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Cântico do estillhaço arbitrário

Luiz Felipe Leprevost publica a terceira parte de seu novo poema

Cântico do estillhaço arbitrário
Ilustração: Benett
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Nas ruas, sentindo o cheiro de vômito queimado, 
o acúmulo de testamentos a se formarem.
Cobertos de asfalto, rangendo qual velhíssimos 
prédios prestes a desabar, os mais violentos.
Guerra que não acaba, avalanche derrubando 
bando de homens de punhos fechados, 
olhos cheios de ódio, órbitas enfurecidas, 
galáxias de munição pesada, os mais violentos.
O ferimento da verdade que não podem reconhecer, 
o padecer que eles fazem, os mais violentos. 
A vida, loteria da dor, jogo de azar. 
O mafioso em um terno impecável, 
adestrado para a amnésia, num complacente
arrazoado a submeter seu tendão ao velado 
comando das trincheiras inimigas. 
Quem perde a cabeça na tragédia grega 
dos dias que correm. Quem dá a entrevista 
num programa da tarde contando que queima 
crianças com o toco do cigarro e chora. 
Quem são os donos das dores, predadores. 
Qual é o melhor produto da brutalidade. 
Quem ouve berros sem respostas entre 
os mais violentos. Que doença se espalha 
rapidamente e infecta com raiva epidêmica 
cuja cura foi jogada ao campo de batalha. 
Quem opera a constante vigilância da câmera-centauro. 
Quem aos mascarados de civilidade oferta promessas 
de outro mundo mais xucro. A dor é um legado 
de violência, a violência é um legado de dor. 
Não sabem como parar o sofrimento os mais violentos
em sua jornada de colecionadores de destroçadas mentes. 
Não são mais sequer ameaças, como pode acontecer 
conosco o que só acontece aos outros.
Parecem contos de fadas tipo o corvo de Poe, 
os ratos do flautista de Hamelin, o surto aplacador, 
o esquecimento, a exaustão. E novos espancamentos,
sangue endurecido no estômago. E o fogo alto da fornalha 
da indiferença dos mais violentos. Nenhum remédio
para o tormento das visões que se agravam 
dissimulando não haver sangue, agonia, 
aflição e padecimento. Oh sim, a violência 
é uma história longa nas entranhas do tempo, 
um pergaminho escrito com o sangue das gerações, 
uma cusparada de deuses falhos. Cada clique, 
uma ausência de milagre. Cada disparo, 
um hino da arbitrariedade. Sua dança 
de pólvora e gatilhos puxados pelo dedo indicador, 
serva cólera, ira fria da decisão desalmada. 
Bala, miúdo míssil a penetrar a carne como 
um versículo do apocalipse. Substância comburente, 
ignição que inicia a faísca, a elevação de temperatura, 
a explosão. Depois, silêncio. E abutres pairando sobre.

Leia as duas primeiras partes do poema:

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