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Não é poesia

Até os vinte e poucos anos, tudo bem, eles dizem. Tudo bem com sessenta, setenta, tudo bem. Mas não agora quando o país o país o país... você sabe. Não agora. É inaceitável, é inconcebível

Não é poesia
Ilustração: Benett
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Refletir sobre a vida e o mundo, vão dizer. Expressar emoções e sentimentos. Criar imagens e atmosferas. Questionar, desafiar a realidade. Conectar com os outros e consigo mesmo na base do soneto, do haicai, da coisa toda. Arte cada vez mais pessoal, subjetiva? 

Hum, primeiro, já ficou claro que não passa de um vício. Ademais, incapaz de trazer a pessoa amada de volta em três horas, três dias, três meses ou (vá lá) três anos. Depois, os poetas da geração, digo, os que “valem a pena” (oh, céus), já se posicionaram firme e claramente: 

há assuntos mais urgentes e relevantes a tratar. Até os vinte e poucos anos, tudo bem, eles dizem. Tudo bem com sessenta, setenta, tudo bem. Mas não agora quando o país o país o país... você sabe. Não agora. É inaceitável, é inconcebível. 

Ah porque aí não é poesia, é versinho de Instagram. É jogada de marketing. Café requentado. Golpe de editora indie. Coisa hermética querendo passar por erudita. 

Só que aí não é poesia, é intelectualoide de boteco. É populismo, populacho. Panfleto, esculacho. É troço para “lacrar”. É sem consciência. Sem “lugar de fala”.

Sim, porque aí não é poesia, é prosa empilhada. É auto-ajuda. É cara-crachá academia de letras. É delírio. É diário adolescente. É a panelinha. É punhetagem. É dublagem de Bukowski. De Leminski. De Nijinski. É extraviar o Stravinski. É afogar as mágoas com uísque. 

Só que aí não é poesia, é pilantragem. É falou mal de mim naquele artigo. É fétido vômito. É falta de respeito total. É desaforo. Ofensa sem tamanho. Está na cara que não estudou. Basta! Não tem vasta cultura. Besta! Não tem base. Asno! Só escreve asneira. Faz papel de bobo e nem se envergonha. Ponha que não tem limite. E dá-lhe inveja, ressentimento. Cadê o argumento? É muito sem caráter.

Porque aí não é poesia. Bicho, o bicho não tem a fera. É só militância com enjambement. É carência fantasiada de crítica social de internet. É o fim dos tempos, isso sim. É crise crise crise. É a prova cabal da decadência. É impiedosa autoexposição e sem contexto. É desabafo, textão endereçado. Influencer bancando o profundo. Pseudônimo com arroba. É a versão beta do poeta.

Move montanhas? Não? Cabô, gente, porque aí não é poesia. 

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