Lembro de uma época em que a vida era ao mesmo tempo (essa contradição tão da gente) simples e complicada. Eu fazia parte de um grupo pequeno, cada um com sua história e também misturado com as histórias dos outros. Entre outras coisas, um gosto em comum pela literatura unia a gente. A literatura eram mundos e mais mundos que íamos descobrindo, espaços que pela primeira vez absorviam nossa imaginação.
A gente se encontrava especialmente (mas não só) no Lucca Café. Em volta da mesa tomada por xícaras, as reuniões acabavam por funcionar como uma espécie de oficina permanente de criação literária. Alguém sempre trazia uma ideia, uma história nova que entusiasmava o grupo. Muitas vezes a gente chorava de rir. Rir do absurdo era uma das artes que a gente praticava. Eu vivia anotando frases e ideias no meu caderno.
O tempo passou. As circunstâncias mudaram, talvez para melhor, apesar da vida ter ficado certamente mais complexa para todos. Tantas as preocupações e responsabilidades, afinal de contas. Mas olho para trás e vejo que a gente ganhou muito ali. Crescemos juntos. Aprendemos uns com os outros, partilhando nossas próprias vidas na literatura. A literatura, menos que um refúgio, era uma ponte pela qual podíamos ir, sair, avançar, conhecer, sentir, compreender e descompreender. E era também uma diversão (chorávamos de rir).
Daqueles cinco amigos, a contar comigo, todos continuam, de um jeito ou de outro, ligados ao ofício da escrita. Fabiano Vianna é um reconhecido desenhista e tem livros ótimos de contos publicados. Otavio Linhares é ator profissional, tem se destacado em produções cinematográficas, com contos e romances publicados. Alexandre França é doutor em literatura, teve peças encenadas, tem livros de poesia e romances publicados, além de ser um cancionista de mão cheia. O quarto da patota, Diego Fortes, vive na Alemanha, é um destacado dramaturgo e diretor teatral.
Na época, outras pessoas do nosso convívio vinham com recorrência, mas esse núcleo teve sobremaneira impacto no meu exercício literário. Não vou jamais esquecer as lições indiretas e orgânicas de criação artística. Me alegro quando reencontro hoje em dia esses amigos, embora esparsamente, um de cada vez, e me atualizo de suas vivências. Todos estão maduros no domínio do seu fazer. E, como dizem os jovens, mandando bem demais