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O melhor hambúrguer do mundo (ainda) não é famoso e é feito na cozinha da casa da mãe

Os irmãos Raphael e Philip Hanisch transformaram a casa da mãe em uma hamburgueria que desafia slogans famosos. O critério não vem de rankings oficiais, mas da prova de um blend criado por Raphael e que está conquistando clientes no boca a boca do Bigorrilho

O melhor hambúrguer do mundo (ainda) não é famoso e é feito na cozinha da casa da mãe

Sua mãe deixaria você abrir uma hamburgueria na casa dela? A professora de alemão Ana Elisa Hanisch não só deixou os filhos Raphael e Philip começarem uma empreitada em plena pandemia, como incentivou os empresários de primeira viagem a abrirem o próprio negócio. Hoje, ela divide a residência com a hamburgueria Quintal Barigui, não repara na bagunça e ainda cuida do jardim e da sobremesa da casa que vem mudando a rotina de uma das avenidas mais conhecidas de Curitiba: a Cândido Hartmann, no Bigorrilho.

A casa fica pertinho do supermercado Festval, mas é preciso atenção ao passar por ali, pois o aspecto ainda é de residência familiar. É que, quando os “meninos” resolveram mudar o destino do imóvel comprado pelo avô, Otto, na década de 1970, nem pensaram em mudar as características do local. E é justamente aí que começa a boa história.

Raphael, 41, é formado em Tecnologia da Informação, trabalha (e continua trabalhando) em grandes empresas do ramo. Foi no trabalho que conheceu um norte-americano que o convidou para um churrasco. Chegando lá, nada de picanha, fraldinha, costela borboleta ou afins. O prato principal era hambúrguer à moda dos EUA. Ele estranhou, mas acabou gostando e se interessando pelo prato.

O Brasa Clássico foi o primeiro blend criado por Raphael e segue como o mais pedido da casa. Foto Rodrigo Leal.

Passou a testar, em casa, blends para fazer hambúrguer para a família e foi se aperfeiçoando, tanto que ouviu do pai, com quem aprendeu a fazer churrasco desde os 12 anos, “que estava tão bom que dava para vender”. Raphael chamou o irmão e a esposa, Letícia, coordenadora pedagógica que havia acabado de ser desligada de uma escola por conta do lockdown, e falou sua intenção. Os dois toparam na hora, e foi com o dinheiro da rescisão de Letícia que eles compraram os primeiros equipamentos para fazer o hambúrguer na brasa, como manda o figurino estadunidense.

Fizeram muitos testes antes de chegar à receita que é a queridinha do público até hoje: 50% brisket, 25% fraldinha e 25% acém do meio. “Se mudar qualquer porcentagem, já vira outra coisa. O clássico é este”, conta Raphael, responsável pela receita testada por seis meses antes de ser comercializada.

Da cozinha escura para um jardim iluminado

Primeiro, eles começaram a operação no modelo “dark kitchen”, em que apenas o delivery é permitido, e com o nome de Na Brasa Handmade. Com as vendas indo bem, principalmente na força do boca a boca e dos moradores do bairro, eles decidiram alugar um trailer e colocar no quintal da casa da mãe. Para isso, veio a primeira mudança: quebrar a garagem.

O pai, Ailton, hoje já falecido, falou à época que tinha receio de que a casa virasse bar, desse briga, confusão. Tudo o que a família evitava desde que o avô comprou a casa e plantou até coqueiros no local para preservar do movimento da rua.

“Mas isso nunca aconteceu. Temos um ambiente familiar e nosso principal foco é a comida. Por acaso, também tem cerveja, chope e drinks, mas ninguém vem aqui só para beber”, avisa Raphael.

Há dois anos, o então Na Brasa Burguer Handmade ganhou um novo capítulo. Ao lado da casa tem um terreno onde antes funcionava a principal mercearia do bairro. Com o tempo e, principalmente, com a inauguração do supermercado, a mercearia fechou e o terreno foi vendido.

