VOLTAR-SE À ESPERANÇA
Voltar-se à esperança até o ponto em que a terra é quente e não queima e se bebe de canecas sem febre dentro dela.
SÓ A CHUVA ESCUTA
Sua ira perdeu para exaustão. Julga ter adormecido, continua acordado e extenuado. Não cessa de olhar difusas imagens a escoarem do fundo do tempo. Nem mesmo chega em casa, volta para o dia de ontem em que abre a porta e sai. E só a chuva fria te escuta.
O MAIS PENOSO
Não é fazer ares de profundidade. O mais penoso é quando realmente tocamos o côncavo da solidão. Antes, desde dentro da concha, com mais labor e menos melindre, combatamos o auto boicote. Com sangue nos olhos, sim, mas também com cambalhotas de frente e de costas.
O MELHOR AMIGO
Sempre achei que o melhor amigo do homem é o radinho de pilha muito mais que o cachorro. De todo modo, um coração chiando se assemelha muito a um cão carente que, entre dentes, choraminga. Às vezes um radinho de pilha preenche o quarto. Noutras vezes a pilha acaba.
BANDEIRA SALVA-VIDAS
Passando um tempo no som das conchas, no balanço sobe e desce das ondas. Um pequeno pesqueiro flutua no horizonte, pelicanos disputam peixes, bandeira salva-vidas tremula na areia. Tudo quase estático mas o dia não adia a travessia. E a estrela, a mais brilhante, ilumina menos que o sorriso da pessoa mais querida
POEMA DOS AFOGADOS
Cílios úmidos. Não ser um aqualouco que faz acrobacias. Dar o texto ao poema com punhados de água salgada nos pulmões. Fazer isso na frente de todos. Abrir sacos e mais sacos de sal e misturar com a água transbordante. Dar o texto ao poema com pesadíssimos punhados de água salgada colecionada por todos os afogados.
ELEGIA DO MAR ESCURO
Anoitecerá do que foi memorioso o escuro mar outra vez. E de novo. E novamente. Ondas, espumas brancas. E tecerá marés, correntes passando por corais, colares, peixes seculares puxando para os fundos, os fundos, os fundos, os fundos tumulares.
CURA
Pode que a cura do mundo só será cura quando descobrirmos talvez não algo novo, mas algo que estava esquecido há muito tempo.
SEQUESTRO
Pela manhã, do chão recolhia fígado, estômago, coração, vísceras de um corpo desprezado como fossem apodrecidas mimosas. Durante a noite, em casa, cortinas cerradas, livrava-se do figurino de cidadão. Nó de vômito na garganta, despia-se de si mesmo devolvendo o esqueleto sequestrado.
PARQUE DE DIVERSÕES
Dentro do mundo florido e barulhento feito um parque de diversões, está bem óbvio que compramos os inesgotáveis ingressos para o trem fantasma.
NENHUMA METÁFORA
Seis da manhã, a gilete arranca meu rosto do meu rosto. Depois, entram pela cortina direções da luz na carne assente das maçãs na fruteira. E agora a dimensão sonora que a cafeteira evoca do café amargo que a língua conjuga. O resto do dia não teve nenhuma metáfora que valesse a pena anotar.
QUANDO O FIM CHEGAR
O tempo é o osso da forma. Estou me formando aos poucos. Um dia estarei todo (de)composto.