Dinheiro é chocolate quente servido na concha da mão. Dinheiro guloso. Dinheiro roedor do aço da felicidade. Dinheiro, pega e agarra o seu coração, chupa os seus beiços, mete os dentes com os seus efeitos de dinheiro. Dinheiro, se você quer carnificina sem anonimato. Se você quer se ver bem no retrato, semblante dourado. Dinheiro, amêndoa colorida. Dinheiro, coisa cheia de carisma de Calígula, biquinho mimado, lábia da popularidade em alta que desfila uniforme e muito bem acompanhado. Dinheiro vertendo charme e elegância. Dinheiro cantando lindo os seus melismas de escorpião-ganância, ferroando pro seu bem. Dando emprego de emprego de emprego de emprego. Isso é lógico, qualquer um sabe fazer a conta, disse o economista. Tentem encontrar a rara e fugidia raposa prateada. Tentem encontrar corretores com mais de quarenta anos. Não vão encontrar muitos. Após alguns anos no negócio eles concluem que tiveram o bastante, devolvem o crachá da empresa e vão criar ovelha numa chácara não muito longe. Existem perguntas necessárias, devemos fazê-las. O dinheiro está no banco? O dinheiro foi transferido pra outro banco? O dinheiro é sempre o mesmo? Em Chicago eu aprendi a colocar cem pessoas numas salinhas, cada uma com um terminal de computador e nenhuma janela. E a gente dava barrinhas de cereal de farinata pra elas se alimentarem. E permitia que negociassem o Futuro. A gente dava a cada uma delas um milhão, grana boa boa, e não se deixava que saíssem dali por uma semana inteira. E era previsto, claro, que noventa por cento dessas pessoas acabariam perdendo todo o dinheiro. Mas também que nove delas conseguiriam empatar. E que, com certeza, uma delas ficaria rica. Quando o mundo era só otimismo e nem tudo que era relevante pro dinheiro se fazia por dinheiro. Cada poeta e cada bêbado era, por exemplo, uma espécie de Sumério de 3.000 a.c quando, vejam, só havia dinheiro de cevada. Quando, imaginem, a escrita ainda nem bem tinha aparecido. Na História das Unidades Monetárias não vamos encontrar conchas, gado, couro, sal, grãos, contas, tecido, notas promissórias, tudo isso era, e ainda é, dinheiro. O que terá acontecido depois? Etnização, sanitarização, educação, taxação, repressão, detenção e muito mais. Isso tudo era, e ainda é, tipo, como direi, fritar hambúrgueres. Quantos de vocês devem ter entrado na fila errada. Garanto a vocês que o dinheiro em risco era, e ainda é, algo que sempre revelava o pior do comportamento humano. Determinar não apenas o que se pensava mas também o que não se podia pensar isso era tipo, vejamos, vender seguros. Por isso o importante era, e ainda é, fazer dinheiro. Ah mas comprar e vender dinheiro, dirão vocês do alto do seu privilégio, comprar e vender dinheiro não produz nada, só produz dinheiro. Pois bem, vocês estão certos, fazer dinheiro assim era, e ainda é, o mesmo que transferir riqueza de uma pilha pra outra. Acontece que esse movimento meio que era, e ainda é, uma das coisas mais divertidas do mundo. Era assim, e ainda é, pra maioria das pessoas que fazia, e ainda faz, dinheiro. Quero dizer, fazer dinheiro era um fim em si, vocês me entendem? Falar sobre aquela, e sobre esta, épocas, deixem-me dizer objetivamente, é tipo pisar em séculos de cadáveres. Dias atrás eu disse a vocês que na ausência do comércio há a guerra, foi ou não foi. Mas eu disse também que o comércio é um tipo diferente de guerra, correto? Um tipo diferente de guerra em que os compradores continuam a exigir preços menores e os vendedores sempre querem mais pelo que estão vendendo. Uma transação, portanto, ocorre quando, por um breve momento no tempo, comprador e vendedor conseguem concordar com um preço. Então imaginamos que nesse instante os lados estariam satisfeitos, pronto. Só que na prática não é assim. Na prática, os lados sempre ficam putos da cara, apesar dos sorrisos. Numa negociação, os dois lados sempre acham que estão sendo sacaneados. Nunca ficam verdadeiramente satisfeitos. Porque a lógica deles é sempre a mesmo: lucro é lucro, prejuízo é prejuízo. Sabe o nome dessa guerra? Consumo de bens. Saco vazio não para em pé. Sacola sozinha não faz suas comprinhas. Bem, indo direto ao ponto: o país tá cheio de dinheiro, a capital tá cheia de capital. As notas escorrem entre os dedos de cada um de vocês nessa sala. O dinheiro está no banco? O dinheiro foi transferido pra outro banco? Outro banco foi transferido pra outro banco? O dinheiro é sempre o mesmo? Não e sim. O dinheiro circula pelo país como o sangue circula por nossos corpos. Obrigado, dinheiro.
Dinheiro
Dinheiro, pega e agarra o seu coração, chupa os seus beiços, mete os dentes com os seus efeitos de dinheiro
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