujeira e o Rio esfarela. Curitiba cresce, e ainda vai me cegar.

Yuri Al'Hanati

Yuri Al'Hanati

Autor dos livros de crônicas Bula para uma vida inadequada (2019) e A volta ao quarto em 180 dias (2020).

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