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O recado dos que não falam

Meu pai costuma usar dois caminhos para me encontrar: o sonho e o espelho

O recado dos que não falam
Ilustração: Frede Tizzot
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Ultimamente tenho prestado mais atenção nos mortos. Deve ser porque preciso estar mais próximo deles do que em outros tempos. É natural. Cada um que parte leva consigo um pedaço da minha vida, e o seu número, na minha idade, não para de aumentar. Já são tantos que, se quero saber quem eu sou, tenho de ouvir o que eles dizem.

Mas os mortos, como se sabe, quase não falam, e quando o fazem repetem sempre as mesmas frases. É preciso então reparar nos seus gestos e hábitos, fazer uma leitura do seu comportamento, mas com discrição, senão eles vazam. Porque são muito suscetíveis e voláteis. Venceram a fome e a fúria, mas não a vergonha de terem sido humanos. 

O que mais tem chamado a minha atenção é a sua forma de visitar a minha memória: surgem e desaparecem quando bem entendem, sem pedir licença para nada. Às vezes ficam muito pouco, às vezes se demoram mais do que seria conveniente. Parecem mostrar um completo desprezo pelo tempo. Uma prova disso seria o fato de nunca usarem relógios. Ou então o hábito espantoso de mudarem de idade, e ora aparecerem jovens, ora velhos, num desapego à ordem natural das coisas. Eles na verdade devem estar se lixando para a ordem natural das coisas. Tanto que preferem me encontrar nos sonhos, onde não são obrigados a assumir uma forma estável. Ali podem se alongar ou encurtar; oscilar como a chama de uma vela; virar cadeira, aranha, óculos partidos; entrar e sair de foco; sumir de um lugar e surgir em outro. Porque os mortos gostam de ser várias coisas, e nunca a mesma por muito tempo. É como se eles me dissessem, lá do seu mutismo ligeiramente envergonhado, que nós vivos estamos muito enganados, muito enganados mesmo a respeito disso tudo. Identidade e calendário, fronteiras e diplomas, paredes e certezas, eles põem tudo em xeque. Mas não entram em detalhes. Aparentemente, ficam satisfeitos de me deixar desconfiado de que estou apegado a coisas estúpidas. Pelo menos é o que a sua ironia velada parece sugerir. 

Uma das coisas que eles mais gostam de fazer é olhar. Ficam ali, dentro de mim, imóveis, olhando, com aquela sensibilidade remota das pessoas extintas. Há quase sempre uma afirmação em seus olhos, que é ao mesmo tempo um apelo. Eles me lembram uma professora que eu tive na infância, uma senhora com ar de cansada que, em vez de responder às minhas perguntas, ficava me encarando à espera de que eu mesmo encontrasse as respostas. Essa, aliás, é uma das poucas presunções dos mortos: contar com o meu entendimento. Eu me pergunto como é que eles, que já passaram por aqui, podem esperar por isso. Mas é o que eles querem, não? Que a gente compreenda algo. Acho que sim. Acho que estão cheios de entrelinhas, os mortos, como um bom poema de Rilke. Você precisa ler e reler até que algo se revele, não no que está explícito, mas no que dentro de você está guardado ou escondido em obscura luminosidade. É isso. Cada morto é um poema denso que me olha à espera de que eu me leia.  

Meu pai costuma usar dois caminhos para me encontrar: o sonho e o espelho. Prefere não fazer o percurso da memória, que é muito antigo e já vai se apagando. Nos sonhos é jovem e preside a mesa do almoço. Curiosamente, está sempre de terno e gravata, como se a nossa família fosse uma formalidade delicada. A mãe compreende bem isso e está de brincos, com os cabelos presos num coque, usando um vestido bonito não sei de que cor, porque o meu pai só aparece em sonhos esmaecidos. Eu e meus irmãos somos uns meninos bem penteados e tranquilos, chego a pensar que o fantasma do pai reescreveu os rascunhos ruins do passado. Eis o que importa, o nosso amor, depurado de todos os erros, inclusive o meu de abandonar vocês tão pequenos, me diria o olhar do pai nesse sonho recorrente. Estamos juntos ali, para sempre, e eu posso andar em torno da mesa. Mas o que anda assim sou eu hoje, e vejo a mim mesmo, criança, entre aqueles que me devolvem a paz de uma confiança rasurada pelo tempo. E não fazemos nada, só comemos em silêncio, trocando olhares serenos. Sabemos que cada um é também todos os outros. É maravilhoso. Não quero acordar disso, dessa comunhão e quietude, mas acordo, despenco de novo em minha embaraçosa individualidade.

