1 — Eu no cartório dando entrada no casamento. Salete, a escriturária, diz: vou colocar aqui seu nome sem acento, que é como está na Certidão de Nascimento. Depois de trinta e nove anos, descobri que o meu nome, oficialmente, não tem acento. Fiquei chocada. Nunca tinha reparado neste detalhe da minha Certidão de Nascimento. E fui alfabetizada com acento, caramba. Estou prestes a mudar meu sobrenome e me senti uma impostora. Agora tudo faz sentido. Meus documentos todos vêm sem acento, cartões de crédito, tudo, e eu fico pê da vida. Achava que era normal, nunca questionei. Homem fazendo homice: meu pai, desde que eu nasci, colocando acento no meu nome mas esquecendo de conferir no cartório.
2 — “Prestes a mudar o meu sobrenome”, você vai casar?
1 — Sim. Mas é uma saga.
3 — Por quê?
1 — Ué, porque queremos.
3 — Por que é uma saga?
1 — Porque precisa de Certidão de Nascimento atualizada e a minha vem do Rio por Sedex, aí tem que dar três pulinhos, tem que escolher a data pensando na numerologia, etc.
4 — Não deixe de usar o acento, amiga. Casório, cartório, muitos acentos pra você. Se bem que pingo no i é bom também, né!? E, a propósito: viva os noivos!
1 — Agora lá vou eu fazer sessão de terapia por isso. Problemas bobos que atormentam.
5 — Tenho uma amiga que usa um acento nada a ver no nome por causa de numerologia, ela assina: Danìela.
1 — A Anitta diz que o mundo girou melhor pra ela depois da numerologia. O nome real é Larissa, mas ela foi lá e: Anitta.
6 — Gente, tô maravilhada com essa conversa.
3 — Voltando ao que interessa, Senhora, estou feliz com o enlace.
1 — Com quarenta anos vou adotar meu próprio nome, sem acento, na Certidão. Que assim seja, aos trancos e barrancos mas com subidas. Estou casando com um cara de áries e é o meu ascendente também, então entendo a coisa de fábrica.
5 — Deusulivre vocês.
2 — E eu concordo que pingo é mais bonito que acento.
1 — Mensagem da minha terapeuta que tem mais o que fazer: isso de acento não muda em nada. E a minha filha: que chato para você, mãe, agora compra um Mentos Crazy Fruit pra mim? Gente fina foi o cara do Instituto Félix Pacheco, no Rio, que foi à escola. Aos doze anos fiz minha primeira carteira de identidade. Assinei com acento e ele nem reparou. Isso me fez lembrar minha amiga da escola de inglês, Rayanne. A mãe queria esse nome. O pai voltou do cartório e falou que colocou Renata. A mãe estava bebendo água na maca do hospital e quebrou o copo com as mãos de tão braba. Era brincadeira, o pai registrou certo: Rayanne. Nasceu ali o divórcio que aconteceria anos depois. A Rayanne também era a cara Kenny G. E tenho um amigo que se chama Luzastro. Luz e astro, porque a mãe era astróloga.