Um pequeno grupo de amigos de expressão alemã (alemães e suíços, basicamente), lá pelos anos 1980 e 90, preferia ler Heinrich Böll a outros escritores mais “antigos”. Thomas Mann, por exemplo, estava para eles como Machado de Assis para muitos de nossos estudantes (guardadas as devidas proporções) e era mais uma atividade obrigatória escolar do que uma leitura agradável. Eles achavam muito estranho os brasileiros lerem as imensas obras de Thomas Mann em detrimento de uma literatura mais “acessível”. Mas era uma visão bastante deturpada. “Tamanho não é documento”, diziam já nossos avós.
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Isso não é tão difícil de compreender: meus amigos tinham nascido em fins dos anos 1950 ou nos anos 1960 e lá pelos anos 1970 estavam na escola. Böll é um grande representante da literatura dos anos 1970, não apenas do que se produzia na Alemanha, mas mais por ter sido laureado com o Nobel nessa época. Ele escreveu ininterruptamente desde 1949, numa época de pesada mão americana na Alemanha, numa época de imensa vergonha pela Segunda Guerra e seus horrores e num momento em que o mundo estava se dividindo em duas ou três partes nada muito convidativas às liberdades humanas e tals. Digamos que a literatura de Böll, assim como a de Céline, na França, era uma literatura de oposição à tradição. Meus amigos se sentiam mais representados por Böll (e talvez por Grass), simplesmente, do que por Bernhard (porque grande parte dos meus amigos não considerava a literatura de autores não alemães e que escreviam em alemão, “alemão o bastante”) e autores da velha guarda, como os irmãos Mann.
A Alemanha dita ocidental dos anos 1970 vivia um certo milagre econômico do pós-guerra, e meus amigos viviam muito bem, a despeito do tipo de trabalho que tivessem. Era muito estranho para eles, quando vinham ao Brasil, ver a disparidade econômica e social aqui presente — e o resto, aqui e lá, sabemos ao menos razoavelmente.
Aqui preciso fazer um adendo importante e peço sua paciência. Uma das minhas amigas, gerente de uma multinacional, trouxe para mim, muito feliz, um vidro de perfume da Hugo Boss (na época, era difícil o acesso a perfumes importados). Ela havia ganho o frasco como presente da Lufthansa: a empresa dava presentes muito bons para a classe executiva, mas só havia presentes para homens. Perguntei a razão. A resposta era que a Lufthansa não pensava ser possível cargos altos para mulheres... embora ela fosse um exemplo dessa possibilidade.
Este exemplo tosco, mas muito eficaz, mostra que meus amigos tinham grande facilidade em perceber as contradições brasileiras (muitas, terríveis, indiscutíveis) mas não as deles. Demorei (eu era muito jovem e muito ingênuo) a perceber que, para a maioria dos alemães que vinham para cá, o Brasil era um cardápio exótico de bundas, drinks com cachaça e coqueiros. Essa visão de mundo, carregada de valores e de lugares comuns muito arraigados, esse mundo cheio de contradições, e esse universo onde tudo é possível exceto a imobilidade, tudo isso Böll percebeu muito bem – e ele como que anteviu situações apenas possíveis quando o muro caísse e situações que os escritores de sua geração sequer pensavam ser possível, talvez sendo a exceção a literatura de ficção científica. Longe de mim querer dizer que ele tinha uma bola de cristal, mas grandes escritores não são grandes à toa. Mais que olhar em volta e descrever belamente uma situação, eles estão um passo à frente.
A honra perdida de Katharina Blum — de como surge a violência e para onde ela pode levar é uma das obras mais impressionantes de Böll, e, dada à sua objetividade e brevidade, ela impressiona duplamente. Eu chamaria atenção para o diálogo que ele faz, em relação à linguagem, a outros três tipos de gêneros textuais: o teatro (muito do livro se assemelha à estrutura teatral, notadamente o modo como as informações surgem, como se num palco), o jornal (crítica mais contundente do livro, que ele chama de “panfleto”) e os textos teóricos sobre a escria (o que produz uma leve metalinguagem, de consequências narrativas muito produtivas e curiosas).
Ao narrar parte da vida de uma empregada doméstica, engolfada pelas práticas sociais e pelo discurso perverso de um jornal marrom, Böll encontra tempo para diagnosticar diversos tipos de violência contra a mulher (certamente, à época, o livro não foi visto assim e certamente minha amiga alemã não percebeu que um simples frasco de perfume era símbolo da misoginia), a crítica ao sistema de informação e ao como circulam as informações, muitas delas, “de ouvir falar” e à corrupção aberta de qualquer sistema político, à esquerda ou à direita. Böll, questiona-se, por exemplo, se o governo alemão da época não era um “pseudo-governo de esquerda pela metade” (alguma semelhança? Leia, por favor, e me conte depois).
O mais curioso (?), triste (?), motivante (?) dessa leitura é perceber que Böll escreveu esse livrinho muito antes do advento da internet, ou seja, o modo como as informações circulam hoje é muito mais letal do que o modo como circulavam nos anos 1970.
Uma leitura necessária e atualíssima, de um grande autor de expressão alemã, não exatamente muito divulgado no Brasil. Uma das coisas mais horrorosas na briga atual contra a desinformação e contra as fake news é a perda de tempo não em provar o que é verdade, mas o que é mentira. E isso num momento histórico em que grandes veículos de “informação” aderiram abertamente ao fascismo, que tem como uma das principais ferramentas a desinformação e a mentira deslavada.
Se desejar, compare, com outras obras dele como Pontos de vista de um palhaço e O anjo silencioso. Se quiser verificar como andam as narrativas advindas desse tipo de fazer literário, aconselho Ingo Schulze. Não estranhe encontrar no Brasil obras com essa linguagem despojada de A honra perdida de Katharina Blum. É isso mesmo que anda ocorrendo, quase meio século depois… O problema não é a linguagem despojada e sim a platitude que pode vir junto dela.
P.S.: Para quem curte fofocas do Prêmio Nobel, a escolha de Böll se deu "pela sua capacidade de falar a linguagem de seu tempo e de renovar a literatura alemã". A Alemanha tinha ficado fora da premiação durante bastante tempo – e foi certa ousadia dar o prêmio a um escritor razoavelmente jovem (55), dono dessa escrita "atual" e ainda por cima abertamente de esquerda. O Prêmio já foi muito melhor e muito mais honesto. E, pelas últimas eleições na Alemanha, bom momento para ler Böll.