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Sermão dos homens bons

"Há um silêncio entre nós e Deus, o silêncio de um pai que observa o filho andar pela primeira  vez e o deixa cair porque sabe que cair é aprender a caminhar", diz o pastor

Sermão dos homens bons
Ilustração: Benett
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(O pregador sobe ao púlpito. Silêncio. Respiração funda. Voz grave e pausada)

Irmãos e irmãs… somos pessoas tão boas que deviam 
agarrar o nosso coração e espremer toda a água que 
existe nele e beber dessa água.

(Pausa longa. Voz mais baixa)

Quem de nós bebemos dessa água, nosso sangue é feito dela,
ainda assim, oh, ainda assim, fomos por tanto tempo exilados
dessa história em que nossos sangues são o mesmo sangue,
mas os corações, sim, os corações são singulares, e nós somos 
o acúmulo de todos eles, o acúmulo de nossos pais e mães, 
dos que vieram antes de nós, por essa razão nunca estamos
sozinhos, porém, nossos corações são tão sozinhos.

(Respira fundo)

Na história da humanidade, aguentamos relâmpagos estourando 
as retinas, pregos enferrujados ferroando os tendões, aguentamos 
arpões cravados nas costas durante ataques sanguinário, a escuridão 
em febre de abismos com mandíbulas de gárgulas sob os artelhos, 
aguentamos, sobre flores apavoradas, guerras de bárbaros, 
emboscadas a abater nossos navios, aguentamos o diarreico céu 
chover ácida chuva, joelhos de dor torcidos qual troncos no pomar 
e lascas, cacos, bagulhos mordidos sem pesar, tudo isso e muito
mais nós aguentamos. 

Viu que valetaram o Dantas?
O polícia que vivia aqui no templo?

Aguentemos, irmãos. 

(Respira)

Está em Eclesiastes 3:11: “tudo fez formoso em seu tempo; 
também pôs a eternidade no coração do homem.” 

(Caminha devagar. Olha para o alto)

Há um silêncio entre nós e Deus, um silêncio que não é vazio,
o silêncio de um pai que observa o filho andar pela primeira 
vez e o deixa cair porque sabe que cair é aprender a caminhar. 
Assim somos nós, os que buscamos ser bons, os que tropeçamos 
e não nos detemos, os que sangramos e ainda estendemos a mão. 
Os seres humanos bons não se mede pelo que dizemos, mas pelo
que suportamos, pelo que perdoamos no escuro, pelo que 
plantamos mesmo sem saber se verá ou não a colheita.

Jó 1:21: “o Senhor o deu, o Senhor o tomou; 
bendito seja o nome do Senhor.”

(A voz fica mais forte, solene)

Os nossos mortos também são os mortos dos outros,
e os mortos dos outros também são os nossos mortos
pertencem ao céu e à lembrança, igualmente aos sentimentos
e à terra os que estão enterrados no cemitério, os que 
retornaram ao coração da terra e permanecem nos nossos. 

(Fecha os olhos) 

A família tá desacorçoada, deixou muié e fía. 

(Respira)

Quem ousaria dizer, irmãos e irmãs, onde termina a terra
e começa o céu? Quem ousaria dizer onde o corpo repousa,
se a memória o ressuscita toda vez que o nomeamos?

Isaías 57:1: “o justo perece, e ninguém considera;
os homens piedosos são arrebatados, mas ninguém 
entende que o justo é tirado do mal futuro.”
 

Os homens bons, mesmo mortos, ainda falam, 
falam no vento, falam no pão, falam no sangue
que ainda se lembra, os homens bons são semente
sepultas que na terra não se calam. 

O povo chateou na comunidade.

Mesmo que o mundo os esqueça, o universo os repetirá, 
feito um salmo inédito que Deus em segredo murmura.

