Pular para o conteúdo

E eu, que fui emo?

Ao contrário do que o título da crônica sugere, eu nunca fui emo. Isso aí é só o nome de uma finada comunidade do finado Orkut

E eu, que fui emo?
Publicado:

O mercado de delineador está em alta. A prateleira de esmaltes pretos está vazia. Pet shops estão sendo convocados para suprir o estoque de gargantilhas. Meias sete oitavos listradas e gravatas quadriculadas estão penduradas lado a lado no varal. Não no meu. Ao contrário do que o título da crônica sugere, eu nunca fui emo. Isso aí é só o nome de uma finada comunidade do finado Orkut — que, no título, simulava uma conversa no ano de 2030 em que um dos interlocutores admitia ter engrossado as colunas do movimento que foi a última onda do punk rock californiano. “Cara, fiz tanta merda na adolescência...”, dizia um, ao que o outro respondia: “E eu, que fui emo?”. A brincadeira em torno da comunidade do emocore, um punk rock ma is melódico e de temática mais sentimental e introspectiva, girava em torno da expectativa do caráter efêmero do movimento, e do seu total desaparecimento daqui a cinco anos.

Prestes a receber a segunda edição do festival de emocore I wanna be tour, Curitiba se vê arremessada para vinte anos no passado, com a celebração dessa comunidade que, de forma divertira e irônica, assimilou todas as críticas que recebeu em seu auge. Inclusive institucionalmente: o nome do festival brinca com a validação que o movimento não recebeu de outras vertentes do punk rock, e os palcos – um chamado “It’s not a phase” (“não é uma fase”), e o outro chamado “It’s a lifestyle” (“É um estilo de vida”), remete à resposta dos fãs acusados de aderir acriticamente a uma tendência passageira e infantiloide.

Os grifos se justificavam numa leitura superficial do momento. Rescaldo da década de 90, que passou por uma infinidade de novos estilos musicais, movimentos culturais e tendências artísticas que, com certo distanciamento, foram considerados estranhos, os emos pareciam, entre tantas, mais uma invencionice de uma época criativamente permissiva (quem aí se lembra do manifesto “Caranguejos com cérebro”, do movimento manguebeat?). Já a parte de ser considerado um gênero infantil e adolescente pode ser creditado a uma sociedade desinteressada em se contectar com os próprios sentimentos. Nem elaborá-los publicamente, nem exibi-los.  Some-se isso a uma roupagem musical mais radiofônica e uma temática lírica que se afastava das grandes que stões coletivas para focar no individual e começa a ficar claro como os punks se sentiram cooptados pela indústria do emo, esse bando de bebês chorões que não têm compromisso com a destruição do sistema e com estilos de vida alternativos.

O I wanna be tour mostra que os anos de bullying e a recusa em correr das próprias emoções pagaram seu preço. Os emos hoje, crescidos e compartilhando da mesma nostalgia, conseguem rir de si e não se importam se parecem ou não ridículos aos olhos dos roqueirões conservadores que se levam a sério e nunca saem do personagem. Formam uma base sólida de fãs para bandas que se mantêm ativas na cena até hoje. Fresno, Good Charlotte, Fall Out Boy e Glória, entre outros, serão recebidos com os repertórios na ponta de milhares de línguas dentro de milhares de bocas que têm ou já tiveram piercings, e que podem virar umas para as outras sem constrangimento nenhum para brincar: E eu, que fui emo?

E a risada provavelmente seria selada com um beijo. Boa sorte pra você que tentar algo assim no show do Hatebreed.

Yuri Al'Hanati

Yuri Al'Hanati

Autor dos livros de crônicas Bula para uma vida inadequada (2019) e A volta ao quarto em 180 dias (2020).

Todos os artigos

Mais em Cronicas

Ver todos
Patinação no gelo: o fogo de Prometeu

Patinação no gelo: o fogo de Prometeu

/

Mais de Yuri Al'Hanati

Ver todos
Dig dig dig

Dig dig dig

/

De nossos parceiros