Comecei a ler "Devastação", o novo romance de José Castello, e não consegui largar até chegar na última linha. Não é sempre que um livro faz isso comigo. Quando acontece, lembro que se trata de uma das qualidades mais formidáveis da ficção (aliás, qualidade que todos nós que escrevemos deveríamos perseguir). Mas não é a única qualidade da literatura, muito menos a única de "Devastação". Aqui angústia existencial e prazer literário são camadas de uma obra sobre o colapso do corpo e da mente. Aqui as fronteiras entre realidade e delírio se borram.
A personagem central, Anita, vem sofrendo desmoronamento físico e sensorial que ecoa em todos os aspectos de sua existência. Certa decadência melancólica se manifesta na incapacidade de se conectar com o mundo externo, de manter coerência interna ou mesmo de distinguir entre o que é real e o que é alucinação. Eis um mergulho brutal na finitude.
Ao longo do livro, num carrossel alucinado, vemos entrar em cena galeria de personagens (a cuidadora, o psiquiatra, a vizinha, os pombos ou gralhas, o cachorro, o filho e o neto) que transitam entre a preocupação e o patético, por vezes, descambando para o grotesco.
Esse desfile, de caótica coreografia, condensa-se num clímax teatral, com ações simultâneas acontecendo no apartamento em que Anita reside. A cena da morte do cachorro, por exemplo, permanece indecidida: delírio, realidade? A dúvida se prolonga por causa dos uivos que a idosa continua a ouvir, mesmo após a informação de que Ralfh (cachorro) teria sido assassinado com uma facada no bucho. Eis aí uma das muitas sinalizações de que a percepção de Anita está cada vez mais falhada e assombrada. (Carregado de códigos teatrais — o quarto como palco, o tempo condensado, o entra e sai das personagens com funções específicas —, Devastação, aliás, seria altamente encenável no teatro).
A indecidibilidade entre realidade e imaginação fantasmática aparece também (e especialmente) na presença do espelho em cena, objeto que atravessa a narrativa do começo ao fim e que revela a escabrosa transformação da vida de Anita para a própria Anita. Entre o que vê e o que delira, a idosa, ao olhar obsessivamente para si mesma e se analisar, encarna uma espécie de duplo que, de forma nenhuma, reconhece.
Tudo isso se insere numa atmosfera escura, propiciada pela tempestade que assola o bairro de Copacabana, aqui apresentada como o avesso do cartão-postal solar. A falta de luz (literal e simbólica) e a tempestade que encharca cada uma das páginas do romance criam atmosfera claustrofóbica, vindo a se somar com o declínio material e situacional em que Anita se encontra.
Castello faz uso de uma iluminação quase cinematográfica, criando recortes dramáticos de rostos, sombras e distorções, que acabam por tomar forma expressionista. Há momentos que remetem à linguagem dos filmes de terror, como na cena em que Marly traz um pombo morto para o quarto de Anita. Esses estranhamentos visuais e emocionais nos aproximam não só do cinema, mas também da linhagem literária que tem em Dostoievski a máxima referência.
Devastação é um romance que oferece de fato uma experiência literária. Embora curto, é denso. É perturbador e, ao mesmo tempo, surpreendentemente divertido. Anita está desprovida das máscaras sociais e exibe franqueza despudorada, obscena até, ainda assim profundamente humana. Sua “boca suja” não é rebeldia gratuita, mas um modo final de resistência, de rasgar o tecido das convenções e encarar a própria dissolução.
Uma das cenas mais emblemáticas dessa honestidade brutal é o diálogo da idosa com seu psiquiatra. O que poderia ser um momento terapêutico convencional se transforma em ácida desconstrução de clichês da psiquiatria, numa crítica ferina a determinados profissionais que reduzem a alma humana a protocolos clínicos. Castello opera com ironia e precisão cirúrgica, denunciando a medicalização do sofrimento que, eventualmente (ou irresponsavelmente), pode silenciar em vez de promover escuta.
Somente um autor com a experiência de mundo e de literatura como José Castello, capaz de mergulhar nessas profundidades, consegue extrair beleza mesmo do abismo e transformar o colapso em arte. O resultado (que é resultado também do apuro técnico de uma vida inteira) é uma narrativa fluida e prazerosa de ler.