Nas ruas, sentindo o cheiro de vômito queimado,
o acúmulo de testamentos a se formarem.
Cobertos de asfalto, rangendo qual velhíssimos
prédios prestes a desabar, os mais violentos.
Guerra que não acaba, avalanche derrubando
bando de homens de punhos fechados,
olhos cheios de ódio, órbitas enfurecidas,
galáxias de munição pesada, os mais violentos.
O ferimento da verdade que não podem reconhecer,
o padecer que eles fazem, os mais violentos.
A vida, loteria da dor, jogo de azar.
O mafioso em um terno impecável,
adestrado para a amnésia, num complacente
arrazoado a submeter seu tendão ao velado
comando das trincheiras inimigas.
Quem perde a cabeça na tragédia grega
dos dias que correm. Quem dá a entrevista
num programa da tarde contando que queima
crianças com o toco do cigarro e chora.
Quem são os donos das dores, predadores.
Qual é o melhor produto da brutalidade.
Quem ouve berros sem respostas entre
os mais violentos. Que doença se espalha
rapidamente e infecta com raiva epidêmica
cuja cura foi jogada ao campo de batalha.
Quem opera a constante vigilância da câmera-centauro.
Quem aos mascarados de civilidade oferta promessas
de outro mundo mais xucro. A dor é um legado
de violência, a violência é um legado de dor.
Não sabem como parar o sofrimento os mais violentos
em sua jornada de colecionadores de destroçadas mentes.
Não são mais sequer ameaças, como pode acontecer
conosco o que só acontece aos outros.
Parecem contos de fadas tipo o corvo de Poe,
os ratos do flautista de Hamelin, o surto aplacador,
o esquecimento, a exaustão. E novos espancamentos,
sangue endurecido no estômago. E o fogo alto da fornalha
da indiferença dos mais violentos. Nenhum remédio
para o tormento das visões que se agravam
dissimulando não haver sangue, agonia,
aflição e padecimento. Oh sim, a violência
é uma história longa nas entranhas do tempo,
um pergaminho escrito com o sangue das gerações,
uma cusparada de deuses falhos. Cada clique,
uma ausência de milagre. Cada disparo,
um hino da arbitrariedade. Sua dança
de pólvora e gatilhos puxados pelo dedo indicador,
serva cólera, ira fria da decisão desalmada.
Bala, miúdo míssil a penetrar a carne como
um versículo do apocalipse. Substância comburente,
ignição que inicia a faísca, a elevação de temperatura,
a explosão. Depois, silêncio. E abutres pairando sobre.
Leia as duas primeiras partes do poema:

