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Réquiem

O caçador está a trinta metros de distância. Experiente, hábil. Sabe onde atirar, quais pontos são vitais

Réquiem
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Gestação, quase dois anos. Ele chega ao mundo, a mãe alerta, mantém pertinho dela, puxa com as patas ou a tromba, que ninguém chegue perto. É um recém-nascido, seu banho de filhote providenciado pela mãe. Faz barulhos altos, choros de bebê, a mãe sempre ali de prontidão, acalmá-lo. Ela ama o filhotinho, demonstra felicidade, emoção por meio de cantos e choro. Ele aprende a ficar em pé. A mãe remove a placenta de si para esconder o cheiro e proteger o filhote de hienas e leões.

Jovem, ele já não enxergava muito bem, mas tem o melhor faro do reino animal, sabe o cheiro da água com até vinte quilômetros de distância. Evita queimaduras de sol cobrindo o corpo com lama ou areia. Ataques hormonais, testosterona, disputa de território, respeito dos outros machos. Bagunça na água, empurra os amigos na brincadeira. Dança aquática, no rio ele se lava, a tromba é um snorkel. A tromba, nariz e lábio superior, segura alimentos e absorve a água.

Destrutiva, devastadora é uma Elephant Gun. No nome o objetivo da arma: balas grandes e potentes o bastante para abater elefantes. Balas, desmedido poder de penetração, capazes de atravessar a grossa pele do mais perigoso animal. Um disparo, a uma distância curta ou média, detém o avanço de um elefante. Animais de toneladas simplesmente tombam com o impacto. Búfalo, elefante ou leão ferido dentro da mata fechada, situação de caça da mais perigosa. Nenhuma outra arma de fogo é mais adequada para tal situação do que um rifle Express de canos paralelos, poderoso calibre africano. São armas extremamente equilibradas, canos curtos, miras de enquadramento rápido, dois gatilhos com mecanismos independentes, potência para resolver com um só tiro. Armas místicas. Carregam a nostalgia da época de ouro dos safáris de caça em uma África ainda se lavagem.

Adulto, chora de alegria ou alívio quando supera perigo ou sofrimento. Mostra compaixão por elefantes que passam por momentos difíceis. Demonstra carinho e atenção, conforta o outro com sua tromba, faz barulhos amigáveis. Tem empatia suficiente para ajudar fracos e doentes. Enterra na savana e, às vezes durante dias, vela com respeito seus mortos. Comporta mento gregário, memória extraordinária, recorda os lugares por onde passou. Comunica-se numa frequência que os humanos não podem escutar. Homenageia os que se foram ao tocar suavemente seus ossos com as patas. Passa pelo lugar em que um dos seus tombou, para, silêncio por alguns minutos. Vastas experiências — uma parte ensinamentos transmitidos pela mãe, outra, pelos anciãos, reis da savana, zelosos avós — com as quais construiu seu comportamento. 

Há tempos se perdeu da manada, faz agora sozinho as travessias de outrora. Áreas de risco ainda mais amplas, ele sabe onde coloca as patas, detecta campos minados. Quantos morreram pelo caminho. Há muito as travessias calmas, de filas de elefantes flutuando pelas paisagens, entrando e saindo das planícies alagadas, restaram somente em sua memória. Apesar das pernas grossas como troncos de árvores centenárias indo por regiões remotas da savana, sua delicadeza impressiona. Levanta pesos enormes com a tromba ou agarra a frágil fruta sem danificar. Pode pressentir a chuva com até duzentos quilômetros de distância.

O caçador que domina a arte de atingir o cérebro do animal é vaidoso pela admiração dos camaradas. Especialistas da bala no coração têm igualmente seus fãs. Há caçadores menos hábeis cujas balas se perdem nos pulmões, entranhas, órgãos genitais e em outras regiões onde, sem ser mortal de imediato, o ferimento causa ao elefante tremendo sofrimento. Atualmente, é o tipo de caçador que mais há. E se é preciso matar os elefantes (o que é desnecessário a não ser pela perversidade humana qu e ou vê na prática um esporte ou segue saqueando a natureza arrancando o marfim), esse é indiscutivelmente o processo mais idiota que existe. 

Se a bala experiente atinge o coração, o elefante ainda percorrerá duzentos metros ou mais antes de cair. No cérebro atua mais rapidamente, embora o alvo seja difícil de alcançar por causa da rede de sinus que comporta o crânio e da massa formada por maxilares, dentes e alvéolos de defesa, tudo isso protege a caixa craniana. Aponta-se de frente, entre os olhos, ou de lado, entre o olho e o orifício da orelha, um tiro direto abate o animal imediatamente.

À deriva pelas brumas, gigante a flutuar, singra silencioso o ar como um navio fantasma no oceano da savana. O passo rito antigo, o movimento meditação, o tempo curvado à sua passagem. Nos olhos arde um brilho ancestral, a profunda inteligência, quase cósmica, como guardasse memórias da terra.

O caçador está a trinta metros de distância. Experiente, hábil. Sabe onde atirar, quais pontos são vitais. Como o animal é imenso, as principais regiões a atingir em seu corpo ficam menores. Coração, cérebro?

Reconhece o cheiro do caçador. O caçador, imóvel, silêncio total. Está faz um tempo no caminho do elefante. O elefante, raivoso. A dança das orelhas para, a cabeça baixa, corre na direção do caçador. O elefante já bateu de frente com búfalos e venceu. Venceu hipopótamos, rinocerontes e crocodilos. Colocou leões para correr. 

Há mais de um caçador. Escapa da mira do primeiro caçador e o levanta quase três metros do chão com a presa enfiada na sua barriga. O segundo caçador desfere dois tiros no corpanzil, o elefante cai em cima do primeiro caçador e o esmaga, morre na hora. O elefante com agilidade e força indizíveis, levanta, agarra com a tromba o segundo caçador e o lança no chão, levanta a pata, pisa em suas costas com tanta fúria que afunda o corpo do segundo caçador na terra. O terceiro caçador acerta o elefante de perfil, na cabeça. O elefante paralisa, não cai. Cada músculo do seu corpo se modifica. Sua vida passa diante de seus olhos: a mãe o mantendo pertinho dela, puxando com as patas ou a tromba, ele aprendendo a andar, cobrindo o corpo com lama, brincando na água. Uma vida inteira para o elefante ao longo de vinte minutos para o caçador, até que o corpo do animal afrouxa completamente e ele dobra os joelhos e desaba. A baba escorre da sua boca. Mas demora ainda mais de uma hora para morrer. O caçador pode dar os tiros de misericórdia, mas o deixa agonizar.

Algumas horas depois, outros caçadores, traficantes de marfim, chegam ao local. São reforços. Trazem serra elétrica, cortam e arrancam o rosto do elefante para retirar as presas de marfim. Vão embora carregando no jipe o marfim e os dois outros caçadores mortos. O cadáver do elefante mutilado jaze apodrecendo numa região remota da Savana.

Marfim é um tecido calcificado branco, formado, principalmente, por dentina, substância constituída por quarenta e cinco por cento de material inorgânico (hidroxiapatita, o cálcio sendo parte da estrutura), trinta e três por cento de material orgânico (colágeno) e vinte e dois por cento de água, a composição pode variar dependendo da fonte natural. Apesar do marfim ser representado pelas presas de elefantes, o material nada mais é do que um dos constituintes do dente. Quaisquer presas e dentes de mamíferos são fontes de marfim. Na prátic a comercial, marfim significa presa ou dente grande o suficiente para permitir a lapidação de grandes quantidades e manufatura de esculturas, utensílios, ferramentas, entre outros. As presas e dentes visados vêm, primariamente, de grandes mamíferos: baleias, elefantes, hipopótamos, mamutes, morsas, javalis selvagens. Os elefantes são os mais procurados, o que os coloca em sério risco. Por causa da sua durabilidade, pureza, beleza, relativa raridade exploratória e excelente base para esculturas, o marfim é um produto de alto valor no mercado, tem sido comercializado e usado por milênios na sociedade humana. Por séculos, o marfim de elefantes tem sido considerado produto de luxo, associado com status e riqueza, especialmente entre culturas Asiáticas. Cobiçado na Ásia, o principal mercado consumidor de marfim no mundo é a China, em várias partes, como em Hong Kong, o com ércio era até 2017 liberado e enfrentava pouquíssima fiscalização. Em termos globais, o comércio do marfim hoje é ilegal em vários países por pressão das entidades de conservação ambiental. A ilegalidade não se mostra suficiente para deter a ação de criminosos e o mercado continua movimentando fortunas com esse comércio.

Oh, gigantesco, sete toneladas imponentes, majestoso e pacífico, eu te venero como totem da África e da Ásia. Tradução de poder, dignidade, sabedoria, força e prosperidade, eu te venero, elefante de olhos tão grande s quanto baldes de boca larga. Eu te adoro as enormes presas de marfim, mas não as transformadas em talismãs, amuletos de sorte e esculturas religiosas, artigos vendidos a preço de ouro no mercado subterrâneo. Eu te venero, não o que é morto pelas mãos dos homens em ritmo alucinante. Eu te venero a longevidade e a sabedoria da velhice e ancestralidade. E peço que todos escutem essa triste balada, que chora e se revolta contra tiros de escopeta vindos de helicópteros, contra cianureto na água e veneno nas flechas, contra o rei Juan Carlos posando na foto do safári, contra o adorno numa casa chique, contra o mercado de marfim que exporta para o mundo, contra o financiamento de grupos paramilitares. Foi isso (e outras perversões) que os fez matarem Sat ao, o símbolo de preservação no Quênia, ele tinha enormes presas, quarenta e cinco anos, uma vida inteira pela frente. Sofreu ataques com flechas envenenadas (a nova arma usada pelos caçadores, para não serem denunciados pelos disparos), as presas arrancadas para o artesanato chinês. Por alguns braceletes de dez, trinta mil dólares, seu corpo foi mutilado, seu rosto arrancado. E depois eles colocaram o seu rosto na moeda daquele país. A marca das suas patas nos deixa uma mensagem de extinção. Escutem esse canto triste.

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