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Anauê Segurança Privada

Leia a quarta parte do poema/texto bélico de Luiz Felipe Leprevost

Anauê Segurança Privada
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A gente é um bando de pirralho e vai pro centro zoar, faz uns roubos aqui e ali, nada demais. Hoje a gente tá meio esmolando meio vendendo bala na saída da garagem do shopping. Para no sinaleiro uma Range Rover, carro robusto, impondo respeito. O Galinha se aproxima da janela. Por um descuido da mulher que tá dirigindo, o vidro fumê tá aberto. O Galinha pede:  

Uma ajuda, moça? 

Não tenho nada agora, fala seca e babacona. 

O Galinha insiste: só uma balinha. 

E a mulher, bem pau no cu: é proibido vender aqui, menino, não viu a placa? 

Sei ler não, tia. 

Pergunta pro segurança o que tá escrito então, diz a mulher e arranca o carro. 

O Galinha vira pra trás e tá ali o segurança do shopping, colete da Anauê Segurança Privada, cassetete, rádio, coturno. Apareceu de surpresa, pelas costas.

O segurança: o que tá escrito na placa? 

Sei não senhor. 

É o Galinha dizer isso já leva um tapão na orelha. Mais dois seguranças se aproximam. Então a gente corre. Os seguranças atrás da gente montados nas Triumph Tiger 800 cilindradas, a cidade se dobrando sobre a velocidade. A gente pega uma transversal e espera ali por um tempo.  

Pra comemorar que conseguimos nos esconder, o Galinha apedreja a vitrine de uma loja. O alarme começa a tocar. A gente se mandou dali. 

Os seguranças se materializam de novo na nossa frente.

Fudeu. 

Tocam as 800 cilindradas em cima da gente. O chinelo atrapalhava e o Petiço é o primeiro a cair. Múltiplos punhos saltam dos múltiplos braços dos seguranças duros que nem tora. Os socos funcionam iguais demônios alucinados. Quem bate, de tanto bater, também machuca a mão? Até parece. Os caras são uns robocops, tudo blackwaters. O Petiço vira pão sovado molhado no sangue da carne. O beiço dele é uma picanha. Nós outros, apavorados, corremos no atropelo. 

Quis enganar, grita um dos seguranças. 

Roubou, grita outro. 

Gosta de bala, grita o terceiro.

O sol do final de tarde bate nos prédios espelhados. A mais de cem por hora, os carros voam baixo na avenida. A fúria dos xingamentos. As 800 cilindradas atacando a gente. Um segundo da nossa turma cai. Estica os braços pedindo ajuda. 

Qual teu nome? 

Galinha. 

Galinha, que porra de nome é esse? 

Winderson, senhor, o meu nome, Galinha o apelido. 

Responda uma coisa, se eu cortar a tua cabeça, Galinha, teu corpo anda? 

Logo ali na frente já vai tombando o terceiro da turma, o Neri. Zica, o quarto, é arrastado pelos cabelos. 

Já tava na hora de cortar essa juba, diz o segurança puxando ele pelo asfalto. Os outros, a gente, corre. Uns cinquenta metros à frente cai o quinto, Piê. Piê chora e pede pela mãe. Agora a turma, já desfalcada, passa por baixo do viaduto.

Pega esses ratos, berra um dos seguranças, a voz ecoando pelo cimento.

A gente consegue sair do outro lado e alcançar a área dos terrenos baldios. 

Corre, porra

E cai o sexto, chamado Matias, o que, entre a gente, já tem barba. 

Anoitece. Acendem nas fachadas os letreiros verticais. Os faróis brilham dos carros a deslizarem na avenida. 

Vai morrer, vagabundo

Matias, olhões arregalados: sou vagabundo não, senhor.

O sétimo, o oitavo e o nono tropeçam uns nos outros, tombando embolados. Um camburão dos seguranças se aproxima. Recolhem todos que ficaram para trás. Antes, espancam, pisam, chutam, arrastaram, asfixiam. Dantas e eu (o décimo e o décimo primeiro), a gente consegue chegar no muro do fim de um dos terrenos baldios. Silêncio. Agitação tensa reprimida. 

Tem de ter saída. 

Um buraco. 

Eu e o Dantas, a gente se entoca. Os seguranças procuram e não encontram. Até que vão embora. Duas horas depois, a gente sai do buraco. Na sala de comando da empresa de segurança, o chefe da equipe dá a ordem de que encontrem os dois meninos que conseguiram escapar.

Os garotos são bons, vamos contratar e começar a treinar, vão ser do quadro de profissionais da Anauê, diz o chefe.


Veja as primeiras partes do poema:

Melô da tiração
Poeta Luiz Felipe Leprevost começa a publicar obra ainda em construção. Acompanhe semanalmente
Funk da metranca
Poeta Luiz Felipe Leprevost publica segunda parte de obra ainda em construção. Acompanhe semanalmente
Cântico do estillhaço arbitrário
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