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Beijo no escuro

Não sei precisamente como as coisas aconteceram. Faz muito tempo, algum detalhe talvez eu tenha inventado. Mas essencialmente foi assim

Beijo no escuro
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Eu estava com dezoito, dezenove anos. Resolvi visitar uma tia muito querida no interior. Acho que fiz isso porque andava atraído por uma de suas filhas, uma prima da minha idade. Ela nem era muito bonita, mas tinha uns cabelos loiros encaracolados, umas bochechas cheias e abria um sorriso tão meigo, apertando um pouco os olhos verdes e úmidos, que eu esquecia toda a angústia de jovem inquieto e insatisfeito, consumido por uma insuficiência qualquer da realidade.

Não sei como arrumei dinheiro para a viagem, mas às onze horas da noite de um dia longo lá estava eu com uma malinha na rodoferroviária de Curitiba. Levava comigo Os Sertões, e planejava ficar lendo o relato rebuscado da Guerra de Canudos durante a viagem, sob a luzinha do teto, olhando às vezes para a paisagem noturna das terras desconhecidas.  

Eu estava só no começo da minha carreira de viajante, mas já havia entendido que ficava melhor numa janela em movimento, me afastando tranquilo e veloz das coisas embaçadas pelo hábito. Gostava de começar a ter saudades de pessoas e lugares, de purificá-los com a minha ausência, enquanto imaginava o que encontraria no meu destino e o quanto a realidade seria diferente de tudo que eu supunha. E naquela época essa sensação era muito mais intensa do que hoje, porque eu tinha um enorme repertório de desconhecimentos e estava longe de pensar que neste mundo só mudam as cidades, quase nunca os seres perdidos e viciosos que vivem dentro delas.

Me instalei quase ao fundo do ônibus, tirei o livro da malinha e a enfiei no porta-bagagens do teto. Me sentei com o livro no colo e fiquei olhando as pessoas que ainda embarcavam. Elas pareciam um pouco inseguras e excitadas, como eu. Abraçavam com afeto renovado quem ficava, ou embarcavam sozinhas no ligeiro espanto de se deixar para trás. Uma garota, magra e sardenta, sentou-se ao meu lado. Tinha um ar espaventado, disse algo simpático e se aquietou. O ônibus partiu devagar, atravessou lentamente as ruas cheias de semáforos e lombadas da cidade e, para o meu grande prazer, ganhou a noite mais pura das regiões inabitadas.

Comecei a divagar. Quem viveria lá, no meio do campo, atrás daquela janelinha iluminada que parecia flutuar como um barco solitário na treva? Que bichos viveriam naquelas florestas de feltro negro, numa teia de silêncios e rumores, rompida às vezes pelo bote de um predador insone? O ônibus balançava suavemente, os passageiros aos poucos adormeciam. Não, eu não abriria o difícil Euclides da Cunha. Queria ficar olhando a vastidão noturna. Queria prolongar aquele fluxo de pensamentos que não chegavam a se fixar em nada, uma ideia nascendo da outra sem as amarras do entendimento.

Eu ia visitar uma prima que tinha visto poucas vezes, uma criatura inventada pela minha carência de alguma tola alegria provinciana. Sabia que não poderia namorar a prima, com a tia e o tio por ali, desconfiados da razão da minha visita inusitada. E na verdade eu já tinha noção de que as minhas inquietações assustariam a moça pacata, entorpecida por bocejos de ideias hereditárias. O mais provável era que eu tivesse criado um pretexto amoroso para sair um pouco dos meus conflitos daquela idade. Havia o desprezo pela sociedade capitalista e a necessidade de buscar emprego; o amor pela literatura e a taxidermia literária da faculdade de Letras; o novelo sem pontas da família; o corpo jovem pedindo sexo e uma certa desconfiança da minha própria concretude etc. Eu precisava de uma prima inventada, um quase incesto, um diabo qualquer que me livrasse dos males do bem.

