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Crônica do solitário das multidões

Lá vai o Solitário das Multidões. Anda pelas ruas como quem atravessasse uma cidade em ruínas. Carrega no peito escombros de seus sonhos derrubados

Crônica do solitário das multidões
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Lá vai o Solitário das Multidões. Anda pelas ruas como quem atravessasse uma cidade em ruínas. Carrega no peito escombros de seus sonhos derrubados. Funciona por fora enquanto por dentro é entulho emocional. Conhece tanta gente, aperta mãos, responde e-mails, sorri nos lançamentos de livros, mas é uma casa abandonada com a luz cortada. Estará gritando no miolo da própria cabeça enquanto sorri para as fotos? 

Lá vai ele. Ninguém nota o esforço para manter a coluna ereta, a piada pronta. Nas rodas de conversa, murmura: "pois é", "com certeza", "estamos juntos". É presença sem presença. Fantasma com CPF. Exibe RG vencido enquanto a Certidão de Trevas está sempre em dia.  Performance sustentada à base de cansaço, educação e uma última centelha de cinismo.

Lá vai. Espécie de espelho quebrado no qual alguns (ou todos) podem se ver em fragmentos. O que sobra quando a máscara social cai. Um ser ordinário, dizem. Pessoa comum com a alma fraturada. Alimenta-se mal. Dorme pouco. De manhã, abrir os olhos é abrir um túnel na rocha: escuro, profundo, sem vento. Lá vai o melancólico urbano recusado pela usura. 

Histórias circulam sobre ele: dizem que arrancam seu rabo de crocodilo com serrote em praça pública; que sobreviveu a pelo menos três atentados — físico (um acidente, uma perda), moral (um escândalo, uma injustiça), espiritual (algo se quebrou e nunca mais voltou ao lugar); que um dia encontraram-no nu, só com o olhar ferido, no meio de uma tempestade de mentiras; que já teve seu nome arrancado dos livros; que, mesmo quando tenta falar, as palavras caem mortas como pássaros sem voo; que teve sua sombra roubada deixando-se sempre um passo atrás da luz; que já bebeu a amargura de mil noites sem estrelas; que teve o coração despedaçado e espalhado pelos becos para que ninguém pudesse juntar outra vez. 

Não é de hoje que é bombardeado por notícias, traído por amizades. Não é de hoje que coleciona relógios quebrados, tentando marcar o tempo de uma vida em atraso. Não é de hoje que nos sebos cata moedas fora de uso tentando comprar o passado perdido. Não é de hoje que disfarça sua dor com mulheres do baixo meretrício, tragos de maconha barata, óculos escuros em dias sem sol. Lá vai, fedendo a abandono. A solidão é sua segunda pele, com cheiro que não sai como lodo nas mãos.

Lá vai o Solitário das Multidões, comendo restos de cidades, restos de praças onde ninguém mais senta, restos de janelas que não se abrem. Marionete que cortou os próprios fios, carregando sabe-se lá de que jeito uma estratégia clandestina no bolso do paletó, ele caminha.

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