Sem saber, eles foram sondados pelo proprietário, que “investigou” se o negócio era mesmo promissor e ofereceu o terreno para alugar. Raphael, a esposa e o irmão, que até então trabalhavam sozinhos, ficaram com receio de colocar o hambúrguer na frente dos bois e decidiram chamar dois amigos responsáveis por uma distribuidora de bebidas e com bastante experiência no ramo.

Foi assim que o casal Leonardo Belga e Patrícia Costa entrou para o time de sócios. Leonardo, inclusive, é neto de Sinésio Pereira Sampaio, do tradicional Bar Recanto (mais conhecido como Bar do Sinésio), que está há mais de 40 anos na região, também pertinho do Parque Barigui.

A galera foi chegando

Com o time completo, aos poucos o quintal da casa da Dona Ana foi ampliando o espaço. Ganhou estrutura com contêineres, mesas de madeira, telhado, tenda, luzinhas de decoração e outros detalhes. Hoje são 40 lugares e mais um espaço de eventos ao lado, com capacidade para mais 80 pessoas em um jardim com cara de casa de vó e que pode ser alugado para reuniões familiares e até eventos corporativos. Raphael avisa que o espaço só pode ser utilizado sob reserva. "Nós fazemos o churrasco", explica.

A casa foi comprada pelo avô de Raphael e Philip na década de 1970. Foi ele quem plantou os coqueiros para se preservar do barulho da então movimentada Avenida Cândido Hartmann.

A casa foi comprada pelo avô de Raphael e Philip na década de 1970. Foi ele quem plantou os coqueiros para se preservar do barulho da então movimentada Avenida Cândido Hartmann.

A reforma mais recente é a construção de dois banheiros para substituir o único do estabelecimento, que também era usado pela família e mantinha o característico piso vermelho em ardósia das casas construídas na década de 1970.

Um diferencial é que os sócios priorizam fornecedores do bairro e até o chopp da Bird Beer, mesmo sendo de Ponta Grossa é negociado com um representante comercial que cresceu na mesma região. Já o chopp IPA e Sour é do mestre cervejeiro Dom Cervantes, do vizinho bairro Mercês.

E pra comer, o que tem?

O cardápio tem 12 diferentes tipos de hambúrgueres, todos feitos na brasa. O mais vendido é o Brasa Clássico, uma versão do tradicional X-Salada com hambúrguer de 160 gramas, alface americana, tomate e cebola roxa (R$ 38,00). As verduras são compradas frescas diariamente; já a carne para o hambúrguer vem do Açougue Domakoski, que existe há 70 anos em Curitiba.

Os preços variam entre R$ 32 e R$ 52,00 (preço do Mamute, que vem com dois hambúrgueres de 160 g cada). Para os vegetarianos, a opção é substituir o hambúrguer pelo sanduíche com queijo coalho ou pela versão industrializada com o hambúrguer da marca de carne Incrível.

Para quem tem apetite grande, a opção é o Mamute, com dois hambúrgueres de 160 g por R$ 52,00. Foto: Rodrigo Leal.

Para quem come carne, recomendo o clássico. E, antes que você se pergunte também qual é o critério utilizado para determinar que a receita de Raphael é “o melhor hambúrguer do mundo”: nenhum oficial. É uma estatística baseada em gosto pessoal, assim como no caso do mais famoso que usa esse slogan. Vá lá provar e me avise se gostou.

Serviço
Quintal Barigui
Rua Pedro Nolasko Pizzato, 705 — Bigorrilho
Tel.: (41) 99985-1629
Terça a domingo, das 17h30 às 22h

Katia Michelle

Katia Michelle

Jornalista formada em Comunicação Social e bacharel em Artes Cênicas, com pós-graduação em Poéticas Contemporâneas. Atua como repórter, editora e colunista nas áreas de comportamento, cultura e gastronomia. Assina a coluna Panela Plural.

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