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A velhinha da Avenida Bocage

Às vezes, em algum momento mais introspectivo do dia ou da noite, eu pensava nela. Na verdade, pensava em mim através dela

A velhinha da Avenida Bocage
Ilustração: Frede Tizzot
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Lá no Barreiro, a cidade onde eu morava em Portugal, havia uma velhinha que ficava sempre na janela, olhando o movimento da Avenida Bocage. Ela morava no térreo de um pequeno apartamento em frente à calçada, e mantinha a janela aberta o ano inteiro, mesmo nos dias mais frios do inverno. Eu passava muitas vezes por ali, a caminho da estação de barcos para ir a Lisboa ou do mercadinho de uma chinesa simpática que vendia legumes baratos. Já sabia que a velhinha estaria na janela, imóvel, com o mesmo vestido de flores descoradas e um olhar perdidamente fixo. Mas às vezes me esquecia da mulher e me assustava com a sua aparição ao meu lado. Ficasse eu assustado ou não, ela não reparava muito em mim, nem na verdade nas outras pessoas que desciam ou subiam a avenida. Era como se a velhinha precisasse apenas do nosso vai e vem para não submergir na solidão. Tudo se movia, e parecia que isso lhe bastava para se manter à tona de um mundo estranho e aleatório, do qual já quase não fazia parte.

Do ponto de vista de uma engrenagem social que usa a força provisória da pessoas, ela já não servia para nada. Talvez não tivesse parentes, ou houvesse sido esquecida por eles, o que não seria nada incomum por lá. De qualquer forma, a velhinha já não queria ou não podia ir a lugar nenhum, mas tinha achado um jeito de fazer parte, mesmo que à distância, da necessária agitação da realidade.

Logo depois de passar por ela eu a esquecia, como esquecia a Farmácia Parreira ou o sorriso da chinesa. Mas às vezes, em algum momento mais introspectivo do dia ou da noite, eu pensava nela. Na verdade, pensava em mim através dela. Um dia, dizia esse pensamento, só terei por companhia os fantasmas do passado, e ficarei na janela preso por um fio cada vez mais fraco ao fervor da vida. Exausto de me renovar, não reconhecerei mais as coisas à minha volta, e mendigarei a sua indiferença, perdidamente fixo na ideia renitente de existir. Nesse dia, que já não está longe, eu deveria meter uma bala na cabeça, mas provavelmente não o farei, porque sou tão apegado à vida que o pior sofrimento será melhor do que o nada.

Aconteceu então, como tantas vezes, que eu estava errado, se não sobre mim, com certeza sobre a velhinha.

Chovia uma chuvinha ranzinza, fina e constante. Eu tinha que ir a Lisboa para alguma reunião de trabalho. Vesti um casaco impermeável, umas botas, peguei uma sombrinha e desci nove andares concedendo apenas um breve olhar para o homem mal-humorado no espelho do elevador. Saí do prédio, abri a sombrinha com dificuldade. Dei alguns passos pela minha rua, dobrei a esquina à direita e entrei na Avenida Bocage. Logo vi que uma mulher jovem, de capa transparente, conversava com a velhinha. A mulher era baixinha, meio gorducha e fazia gestos eloquentes com os braços curtos. Atravessei a rua e me postei embaixo de uma marquise para ver as duas com discrição, fingindo arrumar alguma coisa na minha mochila. A velhinha, que eu já dava por morta, respondia com a calma de uma veterana de guerra aos disparos verbais da outra. Os carros passavam entre nós, eu não ouvia o que elas diziam, mas de repente a rua ficou em silêncio. Pude ouvir a velhinha dizer “Se calhar ele não queria”, no tom claro e paciente de alguém que administra a ansiedade alheia. Quanto mais a velhinha amortecia o que devia ser uma confissão ou uma fofoca exagerada, mais a outra parecia entusiasmada com a sua própria falação. De repente, a jovem da capa parou no meio de uma frase e olhou para trás, bem para mim, sem que eu tivesse percebido a velhinha indicar a ela a minha curiosidade. Fiquei envergonhado, fechei o zíper da mochila e desci a Bocage em direção ao Tejo.

No barco, olhando o rio enevoado pela chuva, tentei entender aquela senhora. Ela era visivelmente ponderada, tinha uma voz calma e tolerante, por que ficava todos os dias feito louca numa janela? Era estranho, as coisas não fechavam. A não ser, pensei me divertindo com a ideia, a não ser que a minha velhinha fosse uma filósofa. A rua seria então apenas um vago apoio para as suas reflexões. Algumas pessoas, como a jovem da capa transparente, saberiam disso, parariam diante dela para confrontar-se com a sua decantada sabedoria e depois seguir mais leves. Nesse caso a sua janela seria uma espécie de consultório, e aquele seria o trabalho dela: despertar as pessoas, cada vez mais apressadas, do vazio produtivo com que foram convenientemente entorpecidas pela máquina comercial do mundo. Sua imobilidade meditativa seria, por si só, uma afronta necessária à vacuidade daquele trânsito frenético para fora de si…

Vá saber, eu mais invento as pessoas do que conheço, eu me disse, pegando a mochila para descer do barco, que, com um solavanco, encostou no píer.

Andei até o Terreiro do Paço, peguei a Rua Augusta, subi as ladeiras até o Chiado, fiz a minha reunião. Mais uma vez fui cordial e persuasivo, o que depois sempre me deixa cansado; talvez tenha fechado um contrato, talvez não, não me lembro. Foi apenas mais uma reunião das muitas que fiz para garantir uma grana que dava para pagar o aluguel, a gasolina, a comida, alguma roupa nova, o vinho, algumas viagens por aquele belo país, mas não sobrava para eu fazer a poupança que me libertaria de vender qualquer coisa, principalmente eu mesmo. Não era possível ver um fim naquela passagem veloz dos dias, descartados como as folhas vencidas de uma agenda.

Um dia me cansei de ser estrangeiro e fiz o caminho de volta através do oceano. Levava comigo a impressão de ter vivido um grande e inútil tumulto, com alguns respiros de deliciosa dispersão, como aquela vez em que lutei sorrindo com a ventania diante do penhasco do Cabo da Roca, ou a tarde em que eu e meus filhos caminhamos tranquilamente afastados uns dos outros pelo espelho das areias molhadas da Costa da Caparica.

Voltei para o sul do Brasil, para a minha casa no mato, onde os meus passos também se perdem, mas os pés reconhecem o chão.

Ontem, olhando pela janela para o silêncio potente das altas araucárias que me cercam, vi meu reflexo no vidro: um homem de óculos, de barba e cabelos brancos, concentrado em algum pensamento sem peso. Então me lembrei da velhinha da Avenida Bocage. Será que ela ainda estaria lá, enfrentando o calor e o frio, espalhando discretamente pela rua uma placidez perdida? Não sei. O que sei é que aquela janela continua aberta na minha memória.

 

             

           

                 

Marcos Pamplona

Marcos Pamplona

Nasceu em Curitiba. Cursou Letras na UFPR. Foi roteirista e redator publicitário, conquistando prêmios internacionais. Desde 2005 dedica-se à literatura, como escritor e editor. Vive em Lisboa.

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