O relatório final da CPI do “Professor Monstro”, como ficou conhecida a investigação criada para apurar por que um agente de apoio condenado por abuso sexual contra uma criança de três anos continuou trabalhando em creches por cinco anos foi concluído sem apontar responsáveis. O documento, apresentado pela Câmara de Cascavel em 19 de novembro passado, confirma o colapso da rede municipal de proteção, mas não atribui sanções a gestores que ocupavam, e ainda ocupam, posições centrais no governo local.
O possível conluio ganha força porque o relator da CPI, vereador Hudson Moreschi (Podemos), chefiava a Secretaria Municipal de Assistência Social em 2019, quando surgiram as primeiras denúncias contra o agente de apoio Bruno Garcia Leite, condenado em março de 2025 a 30 anos de reclusão. A pasta integra o fluxo obrigatório de atendimento em casos de suspeita de violência contra crianças, mas o relatório não registra ações estruturadas da Assistência Social naquele período.

A Secretaria de Educação, então comandada por Márcia Aparecida Baldini, também permaneceu inerte após a denúncia feita pela mãe da vítima. Não houve afastamento preventivo, elaboração de protocolo específico, comunicação ao Conselho Tutelar ou aviso aos diretores das unidades para as quais o servidor continuou sendo transferido. Baldini permanece no cargo na gestão do prefeito Renato Silva (PL), vice de Leonaldo Paranhos (PL) à época dos fatos. O mesmo grupo político governa Cascavel desde 2017, com apoio expresso do governador Ratinho Jr (PSD).
Pressão popular
A CPI instalada em junho só se tornou realidade por pressão das mães, que passaram a cobrar a Câmara depois que a condenação criminal do servidor se tornou pública. Em abril, um grupo de mulheres realizou manifestação em frente à Prefeitura exigindo respostas sobre a permanência do agente em salas de aula. Com 21 vereadores, a abertura da investigação contou com a assinatura de sete parlamentares.
Após instaurado, o processo legislativo enfrentou mais entraves. O relator solicitou prorrogação do prazo por mais 30 dias, alegando necessidade de “análise aprofundada dos documentos”. O relatório final é categórico ao demonstrar que os mecanismos públicos de proteção não funcionaram. O processo administrativo disciplinar contra Bruno, aberto em 2021, foi prorrogado 18 vezes, sem análise de mérito e sem adoção de medidas protetivas. A Controladoria Municipal, subordinada ao gabinete do então prefeito Paranhos, endossou as extensões. Paranhos afirmou à CPI que desconhecia a gravidade dos fatos ao assinar as prorrogações.
Negligência institucional
Alguns trechos do relatório destacam a negligência institucional. Em uma das passagens, a CPI registra: “A direção (da escola) não foi informada sobre a natureza dos fatos, impossibilitando qualquer controle interno”. Em outra, reconhece falha generalizada: “O fluxo de comunicação entre Educação, Assistência Social e Controladoria mostrou-se ineficaz, resultando em ausência de medidas tempestivas”. E resume: “O sistema de proteção à criança não funcionou em nenhuma etapa”.
Apesar desses apontamentos, o documento pondera que as falhas seriam “institucionais”, não individuais, e não faz recomendações nominais de responsabilização. Com Márcia Aparecida Baldini mantida na Educação, Renato Silva à frente da Prefeitura e Leonaldo Paranhos titular da Secretaria de Turismo do Paraná, o relatório deixa sem resposta por que a estrutura que falhou permanece praticamente inalterada.
Procurados pela reportagem, o relator da CPI, vereador Hudson Moreschi e a Prefeitura de Cascavel não responderam aos pedidos de esclarecimento até o fechamento desta edição. Em nota, Leonel Paranhos afirmou possuir “histórico sólido de combate à exploração de menores”, tendo sido “o primeiro prefeito a agir e demitir um servidor acusado de explorar crianças”. O espaço segue aberto para manifestações dos demais envolvidos.