(A voz ganha força profética, quase em grito contido)

Riquezas sujas do inesgotável são para poucos, olhos 
que se rasgam com a lâmina das lágrimas são para muitos,
o pus que as mãos espremem e as baratas que os pés
esmagam são para muitos. Nos açougues já não se enxerga 
o predador. A cada guerra criada o inferno caminha nas 
mentes humanas, no meio disso tudo, a intuição, a boa-fé,
e alguns, ah alguns de nós somos tão humildes quanto o 
vendedor de incenso, a moça do brigadeiro caseiro ou 
aqueles que derrubamos o vermelho do próprio corpo 
e ainda sorrimos com o rosto cheio de cansaço, e gememos 
intensidades mais do que os gemidos dos hospitais, e fechamos 
os olhos e ajoelhamos e suamos nossas verdades com mais fervor 
que quaisquer outros pregadores, e milagramos milagres como 
fôssemos os reflexos partidos de um mesmo cristal quebrado 
em mil direções. Estamos cansados, mas ainda regressamos à 
esperança até o ponto em que a terra é quente e não queima
e bebemos dela com canecas com febre dentro. 

(Baixa o tom, voz comovida)

João 7:38: “quem crer em mi m, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva.”

Ah, pare, esse Dantas era um desgrama, home ruim do capeta, ele e o chefe dele, lazarenteou a comunidade .

Nem fale.

E o povo feito escravo desses demo.

Pois é, rapaz, e aí eles vêm falar de tamanha virtude, dum lugar bem feliz no meio do confronto direto, do que sobrou dos lugar mais violento, dos ser da criação caçando os ser da criação, enquanto os anjo da guarda que vem te cuidá têm a espessura de bolha de sabão, ca arma na mão cê explode, trai o próprio irmão, nariz até fareja o ar pra tomar civilização, mas dos assombro só sabem mastigá as carne e os couro e negociar a paz versus os ouro, o mundo todo e o que dali despencar, tá entendendo, forma um monte de escombro de sonho que de manhã cê não consegue lembrar, hoje cê tá vivo entre as cinza, tuas crença são tristeza solar, pane nas perna, sangue nas mão, sem sorriso, cê mostra os dente do coração, sai já provar o óbvio, vai lá perder o ótimo, os jovem é alegre, os velho tem sono, os dono de nada é dono e o dano é o preço mais alto, a pureza é atroz, o algoz se abastece de uma benesse feroz, quem nunca esquece, aquele que cê menos espera vai se revoltar e vem te matar. 

Eh eh eh, deu uma surtada, meu, que que cê falou aí?

Irmãos, quantas vezes confundimos a luz com o ouro,
a bênção com o brilho que cega, quantas vezes esquecemos
que o verdadeiro templo não é de pedra, mas de carne, e que
a carne obedece ao espírito e não o contrário, porque o altar 
em que o homem bom repousa é a clareia e é o saco de pancadas.
Fazemos tantas perguntas, nossas bocas secam, a pergunta é um 
vício e não abranda, como sucede aos drogados, chamamo-nos doentes.
Fugir é verbo bem do nosso vocabulário, de ações nos vemos possessos,
somos uns fúteis quaisquer, preferimos termos frio ou sermos frios,
já não vamos mais à praia, não bombamos nas redes, o calor sai 
de nós e nos entra pelos poros ao mesmo tempo. Fazemos as perguntas.
Não pensar é a pior morte, vulto a se esgueirar por entre os túmulos.
Fazemos as perguntas para entrar com nossa opinião, Fazemos as perguntas.
O enredo é secundário, mas o close está na miséria humana. 

Parece que o Dantas até empurrou o Cabocrinho e correu, só que desarmado, adiantou de nada ser aquele baita baguazão, o Cabocrinho alcançou ele, já co a pistolinha pra cabeça. Diz que queima de arquivo, coisa ca Anauê Segurança Privada.

Não duvido.

Mas, pô, o da Anauê era padrinho dele, diz que o Dantas começou pirralho ainda na Anauê. 

Vai sabê.

