Eu era um jovem de vinte e um, vinte e dois anos, sei lá, e estava urinando num mictório do shopping Crystal – aquele que ficava do lado da livraria Saraiva, onde passava minhas tardes ociosas deixando marcas de dedo em livros novinhos em folha – quando percebi que ao meu lado, excretando fluídos, estava Hermeto Pascoal. Se você acha que nenhuma história espetacular envolvendo urina e Hermeto Pascoal pode surgir assim, numa crônica, talvez esta seja a sua renovação de fé. Porque isso foi tudo. Agora que o Hermeto morreu, uma pletora de fotos e histórias encharcaram o mictório das redes sociais. Pessoas contando de encontros inesperados, parcerias musicais, autógrafos e concertos, e eu só tenho isso pra dizer sobre meu encontro com o bruxo da música brasileira. Numa tarde de uma época menos complicada, Hermeto Pascoal urinou do meu lado, a poucos centímetros de mim. Não pedi uma foto, um autógrafo, não troquei uma palavra com ele. Compartilhamos juntos o som de nossas urinas descendo pelo ralo do shopping Crystal enquanto fazíamos a audição silenciosa de No Scrubs, do TLC, que tocava a um volume baixo nas caixas de som do banheiro.
Fico um tanto melancólico ao saber que esse momento jamais vai se repetir. Hermeto nos deixou no último fim de semana, não sem antes deixar uma marca profunda sobre a música mundial, baseada em sua abordagem corajosa e desfiliada. A música de Hermeto era complexa e ao mesmo tempo parecia sair de si sem esforço, como uma mijada num banheiro de shopping. Estávamos todos prontos para chorar Hermeto na Ópera de Arame no último domingo, quando o Snarky Puppy voltou à cidade para fechar o circuito Curitiba Jazz Sessions.
O baixista Michael League, líder do decateto texano de Jazz Fusion, logo após a primeira música, fez uma menção a Hermeto e sobre a experiência que teve substituindo músicos de uma banda cover de Hermeto Pascoal que procurava agitar sua universidade do norte do Texas. “Hermeto tem influência nesse grupo como qualquer outro músico de jazz”, disse pra uma plateia ovacionante que parece não ter entendido que aquilo estava longe de ser uma lisonja. Era melhor não ter dito nada, se fosse para dizer o que disse em seguida: “Em respeito a Hermeto, não tocaremos nenhuma música dele hoje”. Então você veio ao país de Hermeto com nadinha no bolso, nem mesmo a desfaçatez do jazzista que aprende um tema de última hora. Acontece, mas não jogue na cara. As outras dezoito mãos restantes ficam nos bolsos – todos preferem manter um sorriso estático de corretor imobiliário a levantar uma palma ao alto para se acusar conhecedor do acervo do bruxo. Uma flauta transversal na mão podia assobiar cinco segundos do tema de O Ovo, mas nem isso. Sequer existiria conexão entre o show e o músico não fosse essa mesura desnecessariamente inserida no repertório.
Bom, não adianta ficar pensando nisso, a orquestração da banda que conjuga dois trompetes a um violino distorcido, como um Glenn Miller maluco, já deixa clara as reais afiliações. Para homenagear o Brasil, tocam Semente, uma música autoral que homenageia um bar de samba no Rio de Janeiro onde aprenderam rudimentos do gênero, e desfiam notas na cadência de um baião. A imagem de Gerry Mulligan tentando aprender Samba de uma nota só diretamente das instruções de Jobim em carne e osso me vem à mente. Ê, gringaiada.
Aos poucos, a maçaroca de som vai sendo regulada pela mesa e o repertório caminha por alguns dos temas mais antigos – os que fizeram nos apaixonar pelo grupo, como Thing of Gold, dedicado ao antigo tecladista Shaun Martin, falecido no ano passado, e What About Me?, do potente We Like it Here, gravação de 2014. Em Xavi, o saxofonista tece um solo esquisito e sem inspiração, e eu penso de novo em Hermeto, que estaria zanzando como uma abelha em volta de todos aqueles instrumentos e tirando solos surpreendentes de todos eles. O solo de sax transmite bem a ausência de inspiração do grupo naquela noite – e a ausência de Hermeto. Alguns momentos brilhantes saem das mãos do tecladista Justin Stanton, que, na véspera de seu aniversário, manteve uma constante de elegância nas inserções das teclas, mas ao fim de um bis chocho como um biscoito mole que fica no topo de um pacote aberto, levantei com aquela resignação de que é, foi oquei.
Em 2007, Hermeto fechou a braguilha e lavou as mãos assobiando algo inteligível apenas para si. Naquele momento, já não estávamos mais em comunhão, e para sempre foi a possibilidade de ter uma história com ele que tenha valor em absoluto, que prescinda da pena da literatura. Agora só me resta dizer coisas sem sentido como “eu gosto de imaginar que nossas urinas se misturaram no esgoto do banheiro e que o Shopping Crystal carregou para longe minha única obra colaborativa com Hermeto Pascoal” e me sentir mais parte do mundo mágico que o bruxo deixou pra trás. Mas a verdade é Hermeto se foi, e eu permaneci no mundo do Snarky Puppy, que parece querer cobrir a falta de inspiração com eficiência. Fui animado para o show, voltei com todas as razões para me enlutar por Hermeto.