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Você e a jarra de abacaxi

Tentei achar, em todas as gavetas da minha mente, a imagem do seu rosto, e não consegui. Mas sabe, vó... eu me lembro de muita coisa

Você e a jarra de abacaxi
Ilustração: Benett
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Fiquei pensando em você, uma noite dessas.
Foi uma imensidão de lembranças cheias de vazios que meu cérebro não consegue completar.
Tentei achar, em todas as gavetas da minha mente, a imagem do seu rosto, e não consegui.
Busquei seu sorriso em cada canto, e nada.
Vasculhei a memória insistentemente em busca da sua voz, e nenhum som apareceu.

Mas sabe, vó... eu me lembro de muita coisa.
Lembro do sítio, da ameixeira ao lado da casa colorida.
Do chão vermelho de cera na entrada.
Lembro da madeira das paredes, do cheiro de “paiero”.
Lembro do fogo do fogão a lenha.
Da caneca de metal com água do poço.
Lembro da coleção de bonés do tio pendurados na parede.
Lembro da jarra com formato de abacaxi.
Era a coisa que eu mais gostava entre todas aquelas outras coisas que eu gostava tanto!
Lembro dos desenhos que você fazia.
Lembro do guarda-roupa decorado.
Da janela que dava pro jardim, onde meu pai levou (ou deu?) uma pedrada quando era criança.
E lembro dessa história que eu ouvi uma dezena de vezes e nem assim decorei.
Lembro da antena parabólica contrastando com o galinheiro.
Lembro do cheiro do fumo molhado secando na estufa.
Lembro daquele lago lá em cima, que dava pra ver da cozinha e que eu nunca cheguei perto.
Lembro dos cavalos caminhando por lá.
Lembro dos besouros barulhentos.
Lembro do degrau entre a sala e a cozinha, meu lugar favorito pra sentar e te ver trabalhar.
Lembro do caixote de madeira onde ficava a lenha.
Lembro das panelas no fogão.
Lembro das tardes fazendo bolos de barro com a prima, enfeitados com flor e grama.
Lembro da cama grande da casa ao lado, onde dormia todo mundo junto.
Lembro do barracão comprido e das roseiras.
Lembro da carroça parada, onde a gente se escondia.
Lembro da cachorra branca, que acho que chamava Branca.
Lembro do caminho até o sítio ao lado, e do lobisomem que vivia por ali, na escuridão, e que a gente ficava morrendo de medo, procurando os olhos vermelhos brilhando (meio querendo, meio sem querer achar).
Lembro da oficina e das duas cadeiras de balanço na varanda dos tios, que eram vizinhos.
E deles eu também me lembro.
Lembro da igreja simples no final da rua e das festas.
Lembro dos olhos claros, do cabelo penteado, preso de lado.
Lembro do vestido rosa e do avental azul com babadinhos e bolso (ou era o vestido azul e o avental rosa?).
Lembro da sua pele fina no braço manchado.
E da sua figura em oração no portão toda vez que a gente ia embora.

...

E, pra mim, tudo isso é você.
(Incluindo a jarra com formato de abacaxi.)

Aline Brandalise

Aline Brandalise

Marqueteira e cronista. Escreve sobre o quanto viver pode ser ridículo e é autora de "Às vezes me sinto uma espectadora da vida real", primeiro livro da coleção Biblioteca Plural.

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