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Levando o vampiro pela mão

Um conto em homenagem ao centenário de Dalton Trevisan

Levando o vampiro pela mão
Foto: Nenad Milosevic / Unsplash
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O conto que ora reproduzo aqui foi publicado no meu livro Inverno Dentro dos Tímpanos (Kafka edições, 2008). Com ele, por meio da coluna semanal neste admirável periódico, faço minha homenagem ao Dalton Trevisan.

Ela não é, mas queria ser. A calça jeans deixa o umbiguinho à mostra. All Star, com meia soquete. Blusinha regata branca. Cabelo na altura dos ombros, descolorido.

Um homem — bonezinho enterrado na cabeça, óculos de armação redonda com lentes fotocromáticas, calça bege, tênis New Balance de caminhadas, pulôver com zíper —, no alto de seus quase oitenta anos, baba.
 
“Que Lolita”, diz ele, e dá um tabefezinho nas nádegas, rijas como maçãs. 
“Qual o nome da princesa?”, quer saber. 
“Avril.”
“Abril?”, repete ele fazendo com que o A, forçosamente, soe como a garota disse, assim, “Eibril.” 
E ela, achando graça, então repete o corrigindo. 
“Avril, igual à cantora”, explica. 
Obviamente o homem jamais ouviu algo a respeito dessa Avril, a cantora.
“Das cantoras, minha lindinha, gosto da Sula Miranda e das Irmãs Galvão.”
A guria diz, “Espera meu show que você vai entender por que todo mundo gosta da Avril.”

O show dela não é muito diferente dos que o velhote costuma assistir por aí. A música, em inglês, começa lenta, depois fica agitada. Nesse momento das performances, em geral, as moças já estão completamente peladas, exceção às botas vermelhas de verniz. Alguns ângulos realmente bons, outros de difícil visualização, dada a velocidade estroboscópica das lâmpadas no teto refletidas nos espelhos.

Espetáculo terminado, Avril novamente vem se sentar no colo do seu fã. 
“Gostou?”, e lhe dá uma beijoca na bochecha enrugada. 
“De quê, meu anjo?”, nessa frase ele coloca uma inflexão sutilmente sapeca. 
Então ri consigo, deleita-se por ser capaz de ainda pensar feito um galã.

“Ah, minha pequena Abril.”
“É Avril, querido”, ensina-lhe de novo a menina, agora em tom mais didático. 
E ele, aluninho de english school, repete: “Avril, Avril.”
“Aquela música que eu dancei, sou eu que canto”, diz ela.
“Verdade, amorzinho?”, o vovô dá um meio sorriso, com o qual não se chega à conclusão se aquilo é um deboche ou um riso de ingenuidade, que traz à tona certa felicidade de quem descobre que a netinha fará o papel principal na peça de final de ano do colégio.

Ato contínuo, o ancião se vê frustrado. A menina tem uma súbita postura ética e revela que “Não, não sou eu, só estou fingindo, é a cantora original que está cantando.”
“Sei”, é tudo o que ele diz, confuso das ideias. 
A guria, entendendo que ele não entendeu nada, melhora a justificativa. 
“Ela é a artista em que me espelho.”
O velho então faz uma pausa dramática, de atenção. 
“Eu faço cover dela, dublo e danço que nem ela”, esclarece a menina.
“Ah tá, mas ela também, quer dizer… Trabalha assim?”, o quase octogenário não é capaz de expressar aquilo que pretende.
Mais uma vez é salvo pela tranquilidade e franqueza da amiga.
“Stripper?”, pergunta ela e cai na gargalhada, depois emenda uma segunda indagação, “Quer saber se a Avril também faz?”
E ela mesma responde, “Não, claro que não, imagina”, e mete uma beijoca nas bochechas de buldogue do agora envergonhadinho galã.

Aí ela chama ele de “Meu fofo”, vai até o bar do estabelecimento, pede que sintonizem o rádio dos quartos na FM, abre um Keep Cooler, pega duas toalhas, camisinhas, as chaves, e sobe as escadas levando o vampiro pela mão.

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