A Câmara de Curitiba anunciou que votará na próxima terça-feira (18) a possível cassação de mandato da vereadora Professora Angela (PSOL). A comissão processante encarregada do caso, formada por três membros, recomendou a perda do mandato, afirmando que a parlamentar teria feito apologia às drogas num evento realizado dentro da Câmara.
Para que Angela perca o mandato, serão necessários 26 dos 38 votos - o equivalente a dois terços das cadeiras do plenário. Embora o número seja alto, a maioria da Câmara é formada por vereadores de direita e extrema-direita, com um discurso radical contra as drogas. A esquerda conta apenas com três votos do PT, um do PSB e possivelmente dois do PDT, além da própria Angela.
O Plural apurou que alguns vereadores de direita considerados mais "equilibrados" estariam tentando transformar a pena em suspensão temporária do mandato. O regimento da Câmara permite diversas gradações de pena, que começam com advertência e terminam com a perda definitiva do mandato.
Angela realizou uma audiência pública na Câmara sobre redução de danos para usuários de drogas. A cartilha que ela distribuiu, porém, ensinando a evitar problemas de saúde mais graves em caso de consumo de entorpecentes, foi vista por vários vereadores como um incentivo ao uso de drogas ilícitas. Além disso, Angela foi acusada de mentir no documento, aprovado em plenário, para a realização da audiência - o tema apresentado não teria sido desenvolvido no evento.
Apesar das acusações formais, sabe-se que o pedido de cassação tem mais a ver com o clima bélico atual da Câmara, dividida em dois blocos radicalmente opostos. De um lado, a bancada de oposição ao prefeito Eduardo Pimentel (PSD); de outro, vereadores de extrema-direita, eleitos com base em sua presença em redes sociais e que não perdem a chance de radicalizar o debate.
Angela já entrou em conflito com o próprio relator de seu caso, o vereador do PL Olímpio Mundo Polarizado - que foi denunciado à Corregedoria por classificar a organização feminista de que Angela faz parte de "terrorista" e seu partido, o PSOL, de partido de traficantes. O caso está parado na Corregedoria e Olímpio se recusou a dar-se por impedido de relatar o processo da vereadora.
A vereadora, professora de ofício, ganhou notoriedade em 2015, durante o ataque da Polícia Militar a manifestantes no 29 de Abril. Em frente à Assembleia Legislativa, Angela se ajoelhou diante do Batalhão de Choque, que atacava os professores com balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. Uma foto dela ajoelhada, e outra correndo logo em seguida dos policiais, ambas feitas pelo fotorrepórter Daniel Castellano, se tornaram símbolo da resistência dos professores contra a brutalidade policial.
Primeira parlamentar eleita pelo PSOL em Curitiba, Angela tem negado que seu mandato faça apologia às drogas e diz que apenas manifestou sua posição de contrariedade com a política repressiva violenta aos usuários.
Caso o mandato de Angela seja cassado em plenário, seu advogado, Guilherme Gonçalves, já anunciou que judicializará o processo. Gonçalves foi o mesmo que conseguiu reverter na Justiça a cassação do então vereador Renato Freitas (PT), em 2022.