para João Debs
Das janelas da sala lá de casa a gente via a rua de saibro e um barranco de terra negra. Se eu atravessasse a rua e subisse pelo barranco com a ajuda das mãos, chegava a um terreno baldio que ocupava quase toda a quadra em frente à nossa. Era grande, imenso para as minhas dimensões infantis do mundo. O mato rasteiro e os arbustos se espalhavam livremente pelo campo, entregues aos humores do vento, do sol e da chuva. Os meninos da vila soltavam pipas, jogavam futebol ou brincavam de esconde-esconde por ali. Seus gritos agudos se perdiam na distância, aprofundavam o silêncio.
Eu também gostava de brincar naquele campo, mas de preferência sozinho. Gostava de correr por entre as mamonas, ervas-doces, urtigas, barbas-de-bode, dividindo a vertigem do espaço com zangões, moscas verdes, pardais, pequenas borboletas de um amarelo palpitante. Aquilo era um pasto para a imaginação. Eu podia voar como Evel Knievel saltando de uma rampa com a bicicleta, fugir da polícia ou perseguir ladrões usando armas feitas de forquilhas, andar a cavalo entre apaches sedentos de vingança com um cabo de vassoura entre as pernas. E quando me cansava de ação, podia deitar na relva de braços abertos e, só com a força da mente, levitar muitos palmos acima do chão, para espanto de uma plateia inventada. Ou então admirar o mistério da morte no olho entreaberto de um pássaro fervilhante de formigas, tocar suas penas inertes, desvalia do vento.
Quando o sol se punha e eu tinha de voltar para casa, era triste reingressar na ordem doméstica, no eterno ritual de banhos e jantares, lições de casa, conversas sérias e reuniões de mudos diante da tevê. Eu tinha de me encolher para ser o filho de pijama na redoma da família, o menino que não fala de boca cheia e dorme cedo num quarto com grades na janela, enquanto a noite guarda lá fora os segredos da sua infinitude.
Naquele campo, porém, havia um lugar do qual eu nunca me aproximava. Ficava do outro lado da quadra, numa das esquinas da rua paralela à nossa. Era uma velha casa de madeira abandonada, cercada de árvores sombrias que a encobriam como se conspirassem. Estava sempre úmida e escura. Um tapete de limo aveludava o telhado. A pintura se desprendia das paredes em rolos pontudos, como garras de rapina. Folhas mortas se prendiam às frestas das venezianas mofas. Um tufo de erva espinhenta atravessava as ripas podres da pequena varanda. Já não tinha porta. Alguém tinha escrito DEISE numa das paredes laterais.
Às vezes eu passava por lá quando voltava para o jantar. Acelerava o passo, mas ficava de olho na garganta negra da porta, temendo que lá de dentro saísse o monstro, humano ou não, que me destroçaria — talvez o assassino de Deise, talvez o fantasma da própria Deise de cabeça caída no ombro. Me esforçava para não correr, com receio de provocar a ira da entidade demoníaca que habitava o inabitável. Além disso eu tinha onze, doze anos, era homem, diziam que medo era coisa de mulher, se corresse confessaria minha fraqueza. Por isso depois, já perto de casa, me envergonhava do pavor. Fingia naturalidade chutando pedras ou tentando agarrar os mosquitos que já esvoaçavam sob a luz dos postes. Abria o nosso portão aliviado, era bom ser o filho protegido. E entrava no meu lar, tranquilo, pois ninguém tinha visto nada, não poderiam me acusar da infâmia do meu cagaço de homem.
Muitas vezes sonhei que entrava pela porta daquela casa abandonada. Eu dava alguns passos no breu — um breu vivo, que respirava, me olhava — e de repente caía num buraco, num fosso cujo fundo grávido de horrores eu nunca atingia, porque despertava em pânico. Examinava então a penumbra do quarto. Estava tudo calmo, meus irmãos dormiam serenamente. Me erguendo nos cotovelos, eu os olhava melhor: agora pareciam cúmplices dissimulados da maldade das trevas. A luz pálida da rua projetava as sombras das folhas do salgueiro sobre as cortinas brancas. O vento balançava o salgueiro, as sombras se moviam como um cardume espectral. Eu já não podia dormir. Até a realidade mais íntima me ameaçava e, se fechasse os olhos, no reino dos sonhos a porta medonha estaria novamente à minha espera. Novamente eu cairia naquele abismo do meu ser que, hoje eu penso, escondia do meu entendimento terrores oceânicos, talvez ancestrais — quem sabe os pavores de um menino de Neandertal, temendo na noite do tempo as feras que rondam a luz vacilante de uma pequena fogueira.
Tenho saudade daquele assombro, perdido no limiar da adolescência. Nunca mais se diluiriam depois, pelo menos de maneira tão natural e profunda, os limites entre a realidade, a fantasia e o sonho. Eu passaria a ser governado pela ilusão da superfície; toda queda seria física, moral ou psicológica; todo monstro teria rosto, nome, endereço; os sonhos supostamente não estenderiam seu vulto ambíguo sobre as obrigações maquinais do dia.
Às vezes, depois de caminhar pelo Bico do Mexilhoeiro, vou às ruínas carbonizadas da fábrica de cortiça da Quinta do Braancamp e tento recuperar aquele espanto infantil, mas só encontro em mim os fantasmas da História. Eles são humanos, são ingleses ricos do século XIX que dominavam a Quinta, trabalhadores portugueses que laminavam cortiça em troca de um salário de fome. Não me espantam senão pelo que têm de desoladamente terreno, humano, presumido. Vou até a praia de Alburrica, olho para o Tejo. Imagino além o mar e o tempo que me separam daquela casa abandonada na periferia de Curitiba, nos anos 70. Revejo meus passos apressados diante daquele portal de assombro, o sonho horrível que se evolava para me deixar com meus irmãos transformados em duendes. Mas jamais reencontro o pavor divino do menino, o arrepio que suspende a lógica, a poesia metamórfica de uma imaginação que ainda não fora reduzida à pobre verdade material da existência.
Preciso então escrever para atar as pontas da vida. Levar, através das palavras, o homem consumado ao anoitecer de sua infância, quando voltava para casa com o coração aos pulos, embriagado daquele sacrifício da luz que não se consumaria de todo quando visse a avó manipulando panelas em meio aos vapores da cozinha. Preciso levar o homem consumado ao menino para ele lembrar que não é feito apenas do que sabe e viu, e que nem mesmo o seu corpo provisório é um limite que o define. Para que ele não esqueça que um cardume espectral nada, para lá e para cá, através das cortinas tênues de sua consciência.