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Canção do exílio

Amanhã vou dormir na minha cama. Depois vou olhar para a mata através do vapor da chaleira. E com uma xícara de café nas mãos, chamarei as coisas pelos nomes que deixei lá

Canção do exílio
Ilustração: Frede Tizzot
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Finalmente decolamos. Lá em baixo, a cidade do Porto vai se reduzindo a um ponto à margem do Douro – mas eu não vejo nada, não estou na janela. Quero ver outras coisas agora. Depois de seis anos em Portugal, me sinto como uma visita que ficou tempo demais na casa dos outros e, exausta dos cuidados que tinha de tomar, relaxa a caminho de sua própria vida. Vamos, vamos para o Brasil, penso olhando ao redor e incluindo os outros passageiros na minha alegria. Sei que a coisa é mais complexa, alguns devem estar aborrecidos ou mesmo indignados com esse retorno, mas nesse momento eles são o meu povo querido, minha alma solar. Claro, a longa permanência entre gente estrangeira, mais formal e menos alegre, de repente me faz achar todos os brasileiros melhores do que são. Esqueço os defeitos, glorifico as virtudes. É esse o efeito da distância; a memória tem um filtro que não deixa entrar impurezas. Mas mesmo os nossos defeitos, eles não têm muito mais cor do que os defeitos pálidos da velha Europa? Sei lá, era tudo tão secamente organizado. Agora veria com bons olhos dois homens de chinelo saltando uma lombada numa motocicleta barulhenta.

Reclino um pouco a poltrona, tiro os tênis. Resolvo não ler nada nem ligar a tela à minha frente: preciso ficar só comigo, aproveitar essa sensação agradável de não ser mais a visita no quarto dos fundos.

O dia já terminou no Porto há algumas horas, mas viajamos rumo ao sol, não anoitecerá durante o percurso. Essa noite vai ter sol, como disse o Leminski. A claridade contínua me vem como metáfora de uma eternidade insone, sem possibilidade de repouso, uma alucinatória luz perpétua. Enquanto penso nisso, alguns passageiros fecham as persianas, adormecem. Logo o avião inteiro fica na penumbra. O rapaz ao meu lado vê um desses filmes bestas de ação. Explosões e tiros o tempo todo, a banalização americana da violência e da morte. Eu devia dormir, como os outros. Não tenho sono, mas tenho quetiapina. Posso tomar meio comprimido e capotar em meia hora. Vamos ver, quando eu me cansar de pensar faço isso, é só pegar o remédio na mochila ali em cima. A farmácia moderna me ajudará a apagar a realidade. Não é para isso que ela serve, apagar a realidade? Acho que sim, ela tem remédio para tudo, dor, insônia, tristeza.

O avião, essa caravela veloz, desliza sobre o mar profundo. Me pergunto o que aconteceria se Camões tivesse ido de avião para a Índia. Escreveria Os Lusíadas? provavelmente não. Como escrever um épico viajando assim, protegido, suspenso no ar, sem a experiência de enfrentar os poderes terríveis e grandiosos do mar e da terra? Talvez ele escrevesse um livro de autoficção, embarcado em si mesmo. “Sem a memória gloriosa daqueles reis que devastaram civilizações, sem fé nem amor ao império das big techs, vou para a Índia espalhar por toda parte a minha indiferença por esse mundo em que tudo foi transformado em mercadoria, até meu engenho e arte.” Não sei. É possível que Camões nem escrevesse nada, vexado com a quantidade de escritores que pipocam nas redes sociais.

Acesso o mapa de navegação na minha tela. Já passamos a Ilha da Madeira, vamos em direção a Recife. Falta muito. Eu devia tomar a quetiapina, não tenho um pingo de sono e desse jeito vou chegar ao Brasil atordoado. Mas não consigo deixar de pensar no que me espera. Será que vou achar tudo feio, depois de andar tanto tempo pela decantada beleza das ruas da Baixa e do Chiado? E a pobreza, e o caos no trânsito, e a ignorância truculenta dos bolsonaristas, vou aguentar tudo isso? A apreensão aos poucos vai envenenando a alegria inicial. Mas então me lembro de que nos últimos tempos eu andava sufocado de tédio em Portugal. Ia do Barreiro para Lisboa, de Lisboa para Guimarães, de Guimarães para Braga e nunca chegava a mim mesmo. É que “mim mesmo” está cheio de gente, e essa gente não estava lá. Mim mesmo é minha mãe velhinha, sentada no cadeirão de vime da sua casa ao pé do morro; meus bons irmãos encanecidos; meu filho de olhos grandes e macios. Mim mesmo são os meus amigos, que abrem os braços para o que sou e fui. São as contradições mais explícitas do meu país, onde tudo é hipérbole. É a fria Curitiba, sua gente difícil, conservadora, o calçadão da XV, a praça Tiradentes, a Boca Maldita, esses lugares que me fazem caminhar simultaneamente no presente e no passado.

E lá, do lado de Curitiba – lá tem a minha casinha no Brejo.

Lembro a casinha, cercada de araucárias, sabiás gordos, abelhas, jacus, sapos. A grande varanda sobre o vale, como rampa para a dispersão. Ali do lado, o casal afável de amigos, na boa morada deles, unidos a mim até pelo silêncio. Lá nada me falta de verdade, posso me perder e me encontrar, estou protegido da ruína e do sucesso. Quando chove eu também chovo, quando venta eu também vento, morro com os besouros de patas para o ar, e ameixas maduras tombam dos meus galhos…

Todos dormem agora, inclusive o rapaz ao lado. O avião navega no dia interminável. Alguém tosse, alguém acende a luzinha do teto. Uma senhora passa em tonto ziguezague rumo ao banheiro. Bocejo aliviado. Percebo o quanto me cansei do exílio autoimposto, apesar dos bons amigos que fiz. Queria viver num lugar bonito, justo e sem violência. Meu deus, como me enganei, como me perdi. A violência era apenas mais interna, a justiça não incluía os imigrantes, e a beleza não tinha sapos.

Amanhã. Amanhã vou dormir na minha cama. Depois vou olhar para a mata através do vapor da chaleira. E com uma xícara de café nas mãos, chamarei as coisas pelos nomes que deixei lá.

Marcos Pamplona

Marcos Pamplona

Nasceu em Curitiba. Cursou Letras na UFPR. Foi roteirista e redator publicitário, conquistando prêmios internacionais. Desde 2005 dedica-se à literatura, como escritor e editor. Vive em Lisboa.

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