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Na escadinha da ótica

Vangogue está como cuidador de carro na Voluntários da Pátria, bem na frente do Asa

Na escadinha da ótica
Ilustração: Benett
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Ouvi a seguinte história do próprio:

Vangogue está como cuidador de carro na Voluntários da Pátria, bem na frente do Asa. De repente, um assobio forte interrompe sua cantilena com uma cliente. Procura de onde, não encontra. Mais uma vez, o assobio. Olha para cima, terceiro andar do edifício Procopiak. Na varandinha um cara esfrega as mãos, depois acena e mostra um pacote.

Vangogue atravessa a Alameda na direção do prédio. O da varanda diz: segura a sacola, tem um rango nela pra você. Ele estende os braços para o alto. O da varanda lança o pacote e se espatifa no chão. Vangogue cata o pacote e agradece: valeu.

Volta para dentro da Voluntários da Pátria. Faminto que está, praticamente 24 horas de barriga vazia. Senta na escadinha da Ótica, nenhuma loja fica aberta à noite. Sua barba ruiva esconde a boca murcha com uma porção de dente faltando. O cabelo comprido enfiado na toca. Esfrega o nariz na manga do agasalho. Abre o saco, tira a marmita de dentro. Pedaços de mandioca cozida, frios.

É o começo de uma noite gelada. Cinco graus, nem isso. Nessa época do ano o sol da manhã serve para chupar a geada e só. O resto do dia é freezer. Os pedaços da carne, grandes, bem cozidos, desmancham quando ele aperta com o dedo. Falta sal. A comida trava a sua fome na primeira mordida. Com dificuldade mastiga e engole. A carne desce pegajosa pela garganta. Sensação de engasgo.

O vento zune atravessando o cânion da Voluntários da Pátria afunilada pelo Asa e pelo Villanova, um de cada lado da rua. A marmita agora quase vazia. Limpa outra vez a boca na manga do casaco. Depois o nariz. Um carro estaciona. Sai um casal, o cara, pela idade, podendo ser o pai da guria. Sem levantar da escadinha, Vangogue manda um “bem cuidado”. O do carro faz sinal de joia, sem olhar para ele.

O do carro volta duas horas depois, sem a guria, com dois amigos visivelmente bêbados. Vão entrando no carro sem dar moral para o cuidador.

Sai um trocado, amigão?

Não sou teu amigo, rapaz, diz o do carro.

Eh educação, reclama Vangogue.

O que você falou?, diz um dos amigos.

Nada não, doutor, deixa quieto.

Vangogue teve sorte, os caras entram no carro e partem. O desfecho podia ter sido outro, igual viu acontecer noite dessas com um conhecido que guardava carro ali do lado e levou pancada na orelha, depois soco na cara. Correu fugindo para dentro da Osório. Gritos. E dois bagual atrás do coitado. O nariz virou um repolho. A boca do tamanho de um bife. Os chutes já nem doíam. Ficou lá, na madrugada gelada, caído na frente da Boca do Brilho. Vangogue viu tudo, não pôde fazer nada, sobrava para ele.

Lembrando da cena, Vangogue vomita a comida de poucas horas. E, todo sujo, se encolhe ali na escadinha, abraçando as pernas. O ar, de tão frio, difícil de respirar. Em meio à lembrança do conhecido sendo espancado, ao longe, vê uma casa de madeira sem pintura e um menino ruivo vestindo pulôver azul, calça de lona suja de terra e botinas. É ele, antes de ter o apelido de Vangogue, criança, na cidade natal, Carambeí, interior do estado. A paisagem carcomida, as cores fortes vão se apagando, nada mais que a saudade possa alcançar. Nenhum assobio. Vangogue adormece na escadinha da Ótica.

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