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Amigo inimigo

No inverno, o amigo inimigo pega um resfriado. E quer chá, carinho, cobertor, seu travesseiro favorito e um filminho na Netflix. Reclama que a sua internet é lenta, tenta conectar o laptop dele, trava a rede da casa inteira. A presença dele afeta até os sinais de Wi-Fi

Amigo inimigo
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O amigo inimigo liga às três da madrugada. Não para desejar feliz aniversário (o que ele nunca lembra) nem para avisar que ganhou na loteria e vai dividir com você (ele jamais faria isso). Liga porque, mistura perigosa, está cheio de amor não correspondido e álcool no sangue. Se você por algum motivo muito estranho (tipo estar dormindo) não atende a ligação, ele deixa um áudio no whatsapp com a língua tão enrolada que você acha que ele aprendeu a falar russo, no entanto, os xingamentos em português você consegue compreender bem. Segundos depois dos "burguês ingrato", “tá se achando muito importante”, envia emojis de coração partido junto com um "te amo". 

O amigo inimigo não pede dinheiro para você pagar uma dívida ou financiar um negócio, não, ele aplica o pequeno golpe do almoço e do cafezinho. “Você paga essa? A próxima é minha.” E já vai levantando e indo para calçada antes mesmo de você responder. Afinal, ele está nos dando a honra da sua companhia. 

Se o amigo inimigo faz uma vez no ano um jantarzinho (leia-se pizza) na casa dele. Significa que você tem que levar sua própria bebida e a sobremesa. Folgado, ele elogia sua namorada. Aquela mesma que antes ele criticava dizendo ter “uma energia meio esquisita” e que agora, misteriosamente, virou “muito inteligente, nossa, que papo bom”. 

Se ele mora em outra cidade, vem para o fim de semana sem avisar. “Surpresa!”, diz já  na porta (onde estava o porteiro que não interfonou avisando?), como se a ideia de tê-lo como hóspede fosse o ápice da felicidade doméstica. Espalha-se no sofá da sala tomando posse. Liga a televisão. Suja os cinzeiros da casa. Usa o banheiro de porta aberta. Faz da intimidade um programa de auditório.

Resolve problemas homéricos pelo telefone, falando alto. Gesticula, discute com o atendente da operadora como se fosse uma questão de Estado. Esquece de trazer a escova de dentes e acha que qualquer uma serve — inclusive a do seu filho com o cabo do Homem-Aranha. Deixa largado e misturado em cima da cama toalha molhada, camiseta, calça, cueca, meia, tênis, desodorante, isqueiro, shampoo. 

É inverno, ele pega um resfriado. E quer chá, carinho, cobertor, seu travesseiro favorito e um filminho na Netflix. Reclama que a sua internet é lenta, tenta conectar o laptop dele, trava a rede da casa inteira. A presença dele afeta até os sinais de Wi-Fi.

O amigo inimigo avisa que vai embora. Hoje. Ocorreu um imprevisto. Precisa voltar urgente. Aparentemente, o mundo depende disso. E, claro, pede seu carro emprestado (com seguro em dia e tanque cheio). Você pensa em negar, mas ele olha com aquela carinha de cachorro carente, conta uma história triste, você acaba entregando a chave. Afinal, todo mundo tem um amigo inimigo. Se você acha que não tem, parabéns: você é o amigo inimigo de alguém.

O amigo inimigo é aquela criatura mitológica que mistura afeto, desastre e um leve toque de possessão demoníaca. No fim das contas, ele é isso: um desastre afetivo a testar os limites da sua paciência e da sua generosidade. Mas, vá entender, você sente falta quando ele some por muito tempo. É que o amigo inimigo tem o talento de transformar a sua vida num caos inesquecível.

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