No espelho, o pai prefere surgir em meu próprio rosto. Começou a fazer isso quando eu tinha uns quarenta anos, no dia em que fui a um cartório. Eu precisava de uma certidão de nascimento autenticada. A sala estava cheia, peguei uma senha e aguardei a minha vez de ser atendido. Atrás do balcão dos cartorários, vi outra sala, idêntica àquela em que eu estava. De lá, um homem me olhava. Meus cabelos lentamente se arrepiaram, como uma onda que cresce de si mesma. O homem era meu pai. Aquilo confirmava a minha crença infantil de que ele não havia morrido de fato. Me aproximei dele, e o pai fez o mesmo. Parei diante do balcão, encarando-o, num lento reconhecimento de suas esperanças esgarçadas, de seu patético orgulho. E só então compreendi: havia um espelho atrás do balcão. O pai era eu. Ele desenhava agora o seu destino sobre o meu. Pensei, emocionado, que eu havia surgido dele e naquele momento ocorria exatamente o contrário.

Meu melhor amigo, o pintor, perambula entre o sonho e a memória. Não sabe que está morto ou não dá nenhuma importância a isso. Nunca sei se virá aos trinta ou aos sessenta anos. Sua idade varia, mas não o jeito intrigado de se interessar por tudo. É como se as sombras de uma floresta aguçassem a sua atenção diligente. Parece lamentar que eu não acredite no que sei, embora eu não tenha ideia do que saiba. Pinta com as mãos longas e morenas o mesmo quadro em mutação. Ajeita a jaqueta jeans sobre a cintura, põe de lado os cabelos longos, que podem ser negros ou prateados. Às vezes tenho de lhe cortar a comida, porque o seu lado esquerdo já está paralisado pela doença. Às vezes bebemos num bar em que a luz também é líquida. E caminhamos, como o fizemos por mais de trinta anos, por uma rua escura que a nossa amizade discretamente ilumina. Sempre achei que ele, o amigo, foi mais fiel a mim do que eu a ele. Mas, num sonho, ele baniu qualquer possível mágoa. Estávamos numa casa enorme, cheia de gente. Eu saí sufocado para o jardim. Ele me seguiu e, sob uma árvore, me olhou com uns óculos bonitos, de lentes alaranjadas. Sua expressão irradiava uma juventude que transcendia o corpo, como a imagem da chama transcende a vela.   

Minha avó está sempre lavando panelas ou bordando diante da tevê. Sob a pele devastada pela erosão de um temperamento feroz, seus olhos azuis já não são autoritários, ou são, mas a autoridade agora prescinde de ressentimento ou raiva. Ela repete e repete a frase que dizia ao abrir a porta do meu quarto na infância: “Acorda, Marcos!”. Quando lavo louça e fico entediado com a rotina, com a vida besta que todos somos obrigados a levar, me lembro dela fazendo isso a vida inteira sem pestanejar. E se tudo em mim desaba, porque todo esforço humano é vão e a vida não tem sentido, ela larga o bordado e repete: “Acorda, Marcos!”. De que ela quer que eu acorde agora, sem o sono de criança? Do meu inevitável desencanto? Não sei, mas obedeço e sigo em frente. Funciona. Preciso acordar de algo.

O avô troca telhas, pinta o portão e as grades das janelas, melhora o jardim. Já não sua nem rumina as angústias da guerra na França. Sua guerra agora deve ser outra, não diz respeito sequer às ervas daninhas que ele arranca com os dedos nodosos. Penso que o avô, ajoelhado no telhado ou na grama, com a calça velha e o chapéu de palha, luta contra o meu esquecimento. É ele quem tem a missão de me dar as sementes para que eu, quando for morar nos sonhos dos meus ancestrais, entregue a eles as futuras plantas do passado.

Há muitos outros fantasmas que entram e saem das minhas lembranças e sonhos como se estivessem em casa. Quase não os distingo mais de mim. Eles me atravessam, me estendem para além da forma e do número. Esperam, vai ver, que eu mude meus conceitos rígidos da vida, antes que me dissolva como um cubo de gelo na água, sem nunca entender que sempre fui água.

Marcos Pamplona

Marcos Pamplona

Nasceu em Curitiba. Cursou Letras na UFPR. Foi roteirista e redator publicitário, conquistando prêmios internacionais. Desde 2005 dedica-se à literatura, como escritor e editor. Vive em Lisboa.

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