Pular para o conteúdo

Revista aleatória

Nunca, nunquinha, eu tinha sido selecionada aleatoriamente pela seleção aleatória do aeroporto. Achei deveras aleatório

Revista aleatória
Ilustração: Benett
Publicado:

Queria fazer um agradecimento especial à moça do aeroporto que me revistou e revistou minha bagagem na seleção aleatória de revista hoje.

Primeiro porque ela foi superdelicada e, depois, porque me entregou a mala tão arrumada quanto recebeu. Achei fineza dela, sabe? Eu odeio mala bagunçada.

Nunca, nunquinha, eu tinha sido selecionada aleatoriamente pela seleção aleatória do aeroporto. Achei deveras aleatório.

Na hora bate aquele desespero de: e se tiver um corpo na minha bagagem?

E se tiver três quilos de crack?

E se tiver um milhão de dólares roubados do Banco Central?

E se tiver um quadro horroroso do Romero Britto?

E se, em vez de um par de meias extra, eu coloquei um par de casacos de pele ilegais feitos de mico-leão-dourado em extinção?

Sei lá, sabe, sei lá...

Medão da porra.

Obviamente não tinha nada disso. Acabou que só tinha roupa mesmo (assim como eu sabia, já que fui eu que arrumei a mala).

Muito que bem.

Não sei se vocês já foram selecionados aleatoriamente pra essa inspeção, mas vou explicar aqui a minha experiência pessoal:

Você passa naquela birosquinha que apita pra metal, e aí apita.

E você fala: não tem metal aqui, não.

Aí a moça fala: você foi selecionada pela seleção aleatória.

Aí você pensa: que sorte do caralho.

Loteria? Nem pensar. Revista no aeroporto? Com certeza!

Nisso a moça te pergunta se você quer fazer a vistoria ali mesmo ou em uma salinha íntima.

Estrategicamente escolhi fazer ali mesmo porque, segundo minha própria paranoia delirante, escolher a salinha faria a moça simpática desconfiar que eu estava realmente portando drogas, armas, joias e sete limusines roubadas de um cachorro caramelo que agora está triste, sozinho e com fome — o que me incriminaria imediatamente.

– Pode ser aqui mesmo.

Aí ela te bota de perna aberta e te revista, incluindo: bumbum e peitholas. Ok.

Aí ela vai olhar suas malas. Abre uma a uma e mexe em tudo.

E eu pensando: se Deus quiser não tem uma espingarda aí!

Nem sete animais silvestres. Nem injeção proibida. Nem feitiçaria. Nem roupa feia (porque não quero dar esse desgosto pra moça simpática).

E foi nessa hora que ela pegou nada mais, nada menos que minha borcetita de calcinhas.

Pra mim, acabou ali.

Na hora rezei pra ter escolhido calcinhas bonitas, o que era totalmente impossível porque nem tenho calcinhas bonitas, muito menos pra ir viajar.

Conforto ganha, sempre. Um salve pras calcinhas de vó.

Nisso comecei a pensar que devia comprar calcinhas bonitas, porque usar calcinhas de vó pode estar interferindo na minha energia. E aí reparei que tava fazendo cara de preocupada, o que podia fazer a moça simpática registradora de aleatórios desconfiar que eu guardava uma bomba nas calcinhas.

O que eu não guardo.

Sorri calmamente simulando um ar inocente (eu era inocente, mas com certeza não parecia inocente).

Enfim... remexe aqui, apalpa ali, busca no forro da mala (será que tem três quilos de drogas ali desde que eu comprei e eu nunca soube e tô pra cima e pra baixo com provas de um crime que nunca fiz parte???) e prontinho. Fim da revista. UFA!

Graças a Deus (e a mim mesma, de certa forma) ela não achou nada.

Que era o que ela tinha pra achar mesmo: nada.

Ela também não fez nenhum comentário e/ou expressão acerca das minhas calcinhas feias.

Mala liberada, avião voando (agorinha, enquanto escrevo esse relato emocionante, há mais de 10 mil pés) e paz entre os homens de bom coração.

Agora as pessoas já podem dizer que sou oficialmente aleatória.

Antes elas já falavam, mas não podia.

Agora pode.

Aline Brandalise

Aline Brandalise

Marqueteira e cronista. Escreve sobre o quanto viver pode ser ridículo e é autora de "Às vezes me sinto uma espectadora da vida real", primeiro livro da coleção Biblioteca Plural.

Todos os artigos

Mais em Cronicas

Ver todos
Patinação no gelo: o fogo de Prometeu

Patinação no gelo: o fogo de Prometeu

/

Mais de Aline Brandalise

Ver todos

De nossos parceiros