A gente é um bando de pirralho e vai pro centro zoar, faz uns roubos aqui e ali, nada demais. Hoje a gente tá meio esmolando meio vendendo bala na saída da garagem do shopping. Para no sinaleiro uma Range Rover, carro robusto, impondo respeito. O Galinha se aproxima da janela. Por um descuido da mulher que tá dirigindo, o vidro fumê tá aberto. O Galinha pede:
Uma ajuda, moça?
Não tenho nada agora, fala seca e babacona.
O Galinha insiste: só uma balinha.
E a mulher, bem pau no cu: é proibido vender aqui, menino, não viu a placa?
Sei ler não, tia.
Pergunta pro segurança o que tá escrito então, diz a mulher e arranca o carro.
O Galinha vira pra trás e tá ali o segurança do shopping, colete da Anauê Segurança Privada, cassetete, rádio, coturno. Apareceu de surpresa, pelas costas.
O segurança: o que tá escrito na placa?
Sei não senhor.
É o Galinha dizer isso já leva um tapão na orelha. Mais dois seguranças se aproximam. Então a gente corre. Os seguranças atrás da gente montados nas Triumph Tiger 800 cilindradas, a cidade se dobrando sobre a velocidade. A gente pega uma transversal e espera ali por um tempo.
Pra comemorar que conseguimos nos esconder, o Galinha apedreja a vitrine de uma loja. O alarme começa a tocar. A gente se mandou dali.
Os seguranças se materializam de novo na nossa frente.
Fudeu.
Tocam as 800 cilindradas em cima da gente. O chinelo atrapalhava e o Petiço é o primeiro a cair. Múltiplos punhos saltam dos múltiplos braços dos seguranças duros que nem tora. Os socos funcionam iguais demônios alucinados. Quem bate, de tanto bater, também machuca a mão? Até parece. Os caras são uns robocops, tudo blackwaters. O Petiço vira pão sovado molhado no sangue da carne. O beiço dele é uma picanha. Nós outros, apavorados, corremos no atropelo.
Quis enganar, grita um dos seguranças.
Roubou, grita outro.
Gosta de bala, grita o terceiro.
O sol do final de tarde bate nos prédios espelhados. A mais de cem por hora, os carros voam baixo na avenida. A fúria dos xingamentos. As 800 cilindradas atacando a gente. Um segundo da nossa turma cai. Estica os braços pedindo ajuda.
Qual teu nome?
Galinha.
Galinha, que porra de nome é esse?
Winderson, senhor, o meu nome, Galinha o apelido.
Responda uma coisa, se eu cortar a tua cabeça, Galinha, teu corpo anda?
Logo ali na frente já vai tombando o terceiro da turma, o Neri. Zica, o quarto, é arrastado pelos cabelos.
Já tava na hora de cortar essa juba, diz o segurança puxando ele pelo asfalto. Os outros, a gente, corre. Uns cinquenta metros à frente cai o quinto, Piê. Piê chora e pede pela mãe. Agora a turma, já desfalcada, passa por baixo do viaduto.
Pega esses ratos, berra um dos seguranças, a voz ecoando pelo cimento.
A gente consegue sair do outro lado e alcançar a área dos terrenos baldios.
Corre, porra.
E cai o sexto, chamado Matias, o que, entre a gente, já tem barba.
Anoitece. Acendem nas fachadas os letreiros verticais. Os faróis brilham dos carros a deslizarem na avenida.
Vai morrer, vagabundo.
Matias, olhões arregalados: sou vagabundo não, senhor.
O sétimo, o oitavo e o nono tropeçam uns nos outros, tombando embolados. Um camburão dos seguranças se aproxima. Recolhem todos que ficaram para trás. Antes, espancam, pisam, chutam, arrastaram, asfixiam. Dantas e eu (o décimo e o décimo primeiro), a gente consegue chegar no muro do fim de um dos terrenos baldios. Silêncio. Agitação tensa reprimida.
Tem de ter saída.
Um buraco.
Eu e o Dantas, a gente se entoca. Os seguranças procuram e não encontram. Até que vão embora. Duas horas depois, a gente sai do buraco. Na sala de comando da empresa de segurança, o chefe da equipe dá a ordem de que encontrem os dois meninos que conseguiram escapar.
Os garotos são bons, vamos contratar e começar a treinar, vão ser do quadro de profissionais da Anauê, diz o chefe.
Veja as primeiras partes do poema:


