Tive um contato detido com a obra do Veríssimo, há pelo menos vinte anos, após um acidente de carro, quando passei alguns dias em casa convalescendo. Amigas que vieram me visitar trouxeram o livro Sexo na Cabeça, de 1999. A leitura das crônicas me fisgou de imediato, impossível parar. A partir desse momento, Veríssimo se tornou para mim, mais do que uma referência indispensável, um vício compulsivo. Agora eu tinha que ler tudo o que o autor escrevera até então.
Com o seu falecimento, o Brasil perde um de seus escritores mais admirados e respeitados, um gigante popular. Seu legado certamente continuará a inspirar gerações. Seus livros, repletos de personagens que marcaram gerações, são parte do imaginário nacional.
Sempre com a dose exata de humor, Veríssimo é mestre da crítica social. Analista mordaz das sutilezas e dos absurdos do cotidiano. Hábil em transformar assuntos triviais em reflexões de impacto e profundas a respeito das relações humanas. Observador da nossa tragédia diária, mostrou como ninguém o interminável leque de contradições. O futebol, a política, são comédias de erros. A dramática e nonsense vidinha mais ou menos da classe média está lá nós espelhos que levantou para nós. O humor é a única saída. Porém, o humor não como simples ferramenta de diversão. Veríssimo se dedicou a dissecação de inúmeros temas demasiado humanos, sentimentos e dilemas. Nesse sentido, Veríssimo foi um nosso Tchekhov, um nosso Balzac.
Sua carreira teve início em 1966, no jornal Zero Hora, em Porto Alegre. Ao longo dos anos o escritor e jornalista se consolidou completamente. Escreveu para grandes veículos como O Estado de S.Paulo e O Globo.
Com seu estilo informal, direto e bem-humorado fez pensar e fez rir, fez rir pensando e conquistou legiões de fãs. Publicou mais de 80 livros e vendeu milhões de cópias. O autor, no entanto, não apenas marcou o cenário literário. Também ganhou popularidade com adaptações para a televisão, cinema e teatro.
Mas foi na crônica, com o inesgotável estoque de ironias e a sagacidade de suas palavras, que Veríssimo encarnou esse gênero inteiro, ligando gerações de leitores, os transportando do século XX para o XXI. Em vez de posar de intelectual, escreveu como fosse o amigo de bar que sempre tem uma boa história na manga. Ninguém gosta de perder um bom amigo, por isso a morte dele me deixou tão triste. Por isso a partida de Luís Fernando Veríssimo deixa a literatura com bem menos graça.