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Coragem

De uns tempos para cá, adquiri (a palavra não é bem essa), sei lá como, certo medo de altura

Coragem
Cena de "Um Corpo que Cai", de Alfred Hitchcock. Imagem: Reprodução
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De uns tempos para cá, adquiri (a palavra não é bem essa), sei lá como, certo medo de altura. Mas não é só por isso que não pretendo pular de paraquedas. Deve ser uma sensação maravilhosa, mas não fará falta na minha coleção de experiências. No mais, a vida não é um filme de heroi. Ninguém devia ser obrigado, ou se obrigar, a aguentar relâmpagos estourando na cara, arpões sendo cravados nas costas durante o ataque de monstros marinhos, bárbaros em guerra, emboscadas, navios piratas abatidos.

Penso nas coisas que me intimidam (o paraquedas entre elas, os filmes de heróis menos). De todo modo, há no dia a dia mais chão, batalhas que (vou dizer!) são de lascar. Haja paciência, sabedoria e (como não?) coragem. No meio da voragem diária, o que seria, afinal, encontrar a própria coragem? Não é sobre ser destemido, provavelmente, mas reconhecer que, por trás da bravura, há doses e mais doses de insegurança.

Medo, claro, de não darmos conta. Medo da solidão, do seu gelo silencioso. Pavor de perder quem amamos. Pânico do desconhecido. Incertezas do porvir. Temor (vamos dar nome aos bois) da morte. Portanto, haja coragem para sermos frágeis, falhos (franguinhos tal qual Marty McFly). honestos para (quem sabe) ligar para um familiar com quem não falo há anos. Fazer as pazes com alguém. Terminar um projeto que ficou esquecido. Dar um passo na direção do que venho protelando. Mudar. Permanecer. Aprofundar. Deixar ir. Ser gentil em vez de hostil.

Têm estado bem conhecidas essas palavras do Guimarães Rosa: “o correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” Não sei com exatidão o que isso significa. O que é corajoso aqui, vai que é covarde ali, e vice-versa. Quem sabe, coragem seja fazer algo que você não tem certeza se é capaz. Arriscar, se expor. Apenas estar lá. Fazer o que possa ser benéfico, proveitoso, não só para você. E também ser capaz de dizer não. Ou de dizer um grande sim.

Saltar do avião? Está bem, mas para alguns, levantar da cama de manhã pode que seja infinitamente mais difícil. Lembrei agora dos versos da canção Má Fase, da icônica banda curitibana Beijo AA Força: “Impossível um passo à frente / Más notícias em série / Lembrar de não ficar doente / Minha memória não falhe.” Um tanto de coragem talvez tenha sido para os artistas compor esta canção. Um pouquinho de coragem talvez seja escrever uma crônica sobre coragem. Sim, afinal, mais uma vez (ah a coleção de experiências), aqui estou diante de vocês.

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