Dia desses deparei com o anúncio de um produto chamado Not Creme.
Ora, isso dá o que pensar. Tem que dar.
Não é possível ou sequer imaginável o sujeito dar de cara com tal provocadora paisagem e simplesmente passar batido, sem esboçar uma reação, mínima e tímida que seja, sem ao menos mencionar a símia e, vá lá, humana, coçadinha na cabeça. É inevitável. Tem de ser.
Porque um ser humano, teimosamente acredito, ainda pode ser definido como qualquer coisa que, até mesmo por uma questão de sobrevivência, necessita saber como funciona o mundo que o circunda, precisa atinar com sua lógica explícita ou subjacente, com seus desníveis traiçoeiramente tridimensionais. Se o que temos logo ali à frente é um precipício, o melhor é não botarem em sua beirinha uma placa escrito não planície. Como muito bem sabiam nossas nonas e bisas, que nos proibiam de dizer “raio” e “câncer”, a palavra é invocatória, magnética, puxa as coisas. E que eu saiba nenhum de nós tentou bancar o inovador dizendo não raio e não câncer, ou não trovão e não hemorroida, e nenhum de nós chega numa roda de conversa gritando: Hey, pessoal, nosso amigo Roberto aqui não frequenta clubes de swing com a esposa.
Se o negócio não é um creme, então é o quê? Alguma coisa que parece creme, mas não é, tipo massa corrida ou pasta de cocaína? E se não é creme, por que não trovões, digo, por que raios leva no nome tal palavra? Se estou à procura de um chapéu, então devo começar a procurar por alguma coisa chamada Não Boné? Vegetarianos devem procurar lojas chamadas Não Açougue? E se eu quisesse um cachimbo? ...
A palavra “não”, motor da civilização e de nosso mal-estar nela, é certamente poderosa, mas desafio o leitor a não pensar num elefante amarelo saltando de um edifício.
Faz lembrar o Barack Obama, Nobel da Paz que bombardeou a Síria, o Iraque, o Afeganistão, a Líbia, o Iêmen, a Somália, o Paquistão...
Já pensou se a moda, feito creme no pão, se espalha e passamos a descrever as coisas nos termos daquilo que elas não são? Certamente faltaria espaço no mundo para mencionar tanta ausência. O próprio Not Creme seria também um Not Pasta de Amendoim e um Not Geleia; nós, bípedes implumes, seríamos not frangos e not codornas; a Academia Sueca entregaria as 10 milhões de coroas ao Prêmio Nobel da Not Guerra; e eu estaria escrevendo não uma crônica, mas uma not carta, um not testamento ou um not poema, bilíngue assim, pra ficar mais elegante e mais com cara de quem está indeciso, sem ainda saber quem é.
Aliás, maracutaias vocabulares seguidoras desse princípio (o da ausência de espírito criativo, porque no fim é isso mesmo), não são bem uma novidade. Já li por aí pretensões do tipo bacalhau vegano, carne de jaca, carne de berinjela e a medonha carne de soja. Holy Cow! É como se um ex-vegetariano, picareta, inventasse acrobacias do tipo salada de bisteca ou escabeche de alcatra. Jaca não é carne, nunca será. E gente que despreza carne, lá vai pitaco, não deveria considerar glamourosa (menos ainda persuasiva) a palavra "carne", mesmo que de acompanhamento ela trouxesse um "Not" bem grandão ao seu ladinho.
Mas nem tudo são pontos negativos. Como o elemento químico rádio, tudo pode ser usado para o bem e para o mal. Em dia de jogo da seleção na Copa, usar a amarelinha com um Not Patriota nas costas é medida justa e inteligente. Que ninguém confunda um amareluzente torcedor com zumbis que cantam hino para pneu. E já que lá em cima falamos das queridas bisas e nonas, o que por força da linearidade genealógica nos leva até as mães, estas bem que poderiam aderir ao novo comportamento moderno e passar a escrever Not Sorvete quando se servirem dos potes para neles botar feijão.