Para que tudo não sejam escombros de levitação, para que
todos nós não sejamos cheios de desculpas esfarrapadas,
para que não tenhamos que afirmar que ninguém sabe viver,
confessemos: é verdade que nunca terminam de nos destruir.
É verdade que estamos dando, nas ruínas, o nosso melhor show.
Sobreviver? Sobrevivemos. E muitos de nós, o máximo que 
aprendemos, é lavar as próprias roupas, ter um animal de estimação
para cuidar dentro de casa. Quantos de nós dizemos: aí está uma coisa 
que gostamos em nós — a capacidade de sermos cruéis. E quantos de 
nós reconhecemos ao revelar que aí está uma coisa que não gostamos 
em nós — o fato de que, quando somos cruéis com os outros, 
somos cruéis com nós mesmos. Tudo é uma forma de defesa,
a carcaça tem aparência forte, mas os órgãos internos podem ser 
esmagados como frutas. Deve ser por isso que o coração aparece
em tantas canções de amor fracassado, irmãos. Está bem óbvio 
que alguns de nós nos orgulhamos de termos aprendido bem o
pior método — nunca terminarem e nunca terminarmos de nos destruirmos.

(Pausa)

Estes de quem falo, de quem o mundo precisa desesperadamente,
somos aqueles que transformamos o sofrimento em semente, a perda 
em ponte, o deserto em manancial. Não somos santos porque não 
erramos, os santos são o que são porque não desistem de recomeçar. 

Melville, Moby Dick, Cap. IX: “e se o teu coraç ão ainda não quebrou,
lança-o ao mar, e Deus te dará outro, pois um coração endurecido
não pode compreender o perdão.”

Não tem sabugo que tape as merda que esses sujeito faz, eles fala que nessa guerra tá cheio de dedo de Deus, tá mais misturado cos dedo dos poderoso de terno, isso sim.

Por acaso, virou marquecista você?

Que marqueci o quê?

Defendendo ideologia…

Da onde? 

E que que tá achando da candidatura do filho do Odair?

Se elege, certeza.

  Caqueles zóinho de cobra? 

Cobra por cobra…

Até onte tava aí metido com moto e pó.

É, mas a jaguarada lá da parte de cima, tudo vai nele.

Diz até que esse próprio filho do Odair que resorveu o quiproquo do Cabocrinho depois do caso Dantas.

“Resorveu” cê qué dizê presunteou o Cabocrinho.

Vai ser duro guentá esses chupa meia na comunidade, cum nóis só tomando no rosquete pra variá. 

Cê virou marquecista, fala a verdade.

Deusolivre.

(A voz, trovão manso, se eleva)

O segredo dos homens bons, não temermos o mar do silêncio,
nem o oceano do esquecimento, sabermos que cada gota d’água
é memória de todas as chuvas, mesmo quando o mundo nos 
pisa, florescermos como se a dor fosse solo fértil, e quando 
a humanidade se curva em desespero, levantamo-nos
e dizermos: ainda há a nossa esperança, ainda há 
o nosso amor, o nosso destino, a nossa coragem,
a nossa responsabilidade, a nossa força, a nossa 
união, a nossa verdade, o nosso compromisso,
a nossa paixão, a nossa jornada, o nosso sonho, 
a nossa vontade, a nossa escolha, a nossa 
missão, o nosso caminho, a nossa essência, 
o nosso valor, a nossa luta, a nossa voz, 
o nosso legado, a nossa verdade, a nossa 
esperança, o nosso despertar, o nosso 
futuro, a nossa determinação, a nossa 
paz, a nossa sabedoria, a nossa justiça, 
a nossa criatividade, o nosso aprendizado, 
a nossa empatia, a nossa humildade, 
o nosso compromisso, a nossa 
inspiração, o nosso equilíbrio, 
a nossa gratidão, o nosso propósito, 
a nossa resistência, a nossa liberdade,
o nosso brilho, a nossa transformação, 
o nosso acolhimento, a nossa 
confiança, o nosso olhar, 
a nossa jornada, o nosso 
despertar, a nossa
coragem, o nosso 
sentimento, a nossa 
luz,  ainda há o 
nosso tempo.

(Pausa. Silêncio total)

E se há tempo, irmãos e irmãs, há eternidade,
porque nós o eco da criação: terra e sopro, 
cinza e luz, carne e verbo.

(A voz se apaga suavemente)

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