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O desafio do fogo

No Mercador, um cara fantasiado de viking tem que forjar um facão de churrasco em quatro horas enquanto o outro vai assando uma costela de chão

O desafio do fogo
Foto: Emerson Vieira / Unsplash
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— Amanhã não posso. Tenho compromisso n´O Mercador.

— Na churrascaria O Mercador?

— Exato. É bom lá, né?

— Nunca fui, só passei na frente.

— Boa localização, fácil acesso, estacionamento próprio. Comida brasileira com sabor caseiro. Os próprios donos que atendem. Lá eu sou amigo, não sou cliente. Preços convenientes, nunca fecha. Massa demais. Tem que pegar a manha do Kit Família.

— Mas você nem tem família.

— E peço mesmo assim. Vem costela fogo de chão, porquinho à paraguaia, panceta em rolo, coxa e sobre coxa, mandioquinha cozida com bacon, queijinho provolone e cheiro verde, maionese, pão no bambu.

— Decorou o cardápio.

— O Mercador é minha segunda casa. Sou viciado.

— Qualquer hora vou dar um confere.

— Marcar num sabadão, dia da Feijuca do Merca, boa demais, toucinho, orelha, pé, a coisa toda. Tenho que admitir que o feijão preto deles é melhor que o da minha falecida mãe.

— Olha aí.

— Só não curto muito a linguiça deles.

— Sério?

— Podiam trocar por uma de sabor mais acentuado, não sei, de pernil, talvez.

— Mas chega a comprometer?

— Nada, a maioria da turma gosta.

— Ufa.

— Combinar de tomar uma gelada lá qualquer hora.

— Vamos sim.

— E no final de tudo, o cafezinho… agrada?

— Oh.

— E o Desafio, já ouviu falar?

— Que desafio?

— O Desafio do Fogo?

— Vão fuzilar quem?

— Que fuzilar o quê. É tipo jogos olímpicos. Um cara fantasiado de viking tem que forjar um facão de churrasco em quatro horas enquanto o outro vai assando uma costela de chão. Nesse ínterim, rola uma banda de uns barbudos tocando ska. Nos intervalos vem uma guria tipo apresentadora de televisão, linda e maravilhosa é pouco pra ela, fica entrevistando o público. E eles filmam tudo, passam numa live. O cara da faca vai batendo o aço na bigorna, fazendo a lâmina, depois leva pra forja… É evento grande. Ano passado foi genial.

— Você vai todos os anos?

— Quando a apresentadora anuncia que a faca e a costela ficaram prontas exatamente na mesma hora, é um clímax. Os caras sincronizam tudo. Aí o cara da faca pega a faca e faz o quê?

— O quê?

— Adivinha.

— Não tenho ideia.

— Ele ergue a faca assim "pelos poderes de Grayskull, eu tenho a força" e decepa a costela.

— Uou.

— E no final de tudo, ainda por cima, o cara da faca vende a faca por três, quatro mil reais.

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