Essas coisas passavam pela minha cabeça sem peso, embaladas pelo ronco baixo e grave do motor.

Pus o calhamaço entre as coxas. Adormeci.

Não sei precisamente como as coisas aconteceram. Faz muito tempo, algum detalhe talvez eu tenha inventado. Mas essencialmente foi assim.

A garota ao meu lado, que também devia estar dormindo, acho que encostou o braço no meu. Entre o sonho e a realidade, deixamos as mãos se tocarem. A cabeça de um dos dois caiu sobre o ombro do outro, como um barco sem comando encontra a areia. Os cheiros se misturaram, os hálitos, os cabelos, os calores, longe da vigília mas não do instinto. Provavelmente ficamos bastante tempo desse jeito, dois desconhecidos enlaçados por um desejo calmo, anterior à intenção. Então o ônibus passou pela zona iluminada de um posto da Polícia Rodoviária. Alguém disse algo, talvez o motorista. Um de nós dois acordou, os dois se aprumaram. O ônibus logo voltou ao balanço sonolento, mas agora nos olhávamos no escuro. Havia um ardor suspenso de gato na presença da garota, um cheiro bom de desejo entreaberto. Estendi a mão e afaguei os seus cabelos crespos, beijei-a e me afastei devagar, para ver se ela não estava ofendida. A garota deitou a cabeça no meu braço. Parecia cansada de algo que nem tinha começado. Pus a mão no seu ombro, apertei para sentir o osso fino, delicado, o manto frágil e morno da carne. Ela virou o rosto para cima até onde podia, o nariz apontado para o alto de nós dois. Me encurvei e agora beijei-a com a boca inteira, as línguas dançaram um tango tonto. Afundei o meu queixo na bochecha magra, ela roçou a testa na minha sobrancelha. A garota então se ergueu, ficou sentada, mais atenta, me abraçou e o beijo frontal nos deu uma consciência maior da angulosidade dos nossos corpos. Por algum motivo não nos tocamos nos sexos, e ficamos só nos beijando na penumbra. Sua saliva tinha um gosto agridoce; a imprecisão do rosto na penumbra me permitia inventá-la, mas nossos lábios moles me bastavam. Ela passava, delicada, os dedos pelas minhas orelhas, eu afagava a cintura dura e fina. Podíamos ficar para sempre assim, sem avançar nem recuar. Não, não podíamos, mas talvez aquilo durasse muito tempo, se alguém (o raio da realidade) não tossisse ali perto num tom de censura. A gente se afastou, cada um se ajeitou no seu lugar. Não fazia mesmo muito sentido. Era coisa de sonho, erotismo de sombras, sem o impulso da queda real no outro. Eu olhei pela janela, ela fingiu adormecer. E nada mais aconteceu.

Mas se não foi o beijo mais longo da minha vida, foi o mais leve, o que menos me consumiu.

O ônibus parou na rodoviária desolada de alguma cidadezinha no meio do caminho. Não havia ninguém na plataforma. As luzes do ônibus foram acesas. A garota sorriu para mim, pegou a mochila lá em cima e caminhou num ziguezague de bater a mochila aqui e ali pelo corredor. A sua figura não me interessou, mas quando ela foi embora naquela rodoviária do interior, magrinha, ossuda e sardenta, eu tive que rir dos beijos que dei com conhecimento do outro. Como eram carentes e até violentos perto daquele beijo no escuro…

As coisas que passei na casa da minha tia, aquelas noites vendo tevê ao lado da prima amável e aborrecida, a leitura de Os Sertões na varanda de lajotas quentes, a outra prima me servindo sucos e ironias, nada disso me marcou. O que ficou mesmo foi o beijo que dei em alguém cujo nome, origem ou destino não soube, nem jamais saberei.

Marcos Pamplona

Marcos Pamplona

Nasceu em Curitiba. Cursou Letras na UFPR. Foi roteirista e redator publicitário, conquistando prêmios internacionais. Desde 2005 dedica-se à literatura, como escritor e editor. Vive em Lisboa.

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