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Querido poeta

Há quem venha com “não escrevo porque não tenho o que dizer, quando tiver, escreverei”. Amigo, se você não escrever, não vai saber se tem algo a dizer ou não

Querido poeta
Foto: Chandler Cruttenden / Unsplash
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Antes de mais nada gostaria de dizer que não decidi exatamente, quando vi, estava assim: caneta em punho, debruçado sobre o caderno, amava uma garota e trazia o inverno dentro dos tímpanos. Neguei por um tempo, a escrita não é um mar de rosas. E minha autoexigência chegava a doer. Ainda assim era um regozijo terminar um conto ou um poema (se é que essas coisas são terminadas). Apesar disso, considero clichê dizer que se escreve por que não se tem opção. Claro que há. E se essa afirmação parece contradizer a primeira frase desta cartinha, refletindo bem, você verá que não.

Veja, pode que não é possível haver aura (mas o que isso, aura, significa?) naquilo que não contém algo anteriormente pulsante, endógeno, enraizado. A que tudo indica o que é postiço não se ilumina, tem invólucro pretensamente interessante ou bonito, mas se olhamos atentamente, está óbvio que estamos sendo enganados ou, pior, nos deixando (ou até desejando) enganar.

A arte não é lugar seguro, nem no nível artístico nem no social, embora haja exceções (mais facilmente reconhecíveis nos exemplos de sucesso — o que não é nenhuma garantia). Bom, mantenha-se atento, especialmente quando você se sentir o pior do mundo (que isso não se dê com frequência será uma sorte e um bom sinal). Digo a você e a mim mesmo: apegue-se à ação, escreva, pratique, desenvolva suas ideias e o seu (hum, vá lá) estilo. Procure pensar, agir e fazer pensar.

Há quem venha com “não escrevo porque não tenho o que dizer, quando tiver, escreverei”. Amigo, se você não escrever, não vai saber se tem algo a dizer ou não. Permanecer no universo da idealização é estar pré-morto. É preciso, creio, responder ao medo com ênfase. Drummond (se bem me recordo) ensina: “tristes são as coisas feitas sem ênfase.” É possível criar para alguém, para o mundo, por amor, por vingança, por política, por ternura, por revolta, por desespero, por orgulho e por infindáveis outros motivos.

Você destacou o fato de sua poesia ser para poucos. Que bom, pois há certos trabalhos que acabam sendo para ninguém. Daí que ninguém tem beijos se não tiver a quem os dar, ninguém tem abraço se não tiver quem abraçar. Não ter com quem compartilhar o que se tem e o que se faz, é solidão. Necessito do movimento da cidade, procuro me manter em estado criativo, interessado no que me cerca, no que observo e troco com as pessoas.

Por outro lado, as ruas podem fazer com que você perca o foco. O desequilíbrio, as oscilações de humor, os acontecimentos inesperados só serão produtivos se você tiver um cantinho calmo e silencioso para retornar. De fato, a escrita como ofício exige que passemos longos tempos sozinhos. Em algum momento, é necessário se recolher para burilar as anotações e alçá-las a um nível mais complexo, profundo ou, digamos, integral da experiência artística.

No mais, acho que sim, você pode fazer o texto palpável, sonoro em vez de mudo, cheio de trepidações, com esse furo chamado afeto atravessando o tempo. Você tem todo direito de, caso queira, regurgitar ídolos precários. Também pode brincar de monta e remonta com as ruínas do contemporâneo, claro. Ou chorar com jactância para fora da boca. Ou mesmo atirar o ácido da sua bílis contra o lirismo amoroso (inclusive o meu). Ou publicar vídeos com purpurina até refundar o darlingnismo . Ou empreender um freak show com a aprovação de qualquer Rimbaud a reboque. Ou mesmo continuar olimpicamente subindo para se bronzear nas torres paradigmáticas constantemente se desmanchando.

Abraços, com estima. Lepre.

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