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"Se não me falha a memória" é romance que não deve ser esquecido

Romance de estreia da jornalista Fernanda Ávila, curitibana que vive em Portugal, mostra um retrato íntimo e fragmentado de uma mulher à beira do fim

"Se não me falha a memória" é romance que não deve ser esquecido
Fernanda Ávila, autora de "Se não me falha a memória". Foto: Divulgação
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A vida pede pensamentos longos condensados em frases curtas. Algumas vidas. A vida da protagonista de “Se não me falha a memória” (Ed. Urutau/2026), romance de estreia da jornalista Fernanda Ávila, é narrada em frases curtas e certeiras. Um tapa na cara. Um olhar para o outro. Um olhar para si mesma. A narradora, uma mulher sem nome em seus últimos dias de vida, carrega a franqueza daqueles que não têm nada a perder. Ou que se esqueceram de como se ganha.

O livro permeia o tempo em memórias para falar de uma mulher que se esvai em vida. Depois de uma existência marcada por coisas que tem a fazer e são feitas, um casamento sem paixão, uma maternidade protocolar, sexo e quase nada de música, ela fica com o que resta.

A conexão com a realidade é feita por meio de seu trabalho em uma lavanderia e com os clientes que passam por ali e têm suas vidas analisadas por ela. Parece egoísta, mas esquece (também) disso ao promover o encontro daqueles que precisam. A dissidente com a psicóloga, a mal-amada com quem tem potencial para amar, mesmo que não saiba disso, vão sendo colocados no tabuleiro como quem joga xadrez com vivências e palavras.

Os personagens-clientes vão atravessando a narrativa, à medida que a personagem central analisa a própria vida, ou o que se lembra e resta dela. “Esquecer é tipo selecionar as roupas do armário, escolher o que vai para a prateleira de cima e o que fica na gaveta à mão”, fala a senhora que se depara com o definhamento do corpo e das lembranças.

Os sinais da velhice e da falta de memória são fornecidos em gotas pela autora ao decorrer da leitura rápida (são 80 páginas). As roupas misturadas, a senha bloqueada, a falta de reconhecimento ao voltar para casa, as recordações entre o que aconteceu ou o que foi possibilidade. Um aborto, talvez, de um menino que ela vê em cenas que não existiram, mas que são lembradas.

O livro esbarra em temas latentes para qualquer idade, não se aprofunda, mas joga a isca, deixa o leitor imaginar. Do sexo intenso às críticas nada sutis à filha lésbica que não “transa de verdade” porque lhe falta um pinto, opina com a veemência dos velhos. Permite que os solitários, “tão habituados ao silêncio que se satisfazem com frases curtas”, como diz a narradora, perscrutem a própria sozinhês e indiferença.

Para ela, mulher, a velha, a senhora, a jovem que traiu, a menina que tinha uma mãe louca que a abandonou com o pai, que a deixou para a vó criar, “envelhecer não é só ganhar novas dores, é se despedir das sensações”.

Sorte do leitor que essas sensações são lembradas pela autora, despertadas na narrativa, impregnadas na escrita de um texto enxuto e acurado. O primeiro romance que deixa vontade de outro.

Fernanda Ávila é jornalista de Curitiba e mora em Portugal. Desde 2023, trabalha com projetos e eventos de literatura contemporânea feita por mulheres. Agora, ela mesma decidiu investir na própria escrita em um romance circular, que se encerra e pode ser lido novamente para que cada palavra ganhe um novo significado. De novo e de novo, caso a memória falhe.

Serviço: “Se não me falha a memória”, de Fernanda Ávila pode ser adquirido no site da Editora Urutau e no Amora Livros. R$ 52,00.

Katia Michelle

Katia Michelle

Jornalista formada em Comunicação Social e bacharel em Artes Cênicas, com pós-graduação em Poéticas Contemporâneas. Atua como repórter, editora e colunista nas áreas de comportamento, cultura e gastronomia. Assina a coluna Panela Plural.

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